Às 15h48 do dia 20 de outubro de 1986, a bordo do voo 6502 da Aeroflot, o capitão Alexander Kliuyev deu uma ordem que nenhum membro da tripulação ousou contestar: mandou fechar as cortinas de proteção do para-brisa da cabine. O avião, um Tupolev Tu-134A, estava a apenas dois minutos de tocar a pista do aeroporto de Kuibyshev (atual Samara), no sudoeste da Rússia. Sem qualquer visibilidade para o exterior, a manobra inconsequente resultou em um acidente que matou 70 das 94 pessoas a bordo.
O voo 6502 cumpria uma rota doméstica de rotina, partindo de Sverdlovsk com destino a Grozny e escala programada em Kuibyshev. A bordo viajavam 87 passageiros e sete tripulantes. A aeronave estava em perfeitas condições operacionais, sem falhas mecânicas e sob condições meteorológicas favoráveis.
A aposta fatal na cabine
Conforme revelaram as investigações posteriores e o próprio depoimento inicial de Kliuyev, o comandante fez uma aposta com o primeiro-oficial, afirmando ter “absoluta certeza” de que conseguiria realizar o pouso guiando-se apenas pelos instrumentos e pelo piloto automático, sem olhar para a pista. Não se tratava de um voo de treinamento nem havia qualquer autorização dos órgãos de controle. Era um voo comercial lotado de passageiros.
A pedido de Kliuyev, o engenheiro de voo instalou as cortinas metálicas do para-brisa — acessório projetado para treinamentos específicos de voo cego, que jamais deveria ser acionado em operações comerciais. Nenhum tripulante interveio para impedir a ação. O controle de tráfego aéreo emitiu alertas durante a aproximação, mas o comandante ignorou todas as orientações.

Não se tratava de um procedimento padrão de Pouso por Instrumentos (ILS), que exige cooperação constante com a torre de controle. Kliuyev isolou a cabine, desconsiderou as instruções de solo e fiou-se em cálculos próprios — que se provaram tragicamente errados.
Impacto, destruição e vítimas
Kliuyev calculou mal a altitude e a taxa de descida. O Tu-134A tocou o solo com velocidade excessiva. A força do impacto ultrapassou o limite suportado pelo trem de pouso, que colapsou imediatamente. Fora de controle, a aeronave derrapou, saiu da pista, capotou e pegou fogo.
Dos 94 ocupantes, apenas 24 sobreviveram. Sessenta e três pessoas morreram no local e outras sete faleceram nos hospitais nos dias seguintes. Entre as vítimas fatais estava o primeiro-oficial Gennady Zhirnov que, após o impacto, conseguiu ajudar a resgatar vários passageiros antes de sucumbir. O capitão Kliuyev, responsável direto pelo desastre, saiu vivo da carcaça do avião.

O encobrimento pela KGB
O governo soviético agiu rapidamente para ocultar a real dimensão do desastre e evitar o desgaste da imagem pública da aviação estatal. A KGB assumiu o controle do local do acidente, sigilou o inquérito e restringiu os depoimentos dos sobreviventes. Por anos, os familiares dos mortos foram privados da verdade sobre o que realmente ocorreu na cabine.
A versão oficial começou a ruir devido à ação clandestina do coronel A.K. Karpov, chefe do Corpo de Bombeiros que atendeu à ocorrência. Ele fotografou escondido os destroços do avião e contrabandeou os filmes para fora do país. Anos mais tarde, com o fim da União Soviética, as imagens e os áudios da caixa-preta vieram a público, confirmando a aposta irresponsável.
Julgamento e legado
Preso logo após a tragédia, Kliuyev foi julgado em 1987 pelo Tribunal Supremo da República Socialista Federativa Soviética da Rússia. Ele foi condenado a 15 anos de prisão por violação grave das normas de segurança do transporte aéreo. Em sua defesa, tentou mudar a versão inicial e alegou uma hipotética vazamento de combustível e falha de motor, tese descartada pelos peritos oficiais, que comprovaram o funcionamento perfeito da aeronave.
O comandante cumpriu seis anos de pena antes de ser libertado. O caso tornou-se um dos exemplos mais extremos dos perigos da hierarquia rígida e da cultura de mando na aviação, onde a autoridade incontestável de um capitão impediu que a tripulação evitasse uma tragédia anunciada.