A edição de 2026 da Shell Eco-Marathon Brasil terminou no Rio de Janeiro com um recorde nacional — e a sensação de que os estudantes poderiam ir ainda mais longe. A equipe Milhagem UFMG BE marcou 401 km/kWh na Protótipo – Bateria Elétrica e superou os 381 km/kWh que vigoravam desde 2024.
NÃO FIQUE DE FORA do que acontece de mais importante no mundo sobre rodas!
Mas a chuva fechou a pista do Píer Mauá pouco depois de ela ser aberta, e categorias inteiras ficaram sem resultado válido — entre elas as duas de hidrogênio.
Vale traduzir a marca: se um carro de rua tivesse essa eficiência, a bateria de 38 kWh de um BYD Dolphin Mini renderia cerca de 15 mil quilômetros sem recarga.
De uma aposta entre cientistas a 47 equipes no Píer Mauá
A Shell Eco-Marathon nasceu em 1939, num laboratório da Shell em Wood River, nos Estados Unidos, como aposta entre pesquisadores sobre quem rodaria mais longe com um galão de combustível. O vencedor fez 49,73 milhas por galão, o equivalente a 21,1 km/l.
A brincadeira virou competição formal em 1985, na França, e chegou ao Brasil em 2016. Em dez anos, passaram por ela cerca de 300 equipes de mais de 60 instituições; a de 2026 reuniu 47 times e mais de 500 estudantes de Brasil, Colômbia, México e Peru.
A regra é simples e brutal: percorrer a maior distância possível com a menor quantidade de energia. Há duas classes de veículo — Protótipo (ultraleve e rasteiro) e Conceito Urbano (que precisa parecer um carro de verdade) — e três fontes de energia: combustão interna, bateria elétrica e célula de combustível a hidrogênio. As categorias, porém, não são escolha da patrocinadora.
“Nós oferecemos as categorias que as universidades dizem querer pesquisar. São elas que definem, e por isso categorias surgem e desaparecem”, explicou ao AutoPapo Norman Koch, gerente-geral global da Shell Eco-Marathon. Em 40 anos, já houve disputas a éter dimetílico, a gás natural e a energia solar.

Dez voltas, 25 minutos e o motor desligado
Cada equipe precisa completar dez voltas em até 25 minutos, com seis tentativas para registrar marca válida — um segundo acima do limite invalida tudo.
“Quanto mais rápido você anda, mais energia gasta. As equipes tentam ir o mais devagar possível dentro do tempo”, resumiu Ian, britänico piloto voluntário da Shell que levou a reportagem para uma volta num Conceito Urbano construído em Taiwan.
A pilotagem é uma engenharia à parte: os carros aceleram por poucos segundos, desligam o motor e seguem de inércia — o burn and coast, que as equipes brasileiras apelidaram de banguela. O piloto caça desníveis do asfalto e evita mexer no volante, porque cada correção vira atrito. Os pneus, calibrados a pressões altíssimas, são quase maciços.
“Não são nada confortáveis. E, quando um pneu estoura, parece um tiro de espingarda”, disse Ian. Nos protótipos, o calor é tanto que os pilotos saem depois de dez minutos.

Roçadeira adaptada e alumínio naval
O carro que fez 556 km/l em 2026 e deu à Drop Team, do IFRS Erechim, o hexacampeonato na Protótipo – Combustão Interna usa um motor Honda GX25 de roçadeira, com cerca de 1 cv de fábrica.
“Não tem muito segredo, a gente abre, a gente expõe. O motor foi escolhido a dedo pelos participantes mais antigos, e os mais novos foram achando a configuração ideal”, contou o capitão da equipe. Em 2023, a Drop Team cravou o recorde brasileiro de 716 km/l, o equivalente a ir de São Paulo a Florianópolis.
Na Milhagem, da UFMG, o protótipo elétrico pesa cerca de 35 kg, tem carenagem de fibra de carbono e é pilotado deitado, sem volante, por manetes. “A gente fabrica ele pra ser o mais leve e correr o máximo na inércia possível”, explicou um integrante da equipe.
O mesmo carro venceu a etapa americana, em Indianápolis, em abril, com 469,7 km/kWh. O Conceito Urbano da Milhagem, com placas eletrônicas e volante anatômico feitos pelos alunos, levou a categoria a combustão com 65 km/l.
No hidrogênio, a conta é ainda mais fina: o cilindro de 300 bar é mantido a 150 bar por segurança, mas a célula trabalha entre 0,6 e 0,7 bar.
“A célula PEM já existe há várias décadas, mas a eficiência dela tem que ser muito bem estudada. Agora a tecnologia está tendo um salto na evolução”, disse o professor Sebastião Ribeiro Júnior, da engenharia elétrica da UFPR, cuja equipe usa alumínio tubular e trechos de alumínio naval nos cubos de roda: “A roda é mais leve até do que a de uma bicicleta”.

O que sobra disso tudo
Koch afirma que boa parte da inovação fica escondida. “Vimos muita pesquisa em materiais: compósitos que não são só fibra de carbono e de vidro, mas fibras biodegradáveis. Vimos carros feitos de bambu ou de cânhamo. E há muita propriedade intelectual nos programas que modelam a pilotagem.”
Sobre os brasileiros, é direto: “Seja um estudante de Berlim, de Pequim ou de Boston, eles cometem os mesmos erros e têm as mesmas ideias brilhantes”.
O teto do que é possível segue distante: o recorde mundial da competição com gasolina é de 3.771 km com um litro, do protótipo Microjoule, da escola francesa La Joliverie, em 2009. Com pouco menos de 11 litros — menos de um quarto do tanque de um carro popular —, aquele carro daria a volta ao mundo.
Newsletter
Receba diretamente em seu e-mail notícias, dicas e conteúdos exclusivos que foram destaque no AutoPapo
👍 Curtiu? Apoie nosso trabalho seguindo nossas redes sociais e tenha acesso a conteúdos exclusivos. Não esqueça de comentar e compartilhar.
Ah, e se você é fã dos áudios do Boris, acompanhe o AutoPapo no YouTube Podcasts: