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Dia Mundial do Coração – Alimentação e Coração: o que a ciência mostra?

O Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro, reforça uma mensagem simples e respaldada por décadas de pesquisa: a alimentação é uma das ferramentas mais poderosas e mais acessíveis para prevenir infarto, AVC e morte cardiovascular. Estudos randomizados de grande porte mostram reduções de risco cardiovascular entre 20% e 50% associadas a padrões alimentares específicos, dependendo da população e do desenho do estudo (Estruch et al., New England Journal of Medicine, 2018; de Lorgeril et al., citado em Guasch-Ferré e Willett, Journal of Internal Medicine, 2021).

Alguns alimentos têm maior robustez em relação aos estudo e nos dão base no trabalho com os pacientes no dia a dia.

Azeite de oliva extravirgem

O estudo PREDIMED, um ensaio clínico randomizado espanhol com 7.447 participantes de alto risco cardiovascular, mostrou que a dieta mediterrânea suplementada com azeite de oliva extravirgem reduziu em 30% o risco do desfecho composto de infarto, AVC e morte cardiovascular, em comparação a uma dieta de baixo teor de gordura (Estruch et al., New England Journal of Medicine, 2018). Na análise por protocolo (participantes com boa adesão), a redução de risco chegou a 58%.

Castanhas e oleaginosas (nozes, amêndoas, avelãs)

No mesmo estudo PREDIMED, o grupo que recebeu a dieta mediterrânea suplementada com mix de castanhas teve redução de 28% no risco do desfecho cardiovascular composto, além de 42% de redução no risco de AVC (O’Keefe et al., Journal of the American College of Cardiology, 2020). Meta-análises populacionais também associam o consumo regular de nozes a menor incidência de doença cardiovascular (Yu, Malik e Hu, Journal of the American College of Cardiology, 2018).

Peixes e ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA)

O consumo de peixe ao longo da vida foi associado a menor risco de eventos cardiovasculares em 24 estudos prospectivos que reuniram mais de 714 mil indivíduos de diversos países (Mensah et al., 2025 ACC Scientific Statement, Journal of the American College of Cardiology). Níveis plasmáticos mais altos de EPA e DHA os (ácidos graxos poli-insaturados) do peixe foram associados a reduções de 21% a 61% no risco de eventos cardiovasculares em diferentes coortes, incluindo o Cardiovascular Health Study e o MESA (Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis).

Frutas, vegetais e grãos integrais

Uma meta-análise de 22 estudos de coorte mostrou que a maior adesão a um padrão alimentar rico em frutas, vegetais, leguminosas, grãos integrais, peixe e aves associou-se a 31% menos risco cardiovascular, enquanto o padrão “ocidental” (carnes processadas, frituras, doces, refrigerantes) aumentou o risco em 14% (Yu, Malik e Hu, Journal of the American College of Cardiology, 2018).

Leguminosas

O aumento no consumo de leguminosas (feijões, lentilhas, grão-de-bico) foi uma das mudanças dietéticas que diferenciaram os grupos de intervenção no PREDIMED, contribuindo para o efeito protetor observado no estudo (O’Keefe et al., Journal of the American College of Cardiology, 2020).

A tabela a seguir resume as porções utilizadas nos protocolos de dieta mediterrânea dos estudos PREDIMED e CORDIOPREV, que serviram de base para os efeitos cardioprotetores descritos acima.

AlimentoQuantidade recomendada
Azeite de oliva extravirgem4 ou mais colheres de sopa por dia (40–60 g/dia); no PREDIMED, 50 g/dia
Castanhas e oleaginosas (nozes, amêndoas, avelãs)3 ou mais porções por semana (mix PREDIMED: 30 g/dia — 15 g nozes, 7,5 g amêndoas, 7,5 g avelãs)
Peixes e frutos do mar (preferir peixes graxos)3 ou mais porções por semana, incluindo ao menos 1 porção de peixe graxo
Frutas frescas3 ou mais porções por dia
Vegetais2 ou mais porções por dia (ao menos 1 crua ou em salada)
Leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico)3 ou mais porções por semana
Grãos integrais6 porções por dia (preferencialmente integrais)
Carnes vermelhas e processadasMenos de 1 porção por semana

O padrão alimentar importa mais do que alimentos isolados

A evidência mais consistente não vem de nutrientes ou alimentos únicos, mas de padrões alimentares completos. O CORDIOPREV, um ensaio clínico de prevenção secundária, mostrou redução de 27% no risco de eventos cardiovasculares maiores em pacientes com doença cardiovascular estabelecida que seguiram a dieta mediterrânea, comparados a uma dieta de baixo teor de gordura (Hernández-Cacho et al., Current Atherosclerosis Reports, 2026). Já o Lyon Diet Heart Study, um ensaio de prevenção secundária em sobreviventes de infarto, encontrou redução de 47% no risco de reinfarto e morte cardiovascular com uma dieta mediterrânea rica em ácido alfa-linolênico (um tipo de ômega 3 de origem vegetal) (Guasch-Ferré e Willett, Journal of Internal Medicine, 2021).

Diretrizes de sociedades médicas incluindo os padrões DASH, dieta mediterrânea, “healthy US” e padrões vegetarianos/flexitarianos convergem em recomendações semelhantes: priorizar grãos integrais, frutas, vegetais, castanhas, leguminosas e peixe, substituindo gorduras saturadas por gorduras insaturadas (azeite, abacate) e reduzindo sal, carnes processadas, alimentos ultraprocessados e açúcar adicionado (Guarneiri e Maki, Current Atherosclerosis Reports, 2023).

Pontos de Atenção

Do lado oposto da balança, carnes processadas, grãos refinados e bebidas açucaradas mostram associação consistente com maior incidência de doença cardiovascular nas mesmas meta-análises que sustentam os benefícios dos alimentos cardioprotetores (Yu, Malik e Hu, Journal of the American College of Cardiology, 2018).

O conjunto dessas evidências reforça que a proteção cardiovascular não depende de um único “alimento milagroso”, mas da combinação consistente de azeite de oliva, castanhas, peixe, leguminosas, frutas, vegetais e grãos integrais, associada à redução de carnes processadas, grãos refinados e bebidas açucaradas. É essa soma de hábitos, mais do que qualquer nutriente isolado, que sustenta as reduções de risco cardiovascular observadas em estudos como PREDIMED, CORDIOPREV e Lyon Diet Heart Study. Nesse Dia Mundial do Coração, a mensagem prática é clara: pequenas mudanças no padrão alimentar diário, mantidas ao longo do tempo, têm impacto real na prevenção de infarto e AVC.

Referências

  • Estruch, R., et al. “Primary Prevention of Cardiovascular Disease with a Mediterranean Diet Supplemented with Extra-Virgin Olive Oil or Nuts.” New England Journal of Medicine, 2018.
  • Guasch-Ferré, M., e Willett, W. C. “The Mediterranean Diet and Health: A Comprehensive Overview.” Journal of Internal Medicine, 2021.
  • O’Keefe, J. H., et al. “A Pesco-Mediterranean Diet with Intermittent Fasting.” Journal of the American College of Cardiology, 2020.
  • Yu, E., Malik, V. S., e Hu, F. B. “Cardiovascular Disease Prevention by Diet Modification.” Journal of the American College of Cardiology, 2018.
  • Mensah, G. A., et al. 2025 ACC Scientific Statement sobre inflamação e doença cardiovascular. Journal of the American College of Cardiology, 2025.
  • Hernández-Cacho, A., et al. Resultados do estudo CORDIOPREV. Current Atherosclerosis Reports, 2026.
  • Guarneiri, L. L., e Maki, K. C. “Diet Pattern, Cardiovascular Disease, and Cardiometabolic Risk Factors.” Current Atherosclerosis Reports, 2023.

Por: Silvia Ramos
Nutricionista Membro do Departamento de Nutrição da SBD

@nutri.silviaramos

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