Pesquisa acompanhará 250 pacientes com obesidade grave e avaliará efeitos clínicos, custos e viabilidade da terapia na rede pública
Nesta sexta-feira (26), o Ministério da Saúde, em parceria com o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), lançou um protocolo para analisar a utilização de análogos de GLP-1 no Sistema Único de Saúde (SUS). Conforme antecipado pelo Futuro da Saúde, a intenção é avaliar como a semaglutida pode beneficiar pacientes com obesidade grave associada a comorbidades e com indicação para cirurgia bariátrica.
Denominado REAL-BARI, o projeto acompanhará, ao longo de dois anos, 250 pacientes atendidos pelo SUS. Os participantes serão acompanhados em consultas ambulatoriais periódicas, com realização de exames clínicos e aplicação de questionários. O estudo contará com 91% dos participantes com diagnóstico de obesidade mórbida, sendo que 72% possuem duas ou mais comorbidades.
Apenas 47% têm condições clínicas de realizar a cirurgia bariátrica, para este grupo a pesquisa busca avaliar como o uso da semaglutida pode impactar a perda de peso para permitir a indicação cirúrgica. Para os demais participantes o estudo vai analisar os efeitos no emagrecimento, na qualidade de vida e nos desfechos clínicos, bem como os custos relacionados.
Conforme dados da pasta, os atendimentos relacionados à obesidade no sistema público cresceram 57% entre 2022 e 2025. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o protocolo permitirá acompanhar o uso da semaglutida em condições reais no SUS e avaliar seus efeitos tanto para os pacientes quanto para o sistema público.
“O Brasil está sendo pioneiro na utilização desse medicamento no sistema público de saúde. Estamos estimulando estudos nessa tecnologia para que o país se aprimore, cada vez mais, da sua produção e oferta de forma segura. Nesse primeiro momento, ela é muito importante para o diabetes e obesidade, mas pode se estender também a outras doenças crônicas e até mesmo para tratamento de cânceres”, disse o ministro em coletiva de imprensa.
Segundo Padilha, a expectativa é que a utilização controlada da semaglutida no contexto do SUS também contribua para reduzir custos assistenciais, a partir da diminuição da necessidade de cirurgias bariátricas e do melhor manejo das complicações relacionadas à obesidade. Embora existam estudos internacionais que apontem esse potencial, o ministro afirmou que o protocolo pretende produzir evidências sobre esses impactos na realidade do sistema público brasileiro.
A iniciativa integra o Programa de Cuidado Integral à Obesidade do GHC e conta com parceria da Novo Nordisk, responsável pelo apoio às capacitações das equipes e pelo aporte de recursos para o início da pesquisa. Além de já realizarem acompanhamento médico no Grupo Hospitalar Conceição, os pacientes selecionados possuem diagnóstico de obesidade estabelecido há pelo menos 12 meses e apresentam falha documentada no tratamento clínico convencional, como dietas estruturadas e prática regular de atividade física por pelo menos dois meses. Outro requisito foi ter capacidade de compreender e realizar a autoaplicação da medicação ou contar com um cuidador para esse procedimento. Na ocasião, ainda houve a aplicação da primeira dose de semaglutida em um paciente do protocolo.
Incorporação no SUS
Segundo o ministro a iniciativa é um primeiro passo para avaliar a viabilidade de incorporação dos análogos do GLP-1 no SUS. O ministro destaca que a pasta pretende seguir as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) que recomendam o uso das terapias para o tratamento da obesidade. No entanto, a organização alerta que os sistemas de saúde públicos precisam se preparar para garantir um acesso equitativo e evitar o aumento das desigualdades
Para o ministro, além das evidências clínicas já disponíveis, a incorporação exige compreender como esses medicamentos serão utilizados em larga escala dentro da realidade do SUS. Desse modo, diferentemente dos ensaios clínicos controlados, o protocolo pretende observar o uso da semaglutida nas condições reais do SUS, considerando fatores como o uso domiciliar do medicamento, o grau de instrução dos pacientes, as condições em que vivem e a experiência prévia com medicamentos injetáveis.
Outro desafio apontado por Padilha é garantir a sustentabilidade da oferta. Segundo ele, a ampliação da produção nacional será essencial para reduzir os preços e viabilizar uma eventual incorporação. “Tudo o que envolve o SUS, sobretudo em uma condição clínica que envolve milhões de pessoas, como é o caso da obesidade, ou você tem capacidade de produzir aqui ou você não tem sustentabilidade da oferta dessa medicação. Mais da metade da população brasileira tem sobrepeso e um quarto tem obesidade. Então existe um desafio de produção nacional que estamos trabalhando”, apontou o ministro.
Como estratégia para isso, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) têm estimulado empresas a registrar e produzir os análogos de GLP-1 no Brasil, como forma de ampliar a concorrência e reduzir os preços. De acordo com a pasta, 17 empresas já apresentaram propostas à Anvisa para registrar medicamentos no país.
“A nossa expectativa é que outras empresas também consigam produzir aqui no Brasil. A Anvisa está priorizando aquelas que mostram que podem produzir nacionalmente e, com isso, reduzir o preço praticado. Que atualmente eu diria ser quase abusivo e inviabiliza que um sistema público de saúde consiga garantir a sustentabilidade da oferta”, disse Padilha.
O movimento já começou a refletir no mercado brasileiro. A farmacêutica nacional EMS é uma das detentoras do registro da semaglutida e neste mês começou a comercializar o Ozivy, que tem preço sugerido de R$ 452. Outra companhia brasileira, a Eurofarma, anunciou redução de preços para Poviztra e Extensior, frutos de parcerias com a Novo Nordisk, de até 48%. A Hypera também anunciou, nesta quarta-feira (24), que aguarda o registro sanitário da sua caneta emagrecedora, que já possui nome: Semavy.