No UFC eleitoral, grito virou golpe

Depois de uma campanha combativa, o “Exército de Lula” mostrou a que veio. O “Bora Lula” do primeiro turno ganhou força e, no domingo (11), fez o que o PT sabe melhor: colocar gente nas ruas.

A manifestação na Paulista teve 261 mil pessoas, de acordo com o Poder360. Segundo os organizadores, chegou a 1 milhão. O fato é que o número de participantes impressionou.

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Um dia depois, em Copacabana, apoiadores do presidente lotaram quatro quarteirões. A estimativa de público ainda precisa ser confirmada. Para um candidato que não compareceu aos debates, é um feito. A campanha de Lula precisava de uma imagem. Agora, a tem.

Com 2.224.965 votos a menos que Flávio no primeiro turno, Lula tem uma missão árdua: convencer parte dos 33 milhões de brasileiros que se abstiveram a sair de casa para votar.

É tão difícil quanto parece. No Brasil, o índice de abstenção no segundo turno costuma ser mais alto do que no primeiro: em 2014, a diferença foi de 1,71 ponto percentual; em 2018, de 0,97. Em 22, a tendência se inverteu: a abstenção caiu 0,36 ponto percentual entre os dois turnos. É com uma virada assim que o PT conta: convencer parte dos 21,08% dos eleitores que não votaram no primeiro turno a sair de casa e escolher Lula.

Meta ousada na eleição com o maior índice de abstenção desde 1998. Dos 158,7 milhões de eleitores aptos, 125,3 milhões compareceram às urnas no primeiro turno – cerca de 1,6 milhão a mais que em 2022. O eleitorado cresceu, mas a proporção dos que foram votar caiu.

Votos de Zema e Caiado são difíceis para Lula; entre os de Cury e Renan, há alguma chance

A campanha de Lula sabe que não tem muito como recorrer aos 9,1 milhão de eleitores que escolheram a “terceira via”. Ao todo, Augusto Cury, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado somaram cerca de 9,1 milhões de votos. Com os demais candidatos, foram aproximadamente 9,3 milhões, cerca de 7.8% do eleitorado.

É muita gente. Entretanto, conquistar a maior parte desses votos parece praticamente impossível.

Os quatro candidatos à presidência da República somaram 7,8% dos votos. Foto: Inteligência ARtificialOs quatro candidatos à presidência da República somaram 7,8% dos votos. Foto: Inteligência ARtificial

De acordo com a última pesquisa PoderData/Aya, divulgada antes do primeiro turno, Lula poderia levar aproximadamente 2,3 milhões desses eleitores, enquanto Flávio Bolsonaro conquistaria cerca de 5 milhões.

O motivo é o mesmo que transformou Lula em Lula: alinhamento ideológico.

Romeu Zema é um empresário liberal e católico. Mineiro clássico. Passou grande parte da campanha criticando o governo Lula em praticamente tudo, como fazia desde o início de sua vida política.  Nos três dias anteriores ao primeiro turno, grandes nomes de seu partido, como Marcel van Hattem e Marina Helena, pediram que ele abrisse mão da candidatura para apoiar Flávio. O discurso era tentar “varrer o PT” ainda na primeira etapa.

Caiado é agro. É Centro-Oeste, interior do país. Conservador nos costumes e empreendedor na economia.  E o agro brasileiro é um eleitor tradicional da direita. Em 2022, Bolsonaro venceu em oito dos dez municípios com maior valor de produção agrícola, segundo o ranking do IBGE de 2021. As duas exceções ficaram na Bahia. Em Sorriso e Nova Mutum, ambos em Mato Grosso, ganhou com mais de 74% dos votos válidos.

Zema e Caiado declararam apoio à candidatura do PL logo após o primeiro turno. Nenhum dos dois elogiou Flávio por suas realizações; deixaram claro que o objetivo era tirar Lula.

Entre os eleitores de Cury, Lula pode ter alguma chance. O escritor e psiquiatra buscou se apresentar como alternativa à polarização e  apresentou propostas de saúde mental, valorização dos professores e proteção às mulheres, temas também contemplados no discurso de Lula.

Cury, porém, declarou apoio a Flávio mediante a assinatura de um documento em que o presidenciável assume alguns de seus compromissos de campanha.

Renan Santos não quis saber de nenhum dos dois. Disse que o bolsonarismo tomou conta da direita e que defendeu sua candidatura com dignidade, apesar de ser chamado de comunista.

“Vocês sabem minha opinião sobre os dois candidatos, não me empurrem e não pensem que vão humilhar a mim e ao meu grupo ou nos forçar a nada”, completou.

Nas redes, porém, faz suspense. Comprou uma cortina vermelha e disse que “gosta da ideia”, mas logo reafirmou que odeia o PT e nunca votaria no partido. Também declarou sentir asco por Flávio Bolsonaro, cuja vitória considera certa.

É entre os eleitores de Cury e Renan que Lula encontra mais espaço para conquistar votos. Segundo o PoderData/Aya, o petista teria 27% dos votos dos eleitores de Cury e 25% dos de Renan. Ainda assim, ficaria atrás de Flávio, que levaria 58% e 48%, respectivamente.

Segundo o DataFolha divulgado no dia 8 de outubro, 46% desses eleitores migram para Flávio; 32% para Lula e 15% não votam em nenhum dos dois.

Lula desaprendeu a falar com o trabalhador brasileiro?

Flávio tem um cenário mais favorável entre os eleitores dos outros concorrentes, mas a possibilidade de transferência não significa voto. E aí mora outro problema: no primeiro turno, o eleitor já chegou às urnas decidido. Por isso, a votação dos candidatos à terceira via foi a mais baixa já registrada. É como se o brasileiro tivesse escolhido logo seu candidato e não manifestasse intenção de mudar. Aí, Lula tem outro problema, talvez ainda maior: para convencer o eleitor a ir votar, vai precisar falar com a classe média. E parece que ele desaprendeu.

De acordo com análise divulgada pelo Ranking dos Políticos, Lula só venceu Flávio no recorte da classe E. No da classe C, Flávio teve 53% contra 37% de Lula. Uma diferença de 16 pontos percentuais. O levantamento considera o perfil de renda dos locais de votação, não a renda individual de cada eleitor. O jornalista Pedro Doria resumiu o problema:

“A esquerda brasileira passou quatro anos achando que tem problema com a elite. Não tem. A elite votou nela.”

Para o jornalista, o problema da esquerda brasileira hoje é se comunicar com a classe média baixa: o “CEO de MEI”. O Meio, veículo para o qual Doria trabalha, analisou os locais de votação e identificou um movimento pró-Flávio Bolsonaro mais expressivo nas cidades pequenas e médias.

Nas cidades com mais de um milhão de eleitores, o deslocamento na diferença entre os candidatos foi de 2,5 pontos percentuais em relação à disputa de 2022. Nas cidades com menos de dez mil eleitores, foi de 12 pontos. Mais da metade dos votos que Flávio ganhou a mais do que o pai veio de cidades com menos de 50 mil eleitores.

No Nordeste, as capitais pouco mudaram, enquanto o interior avançou à direita. Ali, Flávio ganhou mais de um milhão de votos em relação a Bolsonaro, segundo o levantamento. No Sul rural, Lula passou de 42% para 32%.

Quem se mexeu foi o Brasil das cidades pequenas.

E não foi apenas uma questão geográfica. Nas seções eleitorais de perfil de renda A e B, Lula avançou de um a 2,5 pontos percentuais. Nas de perfil D e E, Flávio cresceu de quatro a cinco pontos.

Isso significa que o bairro rico foi para Lula; a periferia, para a direita. É nesse eleitorado que o presidente precisa recuperar terreno e não parece disposto à brincadeira. O ponto é que não foram essas pessoas que se viu na Paulista no sábado nem em Copacabana no domingo.