Democracia ou a inevitável ascensão dos medíocres?

Há uma lição de Aristóteles que a modernidade, em sua arrogância, optou por ignorar: a democracia não fracassa apesar de suas deficiências, mas realiza-se plenamente por meio delas. Ao observarmos o atual cenário político, se a impressão predominante é a de que as lideranças nacionais são, intelectual e moralmente, inferiores à média da população que governam, medíocres, não estamos diante de uma ilusão.

Estamos diante de um desenho institucional. O mecanismo democrático moderno converteu-se em um filtro invertido: uma máquina que sistematicamente peneira a excelência para reter apenas o cascalho. O fenômeno possui lógica própria. O indivíduo de verdadeira estatura intelectual, aquele que não negocia seus princípios basilares, recusa-se ao compromisso que a demagogia exige.

Ele não possui a flexibilidade moral necessária para prometer o impossível ou para adular a multidão. O resultado inevitável é a retirada dos melhores da vida pública. O vácuo é prontamente ocupado por oportunistas e retóricos vazios. Assim, a democracia não produz liderança; produz a simulação de liderança operada por medíocres.

Ortega y Gasset anteviu, com precisão cirúrgica, o advento do “homem-massa”. O que vivemos hoje não é apenas o governo do povo, mas uma hiperdemocracia: o estado em que a massa não apenas participa, mas impõe sua vulgaridade como norma, governando sem qualificação e indiferente à própria ignorância.

A mediocridade é dócil; a excelência é indomável. Uma estrutura que seleciona sistematicamente a incompetência e a flexibilidade moral é muito mais manejável do que uma composta por homens de virtude

O verdadeiro veneno institucional não é a participação popular per se, mas a participação desprovida do reconhecimento de limitações. O homem-massa é a criatura que a modernidade produziu: desenraizado, separado da tradição, medíocre, e convencido de que sua opinião possui o mesmo peso ontológico que a sabedoria acumulada de séculos. Pior: acredita que sua ignorância é um direito político inalienável.

O sistema político, por sua vez, seleciona para esse homem-massa. Ele é fácil de satisfazer com lisonjas e promessas de curto prazo. O homem de caráter, que oferece a verdade dolorosa em vez da mentira reconfortante, torna-se eleitoralmente inviável. A segunda patologia desse corpo social enfermo revela-se no sistema de justiça. Aqui, a inversão de valores atinge o paroxismo.

Sob a influência de um progressismo penal que desconhece a natureza humana, nossas instituições perderam a capacidade de distinção moral. Andrew Lobaczewski, em sua obra seminal Ponerologia Política, estabelece a diferença crucial entre o psicopata incurável e o homem corrompido por manipulação. O sistema atual ignora essa fronteira.

Transformamos a disfunção de personalidade – que deveria ser fator agravante, indicativo de alta periculosidade – em atenuante social. A lógica liberal argumenta que a psicopatia merece clemência, confundindo perversidade estrutural com vitimização social. O resultado é um sistema penal que encarcera o recuperável e liberta o predador, recusando a verdadeira acepção de justiça, que exige, antes de tudo, precisão diagnóstica e higiene social.

VEJA TAMBÉM:

  • Europa aposta na autodestruição em nome do humanismo sem humanidade

A modernidade liberal fundou suas instituições sobre o mito da igualdade radical, rejeitando a realidade biológica e psicológica das diferenças humanas. Uma sociedade racional – uma logocracia – construiria suas estruturas reconhecendo essas hierarquias de competência e caráter.

Ao contemplarmos a ascensão da kakistocracia – o governo dos piores, dos medíocres –, somos tentados a diagnosticar um colapso do sistema. É um equívoco analítico. É provável que o sistema esteja funcionando perfeitamente para aqueles que o operam. A mediocridade é dócil; a excelência é indomável. Uma estrutura que seleciona sistematicamente a incompetência e a flexibilidade moral é muito mais manejável do que uma composta por homens de virtude.

O corpo social segue envenenado do topo à base, selecionando a inaptidão e protegendo a perversidade. O sistema funciona, e com notável eficiência. A tragédia, ou comédia, é que ele não foi desenhado para funcionar como nos é ensinado.

Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University- EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR).

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Edição Swarovski: Edge 70 (512 GB) despenca 54% na Mega Oferta Prime

54% OFF Ver preço Motorola Edge 70 Crystals By Swarovski 5G 512 GB R$ 2.789,10…

Previsões da astrologia para semana de 11 a 17/10 de 2026 – 11/10/2026 – Astrologia

Nai Tomayno Astróloga e terapeuta holística personare As previsões da semana de 11 a 17…

Nunes Marques manda suspender ‘Exército do Lula’ no WhatsApp de Janones por fake news – Gazeta Brasil

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, determinou a suspensão do canal…