Começamos esta crônica, caro leitor, falando de um velho conhecido da humanidade: Caronte, o mítico barqueiro da antiga Grécia. Por uma única moeda, ele conduzia as almas pelas águas escuras do rio Estige, na travessia entre dois mundos. É a ele que recorremos agora, para que nos empreste seu barco e nos leve não ao reino dos mortos, mas ao passado, aos séculos XVIII e XIX, às margens do rio Itiberê.
Ali, muito antes de pontes, passarelas e motores, já existiam os barqueiros de Paranaguá. Homens de mãos marcadas pelo remo e pelo sal, conhecedores das marés e dos silêncios do rio. Eram eles que uniam o continente à recém-formada Ilha dos Valadares, levando pessoas para visitar parentes, fazer compras, trabalhar ou matar as saudades. Mas transportavam também algo invisível: sonhos, esperanças e a necessidade humana de permanecer ligado ao outro lado.
A ilha parecia viver em outro tempo. Enquanto o mundo corria apressado em direção ao futuro, ela guardava o compasso das águas, dos remos e das conversas ao entardecer.
Então chegaram as lanchas, na década de 1950. Houve espanto e previsões apressadas. Seria o fim dos barcos a remo, diziam. Contudo, o rio, que conhece os segredos da permanência, permaneceu em silêncio. Os pequenos barcos continuaram suas idas e vindas, riscando as águas do Itiberê.
Vieram os anos de 1990 e ergueu-se a passarela de concreto. Mais uma vez anunciaram o desaparecimento dos barqueiros. E, mais uma vez, enganaram-se. Os remos continuaram a mergulhar nas águas e os barcos seguiram transportando vidas entre uma margem e outra.
Chegamos a 2024. Uma nova ponte se levanta sobre o rio. O progresso anuncia sua chegada em carros, caminhões e promessas de modernidade. E outra vez se repete o mesmo burburinho: agora os barqueiros serão apenas lembrança.
Mas não.
Lá estão eles. Indo e vindo, na mesma cadência de séculos atrás, como se cada travessia fosse um gesto de resistência contra o esquecimento. Porque aqueles pequenos barcos deixaram de ser apenas um meio de transporte. Tornaram-se símbolos. São a memória flutuante de Paranaguá, a prova de que a identidade de um povo não se mede pela velocidade de suas máquinas, mas pela capacidade de preservar seus gestos mais simples.
Por isso, caro leitor, vá até a margem do Itiberê, perto do Palco Tutoia. Embarque em um desses barquinhos e permita que o remo risque as águas. Talvez descubra que a travessia é breve, mas o tempo que ela percorre é imenso. Porque, em Paranaguá, ainda existem lugares onde os séculos continuam navegando sobre o rio.