a esquerda quer moldar consciências

Desde o século XIX, o movimento comunista organizou-se em redes internacionais que buscavam influenciar ou remodelar as estruturas políticas do Ocidente. A Primeira Internacional, liderada por Karl Marx e Friedrich Engels, pretendia unir os trabalhadores em torno de uma revolução mundial. A Segunda e a Terceira Internacionais deram continuidade à ideia, adaptando-a a novos contextos. A Internacional Socialista, surgida no pós-guerra, consolidou uma estratégia mais sutil: a de ocupar espaços de poder político e institucional, substituindo a revolução aberta por uma lenta transformação das democracias liberais. Essa penetração silenciosa em todos os espaços culturais redefiniu o ativismo de esquerda ao longo do século XX.

É possível afirmar que muito do movimento de infiltração cultural e institucional pensado por Gramsci tenha sido pedagogicamente teorizado por Herbert Marcuse, um dos principais pensadores da chamada Escola de Frankfurt, que propôs a ideia da “marcha sobre as instituições”. Marcuse acreditava que o caminho para a revolução não passava mais pela tomada violenta do poder, mas pela conquista gradual das estruturas culturais, educacionais e políticas. Em vez de destruir o sistema, seria necessário ocupá-lo por dentro, reprogramando-o a partir de valores revolucionários. Essa estratégia influenciou fortemente o pensamento da Nova Esquerda nos anos 1960 e continua orientando movimentos progressistas até hoje. Ela se manifesta na forte inserção ideológica em universidades, na mídia, em organismos internacionais e até em igrejas, moldando consciências e normalizando valores contrários aos fundamentos do Ocidente. O resultado é um novo tipo de hegemonia – não imposta pela força, mas pela cultura e pela linguagem, instrumentalizada por organizações “da sociedade civil”.

O advocacy não é, em si, ideológico, mas foi dominado pela esquerda com habilidade notável. Por meio dele, causas progressistas conquistam espaço em tribunais, parlamentos e organismos internacionais, impondo mudanças culturais profundas sem depender de votos ou de revoluções

Hoje, esse mesmo espírito de articulação global assume nova forma. A antiga militância revolucionária cedeu lugar a uma rede complexa de organizações da sociedade: ONGs, fundações, movimentos sociais e think tanks, que operam sob a bandeira dos direitos humanos, da justiça climática e da inclusão social. Essa estrutura, muitas vezes financiada por grandes corporações e organismos multilaterais, tornou-se o principal vetor de influência política da esquerda global. Seu objetivo continua sendo o mesmo – moldar consciências, alterar normas jurídicas e reconfigurar valores culturais.

A forma como essa atuação se materializa chama-se advocacy, uma técnica de influência política que combina ação jurídica, pressão institucional, mobilização social e comunicação estratégica. O advocacy não é, em si, ideológico, mas foi dominado pela esquerda com habilidade notável. Por meio dele, causas progressistas conquistam espaço em tribunais, parlamentos e organismos internacionais, impondo mudanças culturais profundas sem depender de votos ou de revoluções. Trata-se de um mecanismo de influência em esferas de poder que opera com estratégia e sutileza, muitas vezes travestido de neutralidade técnica.

É nesse contexto que surge, em 2020, a Internacional Progressista (IP), uma organização criada por Bernie Sanders e Yanis Varoufakis com a ambição declarada de “unir, organizar e mobilizar as forças progressistas do mundo”. Reunindo mais de cem entidades – entre sindicatos, partidos e movimentos sociais –, a IP atua como uma plataforma global de cooperação política. Entre seus conselheiros estão nomes como Noam Chomsky, Naomi Klein, Celso Amorim, Áurea Carolina e Fernando Haddad. Estruturada em quatro eixos – Movimento, Projeto, Fio e Observatório – a Internacional articula militância popular, produção acadêmica, lobby internacional e monitoramento de governos.

A atuação da IP ficou visível recentemente com a Flotilha Global Sumud, uma expedição marítima organizada para romper o bloqueio a Gaza. Nos últimos dias, cerca de cinquenta barcos, com ativistas de quarenta e sete países, partiram em direção ao território palestino. Entre eles estavam a ativista sueca Greta Thunberg e a deputada brasileira Luizianne Lins (PT-CE). A Marinha israelense interceptou os barcos e deteve os participantes, que alegaram ter sido “sequestrados” – versão, aliás, posteriormente contestada por vídeos e relatórios oficiais. O episódio ilustra uma das formas como o advocacy é usado: cada ação simbólica gera uma narrativa de vitimização e amplia o alcance de causas políticas.

VEJA TAMBÉM:

  • Nova direita brasileira precisa investir mais em advocacy

No Brasil, a Internacional Progressista tem ampliado sua presença. Em 2024, promoveu o Festival de Ideias na Unicamp, com representantes de mais de cinquenta países discutindo temas como “descolonização”, “nova economia” e “transição democrática global”. O evento contou com intelectuais e políticos ligados à esquerda latino-americana e reforçou alianças com o MST, o MTST e a CUT. A IP também atua em parceria com movimentos ambientais e identitários, oferecendo suporte técnico e visibilidade internacional a campanhas locais. É uma nova forma de internacionalismo, adaptada à era digital, mas com o mesmo ideal de reorganizar o poder mundial sob uma lógica progressista e pós-ocidental.

A presença crescente da IP no Brasil mostra como a esquerda entendeu o papel das redes transnacionais no século XXI. Ela constrói uma narrativa global, conecta causas locais e mobiliza recursos e reputações. Cada ação – uma conferência, uma petição, um protesto – faz parte de uma estratégia ampla, em que política, mídia e academia convergem para moldar percepções e decisões.

A direita conservadora, por sua vez, enfrenta o desafio de compreender esse novo cenário. Reagir não basta – é preciso estruturar-se. A profissionalização da direita, tanto no Brasil quanto fora dele, passa pela criação de think tanks, ONGs e centros de advocacy comprometidos com a defesa da liberdade, da soberania nacional, da propriedade privada e da tradição ocidental. Não se trata de copiar os métodos da esquerda, mas de compreender que a disputa cultural e política exige estratégia, conhecimento técnico, preparo e coordenação.

Se o século XIX foi o das revoluções e o século XX o das ideologias, o século XXI é o das redes de influência. Conhecer a Internacional Progressista e seu modo de atuação é entender a dimensão dessa disputa. A defesa do Ocidente e de seus valores não depende apenas de convicções, mas de inteligência organizacional. A direita que quiser sobreviver precisará aprender a agir como rede, falar como movimento e pensar como civilização.

Zizi Martins é vice-presidente da ANED, membro fundadora e diretora da Lexum, presidente do Instituto Solidez e membro do IBDR. Advogada com mestrado em Direito Público e especializações em Direito Administrativo e Religioso, doutora em Educação, pós-doutora em Política, Comportamento e Mídia. Consultora e pesquisadora em gestão pública e liderança.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Escândalo no PSG: ex-jogadora diz estar grávida de astro do clube – Gazeta Brasil

A ex-jogadora da WNBA e modelo Kysre Gondrezick afirmou, em um vídeo publicado nos Stories…

Jornalista cristão é preso na Nigéria enquanto ajudava familiares feridos em ataque

Um jornalista cristão foi preso por soldados nigerianos enquanto ajudava familiares feridos em um ataque…

Trump insists energy ceasefire holds as Ukraine reports new Russian strikes | Russia-Ukraine war News

United States President Donald Trump has insisted that Russia and Ukraine have agreed to stop…