Silêncio diante do abuso é cumplicidade

Silêncio diante do abuso é cumplicidade 1

Existe uma metáfora conhecida: a do sapo colocado em uma panela com água fria que vai sendo aquecida lentamente. Sem perceber o perigo, o sapo se adapta ao desconforto até o ponto em que já não consegue reagir. A história é usada para alertar como situações ruins, quando aceitas aos poucos, acabam se tornando fatais. Cientificamente, sabe-se que isso é um mito – um sapo real reagiria e tentaria escapar. Ainda assim, a metáfora permanece válida como alerta social sobre os riscos do silêncio diante do abuso.

O que preocupa é que, hoje, a sociedade brasileira parece estar vivendo exatamente esse processo. Problemas graves surgem, se acumulam, se normalizam. E muitos se adaptam. Aceitam. Ficam em silêncio. Mais preocupante ainda é perceber que nossos representantes institucionais não demonstram reação proporcional à gravidade do momento. Situações claramente prejudiciais à nação estão ocorrendo, e o perigo cresce enquanto é ignorado. Ignorar, no entanto, não faz desaparecer. Não haverá um salvador que, num passe de mágica, reverta danos já consolidados.

O silêncio institucional diante da arbitrariedade é cumplicidade. Aceitar aos poucos é o que transforma o desconforto em tragédia. Normalizar é o que impede a reação. E, quando a reação não vem, a liberdade se perde

Vivemos um período em que princípios básicos do Estado de Direito estão sendo relativizados. Julgamentos ocorrem sem o devido processo legal, sem ampla defesa, sobretudo quando os alvos são tratados como adversários políticos. A lei, que deveria proteger todos igualmente, passa a ser aplicada de forma seletiva.

Ao mesmo tempo, decisões libertam criminosos já condenados por crimes previstos no Código Penal. Muitos são reincidentes, com ficha criminal extensa e periculosidade comprovada. Retornam às ruas e, como era previsível, voltam a delinquir. As vítimas, mais uma vez, são cidadãos comuns. Essa combinação é explosiva: rigor extremo para uns, permissividade para outros. Isso não é justiça. Isso é arbitrariedade.

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Uma análise honesta do momento revela algo ainda mais grave: quando a lei pode ser flexibilizada conforme conveniência, ninguém está seguro. Não apenas o cidadão comum, mas qualquer pessoa. Inclusive autoridades, parlamentares e senadores.

Em um ambiente em que acusações sem provas podem prosperar, qualquer ato – conhecido ou desconhecido pelo acusado – pode ser usado como pretexto para condenações, exposições públicas, perda de direitos e destruição de reputações. Nenhum cargo protege quando o Estado de Direito é corroído por dentro. Defender o devido processo legal não é proteger culpados. É proteger a democracia. É proteger garantias constitucionais. É proteger o futuro do país.

Não há mais como adiar. É urgente que o Senado se reúna, se posicione e deixe claro que burlar a lei não pode se tornar normalidade. O silêncio institucional diante da arbitrariedade é cumplicidade. Aceitar aos poucos é o que transforma o desconforto em tragédia. Normalizar é o que impede a reação. E, quando a reação não vem, a liberdade se perde.

Este não é um manifesto de ódio. É um aviso. Um alerta. Um protesto consciente. Ainda há tempo de reagir. O fogo já está aceso, e a água em torno de nós já não é fria.

Luiz Held é escritor e pesquisador independente.

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