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Autismo em alta: por que mais diagnósticos não significam melhor tratamento?

Com mais brasileiros identificados no espectro, cresce a busca por terapias e avaliações, mas a qualidade do cuidado nem sempre acompanha essa expansão, alerta a psicóloga Thalita Possmoser

O crescimento global dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista tem transformado não apenas o acesso ao cuidado, mas também a forma como o autismo é compreendido por famílias, profissionais de saúde e pela sociedade. Com mais pessoas identificadas dentro do espectro, aumenta também a procura por especialistas, terapias e informações, ao mesmo tempo em que se intensifica o debate sobre os limites e a precisão do próprio diagnóstico.

Mais diagnósticos, novas demandas

Nos últimos anos, a ampliação dos critérios diagnósticos e o maior acesso à informação têm contribuído para que sinais antes negligenciados sejam reconhecidos mais cedo. Esse movimento é um avanço, especialmente por possibilitar intervenções precoces e maior inclusão. Por outro lado, ele também levanta questionamentos importantes dentro da comunidade científica.

A discussão ganhou tração recentemente após declarações da psicóloga britânica Uta Frith, uma das principais referências no tema. Em entrevista recente ao jornal The Times, ela afirmou que o conceito de espectro pode ter sido ampliado além do que é clinicamente útil, reacendendo um debate que acompanha o campo há anos.

Na prática, o aumento dos diagnósticos tem impacto direto no sistema de saúde e na rotina das famílias. O mais recente Censo do IBGE aponta que mais de 2,4 milhões de brasileiros estão no espectro autista. No entanto, sabemos que há subnotificação, e esse número tende a ser maior. Com mais crianças, adolescentes e adultos sendo identificados dentro do espectro, cresce a demanda por avaliações especializadas, acompanhamento terapêutico e orientação profissional.

Esse cenário também evidencia um ponto central: o diagnóstico, por si só, não dá conta da complexidade do autismo. Não é possível tratar o espectro como um bloco único. Pessoas com perfis diferentes precisam de estratégias completamente diferentes, tanto na abordagem quanto na intensidade e nos objetivos.

A maior conscientização tem levado famílias a buscar ajuda mais cedo, o que estimula o diagnóstico precoce, importantíssimo no TEA, mas também tem ampliado a heterogeneidade dos casos diagnosticados, reunindo sob o mesmo rótulo perfis bastante distintos.

O desafio da precisão em um espectro amplo

É preciso entender como essa amplitude pode ser organizada de forma mais adequada, tanto para quem pesquisa quanto para quem está na ponta, atendendo pacientes. Quando perfis cognitivos e comportamentais muito diferentes são agrupados, os dados científicos podem se tornar mais difíceis de interpretar, o que impacta diretamente o desenvolvimento de intervenções mais eficazes.

Com o aumento da demanda por atendimento, cresce também a necessidade de modelos mais precisos e personalizados. Isso envolve ir além do diagnóstico e considerar aspectos cognitivos, sensoriais e comportamentais específicos de cada paciente. Durante muito tempo, o setor se organizou em torno da quantidade de horas de terapia. Mas a pergunta mais importante é: quais habilidades estamos desenvolvendo e como medimos esse avanço?

Quando o foco sai das horas e vai para os resultados

Na prática, isso significa estruturar planos terapêuticos mais direcionados, sem excesso de horas, com objetivos claros e acompanhamento contínuo. Além disso, o uso de tecnologia tem permitido acompanhar a evolução das crianças de forma mais contínua, ampliando o envolvimento das famílias no processo terapêutico. Com mais visibilidade sobre o progresso, os responsáveis passam a lidar melhor com as incertezas que costumam marcar esse tipo de acompanhamento.

O aumento dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista tem sido, sobretudo, um avanço. Ao identificar mais pessoas dentro do espectro, amplia-se a possibilidade de compreender melhor suas características, acessar acompanhamento adequado e construir caminhos mais consistentes para qualidade de vida e desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, esse movimento tem impulsionado uma transformação importante no debate sobre o autismo. O desafio agora é fazer com que o diagnóstico não seja apenas um ponto de chegada, mas um ponto de partida capaz de orientar intervenções mais precisas e alinhadas às necessidades de cada indivíduo.

Thalita Possmoser – CRP 06/131704
Psicóloga e Vice-Presidente Clínica da Genial Care

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