A mulher na medicina parnanguara

Houve um tempo em que o branco dos jalecos não conhecia outras mãos senão as masculinas. Um tempo em que a ciência caminhava pelos corredores em passos duros e a tradição falava mais alto que o futuro. Ainda assim, entre o sal do mar e o eco dos sinos da Santa Casa, Paranaguá viu nascer uma exceção.

Chamava-se Emília Adelaide Arzua.

Filha de Emílio Arzua e Lúcia Graichen Arzua, veio ao mundo em 1921, quando a cidade ainda aprendia a equilibrar-se entre os cais movimentados e a devoção silenciosa. Seu pai, homem de coragem rara, teve o nome gravado no Diário do Comércio em 1918, após salvar vidas de um incêndio. Talvez ali tenha sido acesa a centelha que iluminaria o caminho da filha — porque há bravuras que atravessam gerações.

Emília partiu cedo de Paranaguá. Levava consigo a curiosidade e a coragem que não cabem em cidades pequenas. Em Curitiba, dedicou-se aos estudos até alcançar a Faculdade de Medicina do Paraná, formando-se em 1947. Não havia residência médica, nem tempo para hesitações: aprendia-se entre a urgência das dores, o improviso das bandagens e o peso imenso de cada vida entregue às mãos ainda jovens.

Quando retornou à cidade natal, a Santa Casa a recebeu sob seus corredores frios, marcados pelo descascado das paredes e pelo silêncio grave das madrugadas. Seu tio, Eugênio José de Souza, era então o provedor. Emília transitava entre o ambulatório e as enfermarias, auxiliava em cirurgias, realizava pequenos procedimentos sozinha. Onde chegava, o cuidado mudava de tom: tornava-se mais atento, mais paciente, quase maternal — sem jamais perder a firmeza que a medicina exige.

Ficou pouco. Apenas seis meses. A fragilidade da mãe chamou-a de volta à capital, lembrando-lhe que, antes de salvar o mundo, era preciso cuidar do que lhe era mais íntimo. Mesmo distante, mantinha laços com Paranaguá, participando das reuniões do Centro Médico, onde compartilhava inquietações, saberes e silêncios da profissão.

Dizia que eram poucos médicos — oito, talvez dez — e que bastavam para uma cidade ainda pequena. Recordava nomes como o do Dr. Annibal Ribeiro Filho e do Dr. Eloy Ricardo Nascimento, e falava do já falecido Dr. Roque Vernalha com respeito quase reverente, como quem reconhece os alicerces antes de erguer novas paredes.

Em 1948, seu nome foi inscrito oficialmente no registro médico parnanguara. Era a primeira mulher. A primeira a vestir o branco entre tantos homens. Um gesto simples, mas definitivo, como quem abre uma porta que nunca mais se fecha.

Perguntada se enfrentou preconceito, respondia com um sorriso sereno:
Não. Aprendi muito com eles.

De volta a Curitiba, escolheu a pediatria — talvez por acreditar que o futuro se cura desde cedo. Dedicou-se ao serviço público, fez da medicina um ofício de presença e escuta. Aposentou-se em 1991, mas não se ausentou da história.

Sua memória permanece como o toque distante de um sino na noite parnanguara: suave, persistente, impossível de ignorar. Lembra-nos que a ciência também pode ser delicada, e que a cura, muitas vezes, fala com voz de mulher.

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