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Desafios da carreira científica no Brasil

De acordo com pesquisadores, para avançar na formação de cientistas, é preciso abandonar a ideia da ciência como atividade vocacional e fazer mais investimentos estruturais

O Brasil registrou quase 270 mil pesquisadores em atividade em 2025, de acordo com o Censo do Diretório de Grupos de Pesquisa (DGP). O número representa um aumento de 50% em relação aos 180 mil de 2014 após quase uma década. Esse salto é fruto de investimentos em infraestrutura e capacitação de recursos humanos, que se ancoram na importância crescente da pesquisa científica. Entretanto, no que diz respeito à carreira científica nacional, alguns obstáculos ainda persistem. Entre eles está o incentivo para a alocação desses profissionais para além do ambiente acadêmico, a atração e retenção de talentos no país – evitando o movimento conhecido como “fuga de cérebros” – e o desenvolvimento de planos de carreira mais robustos a longo prazo.

Na saúde, o próprio incentivo à cultura do médico pesquisador é um pilar fundamental para que o país consiga atingir seu potencial no cenário de pesquisa. Ainda mais em um momento em que o Brasil faz movimentos de atualização no campo das pesquisas clínicas, colaboração entre instituições e estímulo a diversidade. O tema foi debatido por diferentes pesquisadores em saúde na América Latina que participaram do evento Vozes da Ciência Latino-americana, promovido pelo Einstein em maio.

Durante o encontro, panelistas concordaram que o campo evoluiu nas últimas décadas, mas apontaram que o momento pede novos ajustes. Entram na lista de demandas a ampliação de espaços de atuação para os cientistas brasileiros, o aprimoramento da relação entre cientistas e sociedade e a exploração de outras nuances da carreira científica.

Uma nova geração de cientistas

A transformação da pesquisa nos últimos anos carrega mudanças no perfil do pesquisador. Se antes o olhar estava apenas na lógica acadêmica, hoje os esforços estão aumentando para promover o diálogo entre universidade, setor produtivo, indústria e gestão pública desde a formação. Essa demanda parte de uma busca por uma carreira científica para além dos muros das universidades e instituições de pesquisa tradicional.

O movimento é impulsionado pela valorização da ciência translacional, isto é, a ciência aplicável. A área tem como objetivo conectar pesquisa biomédica básica e a inovação em saúde que resultem em produtos, serviços e políticas de impacto no mundo real e tem ganhado espaço nas principais publicações científicas ao redor do mundo. Na saúde, biotecnologia e saúde digital são campos que lideram essa intersecção entre produção de conhecimento e aplicabilidade.

Esse horizonte de atuação, no entanto, ainda está em estágios iniciais no Brasil e na América Latina, o que dificulta a associação entre produzir conhecimento e sua aplicação no mundo real. “Como sociedade, não podemos ter nenhuma dúvida sobre a importância de gerar conhecimento. A atração pela carreira científica começa desde criança”, disse Pedro Lemos, médico cardiologista intervencionista e diretor do Programa de Cardiologia do Einstein. Para ele, é fundamental investir para que as novas gerações tenham uma relação mais íntima com a cultura científica e de inovação.

Em um mapeamento realizado em 2023 pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), o principal entrave citado por pesquisadores no início e meio de carreira foi justamente o baixo nível de apoio financeiro dado a projetos de pesquisa, apontado por 74% dos entrevistados. Outra pesquisa, conduzida pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT/CPCT) corroborou a percepção de que seguir a carreira de pesquisador é uma empreitada difícil.

Parte da solução, de acordo com Kenneth Gollob, diretor do Center for Research in Immuno-oncology (CRIO) do Einstein, envolve promover um ambiente rico em possibilidades de startups e spin-offs. Ele também salientou a necessidade de alinhar as expectativas de investimento e retorno entre os diferentes atores envolvidos nos projetos de pesquisa. Segundo Gollob, ainda existe uma tendência no Brasil por parte dos investidores de exigir participações altas nas empresas em troca de investimentos pequenos.

“A cultura de investimento voltada à criação e ao desenvolvimento de startups ainda precisa amadurecer. Nesse sentido, a competição entre investidores tem um papel fundamental. Quanto mais investidores entrarem no mercado com uma lógica mais equilibrada, mais esse cenário tende a evoluir”, ponderou.

Futuro na ciência e novo perfil de habilidades

Sem um ambiente de pesquisa que transmita segurança e estabilidade, a fuga de cérebros se torna mais um dos grandes desafios para o avanço da ciência brasileira. O aumento da busca por oportunidades no exterior por parte de mestres e doutores fomentou debates sobre retenção de talentos e inspirou programas governamentais. Na avaliação dos especialistas, a demanda é pela construção de uma estrutura mais robusta e longitudinal.

Na visão de Antônio Roque, diretor do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), os países ainda falham em compreender que a ciência precisa ter uma garantia contínua e de longo prazo. “A própria Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) é um exemplo interessante, que tem conseguido se manter com um financiamento previsível, mesmo diante das adversidades. Isso permite fazer planejamento de longo prazo”, afirmou.

O incentivo direto à carreira não é o único fator de influência relevante, aponta Luciana de Piano, coordenadora de assuntos regulatórios do Academic Research Organization (ARO) do Einstein. No diagnóstico da especialista, infraestrutura, equipamentos, bolsas e salários são importantes, mas insuficientes para fixar pesquisadores no Brasil.

O pesquisador vai ser fixado quando ele percebe que aquele ecossistema respeita o seu tempo, a sua vocação, sua carreira e seu propósito. Quando ele consegue acreditar que a sua pesquisa vai ter continuidade e impacto social real”, defendeu.

Além disso, ao se discutir o que deve estar no radar do cientista de amanhã, habilidades como gestão em pesquisa e olhar empreendedor e estratégico despontam como apostas para uma carreira mais fortalecida e alinhada com a tendência global de produção científica. Essa virada de chave não cabe apenas ao pesquisador, mas à maneira como todo o ecossistema de ciência e inovação se organiza.

Nesse sentido, associações de gestão de pesquisa despontam como forma de apoio a uma produção científica mais acelerada, estratégica e eficiente. Os chamados “gestores de pesquisa” são os responsáveis pelas tarefas relacionadas à operacionalização, regulação e financiamento da atividade científica. No Brasil, instituições como o Einstein já disponibilizam esse tipo de apoio aos pesquisadores.

“O back-office da pesquisa é muito importante, e temos que atuar na formação de gestores de pesquisa na América do Sul como um todo”, explicou Aline Pacífico, gerente do Núcleo de Apoio ao Pesquisador do Einstein. “O pesquisador tem uma formação extremamente técnica, e não desenvolve as habilidades necessárias para fazer uma boa gestão. Assim, as organizações precisam criar estruturas para apoiá-los nessas etapas de financiamento e de regulatório.”

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