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InovaHC: uma década transformando inovação em impacto real na saúde

Em 2025, o Núcleo de Inovação Tecnológica do Hospital das Clínicas da FMUSP (InovaHC) completou seu décimo aniversário. Nestes mais de dez anos, consolidamos um modelo de integração entre hospitais, universidades, startups, indústria e governo, porque acreditamos que as soluções para os gargalos do sistema de saúde dependem do diálogo e do intercâmbio de informações e de experiências, a bem dizer, da conexão entre os agentes dessa complexa rede que podemos chamar de ecossistema da saúde. Nosso maior desafio agora é conectar também as máquinas, tornando os sistemas interoperáveis. O processo já começou, mas ainda há um caminho a percorrer e alguns obstáculos a superar. Temos a certeza, porém, de que estamos construindo a saúde do futuro.

Quando os sistemas conversam entre si, toda a estrutura de funcionamento da saúde opera como uma engrenagem. Na ponta, o atendimento ganha agilidade e segurança: com acesso instantâneo ao histórico do paciente, o médico toma conhecimento de alergias, comorbidades, medicamentos em uso, exames recentes e diagnósticos anteriores. Em emergências, essas informações podem salvar vidas; na rotina, aumentam a eficiência, direcionam a anamnese e evitam exames desnecessários.

A interoperabilidade reduz drasticamente não só a duplicidade de exames como o número de internações evitáveis e de erros. Decisões melhores beneficiam o paciente e o sistema como um todo, liberando recursos para outras áreas. Do ponto de vista da gestão, a integração permite, por exemplo, monitorar em tempo real a chegada de pacientes, a ocupação de leitos e o consumo de insumos críticos, evitando desequilíbrios entre unidades.

A fragmentação dos dados clínicos, hoje dispersos entre diferentes instituições, sistemas e pontos de cuidado, é um dos maiores gargalos tanto do setor público como do privado. No SUS (Sistema Único da Saúde), dificulta a vigilância epidemiológica e atrasa políticas públicas baseadas em evidências. No setor privado, favorece fraudes e erros de faturamento. Para o paciente, a integração significa praticidade, segurança e melhores desfechos. Dados contínuos e integrados também ajudam a prever crises em pacientes crônicos antes que evoluam para internações de alto custo.

As vantagens da interoperabilidade são inegáveis, mas, para que todos esses benefícios se concretizem em escala nacional, é necessária uma infraestrutura capaz de integrar dados de diferentes instituições de forma padronizada e segura. Foi pensando nisso que o Ministério da Saúde criou a RNDS (Rede Nacional de Dados de Saúde), plataforma oficial de integração de dados clínicos do país. O que faltava era fazer o sistema privado conversar com o público na mesma linguagem. Vimos que era possível aproveitar a infraestrutura, a governança e a segurança de dados do mercado financeiro para conectar laboratórios, farmácias, hospitais privados e o próprio SUS. Em parceria com a B3 (Bolsa de Valores de São Paulo), o InovaHC lançou a plataforma de testes OpenCare Interop, sob inspiração do sistema Open Finance do setor bancário. O modelo adota o padrão internacional HL7 FHIR (Fast Healthcare Interoperability Resources), também usado na RNDS, possibilitando a conexão da base de dados do setor privado com a do setor público. Diferentemente da RNDS, porém, o OpenCare Interop não armazena dados clínicos: ele apenas possibilita o tráfego de informações sob autorização do paciente, usando FHIR para garantir padronização.

Graças a essa tecnologia, o médico não precisa baixar extensos prontuários. O FHIR fragmenta as informações em pequenos blocos inteligentes, permitindo buscar apenas o dado necessário, que pode ser uma lista de alergias ou o laudo de uma tomografia. Na medicina diagnóstica por imagem, o padrão DICOM (Digital Imaging and Communications in Medicine) já cumpre esse papel há décadas, garantindo que exames feitos em equipamentos distintos possam ser lidos em qualquer sistema compatível.

A segurança é essencial no tratamento de dados sensíveis, como os de saúde. O OpenCare Interop, naturalmente, atua em conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados): cada transação gera um token único (um código aleatório), os dados são cifrados e todas as operações ficam registradas em trilhas de auditoria. Mesmo assim, sabemos que vulnerabilidades podem ocorrer na ponta, por descuido de usuários. Por isso, a implantação exige também educação para o uso correto da ferramenta.

Um ponto central para a confiança no sistema é que cada instituição mantém os próprios dados, e o acesso depende de autorização do paciente ou responsável. Não há controle centralizado no OpenCare Interop, e o InovaHC atua como “honest broker”, intermediário neutro entre os participantes.

O Ministério da Saúde disponibilizou a infraestrutura nacional para o tráfego seguro de informações clínicas. Alimentar a RNDS com dados padronizados é o passo definitivo para conectar toda a rede de saúde – universidades, hospitais públicos e privados, operadoras, laboratórios e empresas de tecnologia. A RNDS já reúne dezenas de milhões de registros do SUS, e a saúde suplementar vem aderindo progressivamente.

Persistem, no entanto, desafios estruturais: a fragmentação de sistemas, a falta de padronização semântica (com códigos e nomenclaturas divergentes), desigualdades regionais de conectividade e instabilidades temporárias na infraestrutura governamental, que podem represar registros locais. Ainda assim, estamos avançando. A direção está clara, e o esforço conjunto tende a gerar benefícios para toda a sociedade, mesmo em um momento natural de mudança cultural e resistência inicial.

*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.

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