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Por que relutamos tanto em chamar o álcool de droga?

É curioso observar como muita gente torce o nariz quando lê no rótulo de um alimento a palavra “químico”, mas ergue a taça com entusiasmo, no fim de semana, sem fazer a menor pergunta sobre o que está ali dentro. O etanol, nome elegante do álcool que consumimos, é, afinal, uma substância química como qualquer outra. A diferença é que ele vem acompanhado de brindes, risadas e, às vezes, de alguns arrependimentos na manhã seguinte.

O consumo de bebidas alcoólicas acompanha a humanidade desde a Antiguidade. Há registros de fermentação na Mesopotâmia e no Egito há mais de 5 mil anos. Ou seja, o álcool não é uma moda contemporânea; ele faz parte da cultura, da religião e das celebrações humanas há milênios. O problema nunca foi a existência da bebida, mas o excesso. Do ponto de vista químico, o etanol (C₂H₅OH) é rapidamente absorvido pelo trato gastrointestinal e chega à corrente sanguínea em poucos minutos. No fígado, ele é metabolizado principalmente pela enzima álcool desidrogenase, que o transforma em acetaldeído, uma substância tão tóxica quanto o próprio álcool.

Se o álcool altera o funcionamento cerebral, compromete o julgamento e está associado a tantos acidentes, por que relutamos em chamá-lo de droga?

Em seguida, o acetaldeído é convertido em acetato pela enzima aldeído desidrogenase. É nesse caminho metabólico que surgem boa parte dos efeitos desagradáveis do abuso, incluindo a famosa ressaca. Quando o fígado transforma o etanol em acetaldeído, ele cria um intermediário consideravelmente mais tóxico que o próprio álcool.

Se a ingestão é maior do que a capacidade metabólica do organismo, o acetaldeído se acumula temporariamente na circulação. Resultado? Dor de cabeça, náusea, mal-estar e aquela sensação filosófica de que “nunca mais vou beber”. Some-se a isso a desidratação provocada pelo efeito diurético do álcool, que inibe o hormônio antidiurético (ADH), e temos o cenário perfeito para a manhã seguinte parecer uma experiência científica mal planejada.

Em termos simples, a ressaca é o momento em que a química cobra a conta da festa. O fígado trabalhou a noite inteira, o cérebro sofreu a interferência dos neurotransmissores e o organismo acorda pedindo água, silêncio e decisões melhores para o próximo fim de semana.

No cérebro, o álcool atua como depressor do sistema nervoso central. Ele aumenta a ação do neurotransmissor GABA, que tem efeito inibitório, e reduz a atividade do glutamato, que é excitatório. Resultado: diminuição da coordenação motora, lentificação do raciocínio, alterações de julgamento e, em doses maiores, perda de consciência.

Para a Organização Mundial da Saúde, o uso nocivo do álcool está associado a cerca de 3 milhões de mortes por ano no mundo, muitas delas relacionadas a acidentes de trânsito e violência. E aqui surge a reflexão incômoda: se o álcool altera o funcionamento cerebral, compromete o julgamento e está associado a tantos acidentes, por que relutamos em chamá-lo de droga?

Do ponto de vista farmacológico, ele é, sim, uma droga psicoativa. A diferença é que se trata de uma substância lícita, socialmente aceita e culturalmente integrada às nossas rotinas. Não se trata de transformar a indústria de bebidas em vilã. Ela opera dentro da legalidade, gera empregos e movimenta a economia. A responsabilidade, em última instância, recai sobre o consumidor. Assim como qualquer fármaco pode ser remédio ou veneno dependendo da dose, o álcool também segue a velha máxima de Paracelso: “a dose faz o veneno”.

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Talvez o verdadeiro problema não seja a taça de vinho no jantar ou a cerveja no churrasco, mas a ilusão de que “comigo não acontece”. Saber que existem reações químicas envolvidas é um passo importante para tomar decisões mais conscientes. Brindar faz parte da cultura humana; perder o controle não precisa fazer.

Fica a pergunta: se somos tão criteriosos com conservantes, corantes e nomes complicados nos rótulos, por que não aplicamos o mesmo senso crítico ao que bebemos? Não escrevo como um puritano que nunca ergueu um copo. Também sou consumidor, também já brindei com amigos e já experimentei um bom licor depois do jantar. Quem nunca fez isso que atire a primeira pedra, ou a primeira rolha.

A questão não é demonizar a bebida, mas entender o que ela provoca em nosso organismo e assumir a responsabilidade pelos nossos atos. Informação não tira a graça do brinde; apenas nos ajuda a saber quando é hora de parar.

Marco Aurélio da Silva Carvalho Filho é doutor em Química, professor universitário e docente na Uninter.

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