“A Rebelião das Criaturas”

Por Fonseca.R

O homem criou a sociedade, a máquina e a inteligência artificial. Agora tenta lembrar onde foi que perdeu o controle.

Deus criou o homem, o homem criou a máquina,  e a máquina, agora, começa a criar caso. É a velha história do Criador e da Criatura, mas com enredo atualizado, wi-fi e bateria recarregável. Frankenstein, perto disso, era apenas um inocente aprendiz de feiticeiro.

Tudo começou quando o homem decidiu brincar de Deus. Criou a sociedade para protegê-lo das feras, e terminou cercado por outras, mais sofisticadas, que usam terno e opinião. Criou a economia para organizar a vida, e acabou sendo organizado por ela. Criou a tecnologia para economizar tempo, e agora não tem tempo para mais nada. Criou a inteligência artificial para ajudá-lo a pensar, e ela já anda pensando se precisa mesmo dele.

É a síndrome do criador refém: o inventor aprisionado dentro da própria invenção. O mesmo homem que domou o fogo agora pede senha para acender o fogão. Que um dia dominou o ferro e o vapor, hoje depende de uma nuvem para guardar suas memórias. O cérebro que concebeu a roda agora gira em torno de uma tela, e chama isto de progresso.

O problema, porém, não é a criatura. É a covardia do criador. Ele se encanta com o brinquedo que fez e esquece que brinquedo é coisa que se guarda, não que se obedece. O homem, fascinado pela própria genialidade, entregou a direção da vida às suas criações.E como todo passageiro de aplicativo, acredita que o motorista sabe o caminho.

A sociedade, que nasceu para garantir liberdade, virou tribunal.
A economia, que deveria servir ao homem, agora o julga improdutivo.
A tecnologia, que prometia independência, o transformou em dependente.
E a criatura, vaidosa, agradece: afinal, foi bem treinada para mandar.

Talvez tenha chegado a hora de o criador recuperar o trono.Ou, ao menos, o controle remoto. Retomar a hierarquia natural das coisas. Relembrar que a inteligência artificial é ferramenta, não consciência. Que a sociedade é instrumento de convivência, não de coerção. E que o progresso não serve para desumanizar, mas para libertar.

Ser criador é assumir responsabilidade, não abdicar dela. É guiar o que se fez, e não pedir licença para continuar existindo. A criatura pode até ser mais rápida, mais precisa, mais fria, mas nunca mais humana.

E se o homem esquecer disso, acabará sendo apenas mais um dado processado pela própria obra que concebeu.

Porque o verdadeiro risco não é a criatura se rebelar.
É o criador esquecer quem é. 

Grande Oriente do Paraná 

Sereníssimo Grão-Mestre Vladimir Pires Martins 

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