Desbastando fronteiras, construindo pontes

O homem é a origem. A sociedade, apenas a consequência. Eis um ponto tão simples que chega a ser incômodo. Se a raiz está no homem, de nada adianta podar galhos ou repintar folhas — o fruto continuará o mesmo. No entanto, o mundo insiste em maquiar a consequência, como se fosse possível curar a febre trocando o termômetro.

A religião, a política, as ideologias, as fronteiras e as cores foram invenções nossas. Nada caiu do céu como imposição divina. O homem inventou o muro, depois se espantou com a sombra. Criou bandeiras, e desde então morremos por panos coloridos. Tudo, absolutamente tudo o que divide, nasce da origem: o homem.

Daí a constatação inevitável: nenhuma instituição será maior do que os homens que a dirigem. A mais nobre das causas, nas mãos erradas, vira caricatura de si mesma. A mais banal das iniciativas, guiada por homens retos, pode se tornar farol.

A Maçonaria sempre enxergou isso. Seu ideal declarado é o de uma sociedade justa, humana, fraterna. Mas não se ilude com milagres coletivos: sabe que não existe sociedade perfeita se o indivíduo continua imperfeito. O projeto maçônico, se quisermos ser francos, é um projeto de construção moral: desbastar a pedra bruta, retirar as arestas, aparar o excesso. O homem se burila a si mesmo para, só então, poder burilar o mundo.

Não se trata de misticismo, mas de realismo. A sociedade não mudará por decreto, revolução ou eleição. Mudará quando o homem mudar — e não há atalho para isso. O Maçom é forjado para ser o agente transformador, não porque lhe foi dada uma missão messiânica, mas porque aceitou a responsabilidade de trabalhar sobre a única matéria-prima que lhe pertence: ele mesmo.

Podemos, se quisermos, recorrer à metáfora da Arca de Noé. Naquela tábua flutuante, feras e presas dividiram o mesmo espaço. O leão não deixou de ser leão, a ovelha não deixou de ser ovelha. Mas ambos tiveram de aprender a conviver. Era isso ou o naufrágio. A humanidade está nesse mesmo barco: só sobreviveremos se derrubarmos as fronteiras que nos separam.

A Maçonaria, portanto, não promete o paraíso. Ela propõe trabalho. E um trabalho ingrato: sobre si mesmo. O desbaste da pedra bruta é cansativo, exige paciência, disciplina e coragem de olhar-se no espelho. Mas é o único caminho. Porque a equação continua sendo a mesma: o homem é a origem, a sociedade a consequência.

Sereníssimo Grão-Mestre Vladimir Pires Martins

Grande Secretaria de Comunicação e Imprensa

Luís Fernando da Silva Dias

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