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Novos investimentos chineses miram parcerias e aquisições no Brasil

O Brasil recebeu US$ 6,1 bilhões em investimentos da China em 2025, um aumento de 42% em relação ao ano anterior, com foco em novos negócios e projetos. Energia, mineração e mobilidade elétrica foram as áreas que mais receberam recursos, de acordo com dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Além deles, a saúde tem potencial para ser um novo setor a receber grandes montantes de investimento. 

Em junho, a Aier Eye Hospital Group, empresa multinacional chinesa de oftalmologia, investiu R$530 milhões para se tornar acionista majoritária do Grupo Opty, de hospitais e clínicas oftalmológicos, em uma negociação com o Patria Investimentos. Dessa forma, passou a controlar 35% da companhia.

De acordo com analistas, esse movimento pode ganhar força nos próximos anos, em transações que envolvam empresas de um mesmo ramo. A ideia, segundo consultorias, está em abrir mercado no Brasil, com potencial de trazer empresas chinesas para cá. Áreas como farmacêuticas, dispositivos médicos e pesquisas clínicas estão entre os alvos dos investimentos chineses. 

O cenário econômico mundial, as relações entre os países e ativos disponíveis no mercado de saúde brasileiro estão entre os principais pontos que favorecem essa entrada. Fábricas instaladas no país também podem servir para distribuição na América Latina, além do potencial de fornecer produtos ao Sistema Único de Saúde (SUS) e à saúde suplementar.

“Muitos países, de forma explícita ou não, estão restringindo o investimento chinês. Algumas regiões não possuem uma lei clara contra, mas fazem regras veladas, desde um cálculo a um organismo antitruste. O Brasil não tem um controle de investimento estrangeiro. A nossa legislação dá oportunidade e permite muito que a China faça negócios no Brasil”, aponta Lucas Tavares, sócio do China Desk do Demarest Advogados.

O que favorece a entrada de investimentos chineses no Brasil

Após anos de fusões e aquisições de empresas da saúde brasileiras, com apoio de investimentos estrangeiros, a avaliação de especialistas é que houve uma consolidação do setor. Agora, o cenário abre portas para outros mercados, estimulados por relações comerciais e políticas. 

“Hoje não tem de fato muitos players brasileiros ativos consolidando o mercado localmente, mas tem investidor estrangeiro buscando uma entrada no Brasil, e com um viés um pouco diferente que no passado. Não é mais comum uma aquisição de 100%. Agora o mercado busca parcerias, joint ventures e licenciamentos. São arranjos sofisticados, que fazem mais sentido para o investidor estrangeiro que está alocando capital e para o investidor local que vai ter um suporte de capital estrangeiro”, avalia Vitor Garcia, Managing Director da Alvarez & Marsal.

Do mesmo modo, atualmente empresas chinesas buscam comprar partes minoritárias e majoritárias no Brasil para ampliar sua atuação mundial ou entrar no mercado. Em alguns casos, um fundo financeiro também pode figurar entre os investidores chineses, seja de capital estatal ou privado.

As especificidades do mercado brasileiro também favorecem que optem por ser sócio e não dono integral de negócios na saúde. Isso porque exige todo um entendimento de como funciona o setor, as regulações e o mercado que pode ser cliente, seja para produtos ou serviços.

“Há grande evolução da qualidade da tecnologia chinesa e o que eles estão aportando no mercado como um todo. Temos equipamentos de última geração com tecnologias desenvolvidas por eles e que são conteúdos de equipamentos de grandes fabricantes globais. A China conseguiu se posicionar no mercado oferecendo não só a questão do acesso, que na saúde é super importante, mas o acesso a uma tecnologia de qualidade”, observa André Tenan, sócio-diretor de Life Sciences da Alvarez & Marsal.

Áreas de interesse

Biotecnologia, desenvolvimento de medicamentos, vacinas e dispositivos médicos são algumas das principais áreas com potenciais para a entrada de investimentos chineses no Brasil. Com possibilidade de abrir fábricas e aproveitar autorizações regulatórias de empresas adquiridas, esses segmentos podem ser vistos como estratégicos. 

Apesar da Opty ser uma rede de hospitais e clínicas oftalmológicas, fugindo das principais tendências, o ativo estava disponível no mercado. A Aier Eye Hospital Group, que já atua na Ásia, América do Norte e Europa, viu uma oportunidade de entrar na América Latina através da compra no Brasil. 

“Também estamos vendo que pesquisa clínica está em um momento de ouro no Brasil pela primeira vez. Com o marco legal, regulamentação e autoridades se estruturando, já há excelentes resultados em termos de quantidade de pesquisas conduzidas no país. Isso está atraindo os olhares chineses”, observa Elysangela Rabelo, sócia de Life Sciences and Healthcare do Demarest.

Estudo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) apontou que o Brasil avançou da 18º para a 12ª posição no ranking global de pesquisa clínica, respondendo por 2,9% dos estudos mundiais. Ao atrair investimentos de farmacêuticas, o país deve receber também investidores em busca de aquisições de CRO (Contract Research Organization, no original em inglês), como são chamados os centros que desenvolvem pesquisas.

Rabelo também aponta que há um interesse chinês em radiofármacos. Em 2022, o país aprovou a quebra do monopólio do poder público na produção desses compostos, permitindo a fabricação pela iniciativa privada. Com novas pesquisas e estudos utilizando a tecnologia, o Brasil pode ser visto como um potencial parceiro. 

Brasileiros na China em busca de parceiros e investimentos 

Atualmente, a Câmara de Comércio Brasil – China (CCBRC) está em missão no país asiático com médicos e empresários brasileiros em busca de inovação e tecnologia. Juntos, de acordo com o grupo, eles têm um faturamento de R$ 500 milhões por ano, e buscam novas oportunidades de negócios. O foco são algumas áreas específicas da saúde como longevidade, medicina da dor, wellness e estética.

De acordo com Silvane Castro, coordenadora de Saúde da CCBRC, existe uma construção de relacionamento que começa, no caso desses empresários, com compras para revenda, passando para uma representação do produto ou marca no país e, posteriormente, se tornando sócio de fato, com o objetivo de expandir ou aprofundar os negócios com o Brasil.

“No Brasil, temos uma entrada muito grande de iniciativas e capital chineses em todas as áreas da saúde. Agora, de forma mais intencional e potencial, essa área está sendo tratada justamente pela CCBRC. Nossa responsabilidade é fazer esse intercâmbio entre os dois países”, aponta Castro. 

Na visão dos especialistas, apesar das eleições, há um consenso de que os investimentos chineses têm se consolidado e que não deve haver impacto direto nas relações comerciais entre os dois países. Isto porque para além das relações políticas, há políticas de incentivos e investimentos que reforçam a participação chinesa no mercado brasileiro.

É o caso, por exemplo, das Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), com foco em desenvolver o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS). Muitas iniciativas envolvem empresas farmacêuticas e de biotecnologia chinesas, o que traz olhares para o potencial do mercado brasileiro.  

Em março, uma comitiva do Ministério da Saúde, agências reguladoras e outras instituições brasileiras foi até a China para conhecer iniciativas, firmar parcerias e fechar acordos. Um deles envolvia a construção de uma rede de hospitais inteligentes no SUS. “É o futuro da saúde chegando no Brasil diretamente da China!”, escreveu o ministro Alexandre Padilha em sua conta do Instagram.

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