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Por que o Amapá é o único estado do Brasil sem estrada para o resto do país

Quem mora em Macapá pode pegar o carro e dirigir até a União Europeia, mas não até Belém. O Amapá é o único estado brasileiro sem ligação rodoviária com o restante do país. A única saída por terra é a ponte sobre o rio Oiapoque, que leva à Guiana Francesa, território ultramarino da França.

NÃO FIQUE DE FORA do que acontece de mais importante no mundo sobre rodas!

Para se conectar ao resto do Brasil, tudo passa pela água ou pelo ar. Carretas atravessam embarcadas em balsas nas rotas Belém–Macapá e Santarém–Macapá, que funcionam como extensão fluvial da malha rodoviária. Até o combustível chega de barco.

O isolamento voltou ao centro do debate porque a Petrobras confirmou, em agosto, petróleo na costa do estado, com potencial inédito de riqueza na região.

Por que não há estrada

Foz do rio Amazonas vista do espaço
A foz do Amazonas vista da Estação Espacial Internacional: um labirinto de canais e ilhas separa o Amapá do resto do país (Foto: ESA | Divulgação)

Entre o Amapá e o resto do país está a foz do Amazonas, um labirinto de canais, ilhas e várzeas. O rio não tem uma única ponte em todo o seu curso principal. Do lado amapaense, mais de 70% do território é área protegida.

Para ter ideia da régua, uma ponte de Macapá a Belém, a 330 km em linha reta, teria de vencer os canais do Amazonas, cruzar a ilha de Marajó (quase do tamanho do estado do Rio e também sem estrada para o continente) e ainda a baía do Marajó. Só o Amazonas tem cerca de 2 km no ponto mais estreito, em Óbidos (PA). A Ponte Rio Negro, em Manaus, tem quase 3,6 km e custou mais de R$ 1 bilhão.

Ponte binacional sobre o rio Oiapoque
Ponte binacional sobre o rio Oiapoque leva à Guiana Francesa: é a única saída do Amapá por terra (Foto: Wikimedia | Reprodução)

Embaixo d’água, o canal chega a 100 metros de profundidade, e o fundo é um campo de dunas de areia de até 12 metros que se deslocam com a correnteza, segundo tese da Coppe/UFRJ. Na superfície, o nível varia cerca de 10 metros entre a seca e a cheia.

Pesa também a economia: com 88% do PIB em serviços, o estado nunca gerou carga que justificasse a obra. A eletricidade chegou antes do asfalto, pelo Linhão de Tucuruí, a linha que traz energia da hidrelétrica paraense e cruza o rio em torres de 295 metros.

No mapa, a BR-156 parece a saída. Pelo trecho sul, ela desce cerca de 245 km de Macapá até Laranjal do Jari, na divisa com o Pará, e para na beira do rio Jari. Do outro lado fica Monte Dourado (PA), alcançável só de barco, de onde uma estrada local leva a Almeirim, de novo às margens do Amazonas. Nem esse trecho está todo asfaltado: o DNIT contratou em julho mais 62 km de pavimentação, com prazo até 2030.

Torres do Linhão de Tucuruí sobre o rio Amazonas
Torres do Linhão de Tucuruí cruzam o rio Amazonas: a energia chegou ao Amapá antes de uma estrada para o resto do país (Foto: Wikimedia | Divulgação)

Os planos

A estrada Perimetral Norte (BR-210) começou a ser aberta em 1973, em Porto Grande (AP), para ligar Macapá à fronteira oeste. Dos mais de 2.400 km previstos, só cerca de 810 km existem. A ponte de 406 metros sobre o rio Jari, entre Laranjal do Jari e Monte Dourado (PA), começou a ser erguida no início dos anos 2000 e virou pilares abandonados.

Mesmo pronta, ela levaria a outra margem norte do Amazonas, ainda separada da malha nacional pelo rio. Uma ligação de fato exigiria vencer o próprio Amazonas.

Na prática

Dentro do estado, a BR-156 tem 355 de seus 796 km sem asfalto. Um estudo da Unifap mostrou que transportadoras perdem até 20% da mercadoria nas chuvas entre Calçoene e Oiapoque. Um morador indígena ouvido por pesquisadores da Uece explicou a demora da obra: os espíritos da floresta ainda não teriam dado permissão.

O próprio licenciamento do poço esbarrou na distância. Um animal atingido por óleo levaria de 22 a 31 horas até o centro de reabilitação da Petrobras em Belém, e o Ibama exigiu uma base no Oiapoque.

E se o petróleo vierA Petrobras estima até sete anos para começar a produzir, e a operação offshore depende de mar e ar, não de estrada. A pressão cairia sobre o porto de Santana, que movimentou um recorde de 3,8 milhões de toneladas em 2025, sobre os aeroportos e sobre as cidades.

Oiapoque já sente o efeito, com ocupações irregulares e aluguéis em alta. “Os benefícios do petróleo não chegaram, mas as consequências já”, disse o prefeito, Inácio Maciel, à Folha.

A CNI calcula que a Margem Equatorial pode elevar o PIB amapaense em até 61,2%. A experiência local sugere cautela: Calçoene ganhou asfalto em 2007 e não se desenvolveu mais que Oiapoque, segundo a Unifap. Estrada sozinha não basta, e petróleo sem planejamento tende a repetir Macaé.

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