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Editorial: Secretaria do Migrante: uma política de Estado para Santa Catarina

Presidente do Grupo ND, Marcello Corrêa Petrelli Foto: Divulgação/ND Mais

Santa Catarina é fruto do trabalho, da diversidade cultural e da coragem de quem um dia decidiu recomeçar a vida aqui. Desde o século 18, com os açorianos, e posteriormente com alemães, italianos, poloneses, ucranianos, suíços, austríacos e tantos outros, nosso Estado foi se moldando a partir de ondas migratórias que deixaram marcas profundas na cultura, na economia e no modo de vida catarinense.

Foram esses povos que trouxeram técnicas agrícolas, introduziram a cultura do vinho, impulsionaram a indústria têxtil, a cerâmica e a metalomecânica. Também organizaram comunidades e cooperativas que se tornaram pilares do nosso desenvolvimento. Essa soma de esforços construiu um mosaico cultural que hoje é orgulho dos catarinenses e referência para o país: uma identidade marcada pelo trabalho, pela disciplina e pela solidariedade.

O tempo passou, mas a vocação de Santa Catarina para receber novos trabalhadores continua viva. Hoje, somos o Estado brasileiro com a menor taxa de desemprego e com milhares de vagas abertas nos mais diversos setores econômicos. Não surpreende, portanto, que sejamos também o Estado que mais recebeu migrantes nos últimos anos, vindos de outras regiões do Brasil e do exterior, sobretudo da Venezuela e do Haiti.

Esses homens e mulheres repetem a história de seus antecessores: chegam em busca de oportunidades e de um futuro para suas famílias. Encontram aqui um mercado pujante, mas também enfrentam dificuldades de moradia, integração e qualificação. A pergunta que se impõe é simples: como transformar a jornada dos migrantes em benefício coletivo, tanto para quem vem quanto para quem já está?

Um passo significativo está sendo dado pelo presidente da Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina), Gilberto Seleme, ao propor um projeto-piloto de acolhimento em São Miguel do Oeste com foco em habitação, formação e inserção profissional. A iniciativa aponta um caminho concreto e pioneiro para enfrentar a escassez de mão de obra que já se apresenta e que deve crescer ainda mais nos próximos anos, em áreas como logística, construção e operação industrial.

O acolhimento vai além do emprego e do treinamento profissional. É preciso garantir a integração dos migrantes, assegurando sua permanência nas cidades e nas empresas. Significa oferecer condições reais de vida para os trabalhadores e suas famílias. Só assim eles poderão se integrar de forma plena ao mundo do trabalho e às comunidades.

Mas esse movimento precisa ser planejado. Há mais de 150 anos, empresas europeias se organizaram para trazer imigrantes e colonizar Santa Catarina, oferecendo terras e oportunidades a populações que enfrentavam a escassez e a fome. Joinville e Blumenau são bons exemplos: nasceram de uma imigração planejada, resultado de acordos entre o Império brasileiro e companhias de colonização, num modelo que projetou o futuro e deu origem a cidades prósperas.

Hoje, com a tecnologia e as informações disponíveis, é possível reeditar, em bases modernas, um modelo semelhante. O Estado pode identificar previamente os perfis profissionais nas regiões de origem dos migrantes, qualificá-los conforme as demandas locais e organizar sua chegada. Assim, quando estiverem em Santa Catarina, encontrarão moradia, serviços públicos estruturados e uma rede de acolhimento pronta para recebê-los.

Essa organização exige o envolvimento de todos: o Estado, que deve liderar e planejar, as prefeituras, setor produtivo, entidades de classe e sociedade civil. As cidades precisam se preparar com infraestrutura – escolas, creches, saneamento e acesso à saúde pública. A iniciativa privada com moradias, lotes sociais, além das oportunidades de trabalho. Enfim, é preciso oferecer condições básicas para a estabilidade dos novos moradores.

Por isso, propomos que Santa Catarina avance na criação de uma Secretaria do Migrante, responsável por implantar políticas públicas de acolhimento e integração em escala macro. Essa secretaria poderia coordenar toda a jornada do migrante — desde a identificação do perfil profissional em sua origem até o acolhimento definitivo nas comunidades catarinenses.

Trata-se de uma política estratégica, fundamental para preparar Santa Catarina para o futuro. A população do Estado cresceu 21,8% – três vezes acima da média nacional na última década, enquanto o Brasil apenas 6%. E este crescimento deve continuar nos próximos anos, chegando a mais de 10 milhões de habitantes, segundo projeções do IBGE. Isso se deve à expansão demográfica e ao fluxo constante de migração.

Cabe ao Estado se antecipar a esse crescimento com uma política de acolhimento estruturada e permanente. Os benefícios dessa política são claros. Para os trabalhadores, representa dignidade, cidadania e oportunidade de crescimento. Para as empresas, garante produtividade, menor rotatividade e competitividade. Para a sociedade, gera coesão, riqueza e desenvolvimento.

Santa Catarina é um dos Estados mais plurais do país, que precisa de mão de obra para sustentar seu ritmo de crescimento. O momento é agora. Cabe ao governador Jorginho Mello liderar esse movimento histórico e transformar o acolhimento em política de Estado — estruturada, moderna e duradoura.

Assim como no passado, quando diferentes etnias ajudaram a moldar nossa identidade, chegou a hora de renovar esse pacto com os que escolhem viver aqui. Santa Catarina abre as portas. E é preciso garantir que, ao atravessá-las, cada trabalhador encontre não apenas um emprego, mas também um lar, uma comunidade e a chance de crescer. O futuro de Santa Catarina continuará sendo escrito por aqueles que acreditam nesta terra de oportunidades.

 

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