Estado se transformou em uma fábrica de irresponsáveis

Theodore Dalrymple, psiquiatra britânico que trabalhou por mais de duas décadas em prisões e hospitais públicos atendendo a população mais pobre e marginalizada, dedicou boa parte de sua obra a descrever um fenômeno incômodo. O Estado de bem-estar social não socorre o infortúnio. Ele organiza o erro. Ele sistematiza a desordem. Ele transforma escolhas ruins em um modo de vida estável. Ele se converte em uma verdadeira fábrica de irresponsáveis.

Como o próprio Dalrymple escreveu, “o Estado de bem-estar não apenas falhou em reduzir o comportamento disfuncional. Ele o institucionalizou, o normalizou e o tornou um modo de vida previsível”. Esta é a chave para compreender o que acontece diante de nossos olhos.

O problema não é a pobreza. O problema não é o infortúnio. O problema é a cultura que o Estado cria quando garante que nenhuma escolha terá consequência real. Quando errar não custa

Um caso ocorrido em Florianópolis ilustra isso com precisão cirúrgica. Uma jovem de 26 anos, com cinco filhos, dependente química, casada com outro dependente químico, sem trabalho estável, sem disciplina, sem qualquer compromisso real com a própria vida ou com a vida que produz. Quatro crianças deixadas sozinhas em casa enquanto o casal viaja para outra cidade para o nascimento do quinto filho. O Conselho Tutelar recolhe as crianças. A família perde a moradia por inadimplência. E então vem o prêmio. O poder público oferece um quarto em um hotel, com comida, água e energia pagos, por tempo indeterminado.

O que deveria ser uma intervenção emergencial vira um sistema permanente. O que deveria ser uma última rede de proteção vira um incentivo estrutural. A mensagem implícita é clara. Não importa o grau de desorganização, negligência ou irresponsabilidade. O Estado absorve as consequências. Não existe custo moral. Não existe custo material. Não existe aprendizado. Existe apenas a fabricação contínua da dependência.

Dois anos antes, um grupo de voluntários havia tentado uma solução privada e voluntária. Pagaram aluguel. Ajudaram a recomeçar. Exigiram o mínimo. Trabalho, pontualidade, regularidade. O experimento falhou porque a dependência química não convive com disciplina. O casal abandonou o trabalho. Abandonou o pagamento. Abandonou qualquer compromisso. E seguiu produzindo filhos.

Aqui está o ponto central de Dalrymple. O problema não é a pobreza. O problema não é o infortúnio. O problema é a cultura que o Estado cria quando garante que nenhuma escolha terá consequência real. Quando errar não custa. Quando produzir vidas sem capacidade de cuidar delas não gera nenhum ônus. Quando a irresponsabilidade passa a ser mais confortável que a responsabilidade.

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Enquanto isso, quem trabalha, quem se organiza, quem posterga prazeres, quem limita filhos ao que pode sustentar, quem paga impostos financia o ciclo. Não recebe quarto de hotel. Não recebe comida paga. Não recebe acolhimento permanente. Recebe apenas a conta.

O Estado que se apresenta como compassivo passa a operar como um distribuidor de incentivos morais distorcidos. Ele protege o erro e penaliza o acerto. Ele estimula a reprodução do fracasso. Ele cria dependência onde deveria criar autonomia. Ele multiplica tragédias privadas que depois chama de problema social.

O resultado não é inclusão. É perpetuação. Não é dignidade. É estagnação. No ritmo atual, esse casal terá o sexto filho, o sétimo, o oitavo. Todos recolhidos. Todos institucionalizados. Todos alimentados por um sistema que jamais exigiu mudança real. E a fábrica seguirá operando.

Não por acaso, Dalrymple insistia. O maior pecado do Estado de bem-estar não é gastar muito. É gastar mal. É ensinar que escolhas não importam. É ensinar que não existe custo para destruir a própria vida e a dos filhos. Esse Estado não salva. Ele treina. Ele habitua. Ele produz irresponsáveis.

Bruno Souza, mestre em Sociologia Política (UFSC), foi secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis, deputado estadual e vereador.

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