Sem Histórias

A história de número 100 poderia muito bem significar “sem”.
Sem memória, sem identidade, sem passado. Mas convido você, leitor, a caminhar comigo pela centésima crônica. Porque, no fundo, não são apenas cem textos publicados. São cem fragmentos resgatados da nossa própria identidade. Cem sextas-feiras tentando impedir que o tempo apagasse aquilo que um dia deu sentido à cidade e às pessoas.

A coluna “História, Memória e Patrimônio”, da Folha do Litoral News, tornou-se mais do que um espaço semanal de leitura. Transformou-se em um reencontro constante com a memória. O esquecido voltou à superfície por meio de fotografias antigas, ruas silenciosas, prédios desaparecidos, escolas, mansões, tempestades e pequenas histórias que pareciam frágeis demais para sobreviver ao tempo…..  mas sobreviveram.

A centésima crônica não chega como um troféu. Surge como as marcas deixadas nas portas antigas: sinais silenciosos de que os anos passaram. Não é exatamente uma celebração, mas uma reflexão. Escrever cem crônicas em apenas dois anos exige mais do que disciplina; exige aprender a ouvir o tempo.

A crônica nasce próxima da vida comum, “ao rés do chão”, como escreveu Rubem Braga. Talvez tenha sido justamente aí, entre pessoas comuns e memórias simples, que essas histórias encontraram significado. Aos poucos, formou-se um mosaico afetivo de Paranaguá e do litoral paranaense. Não uma memória congelada em arquivos, mas uma memória viva, construída de sentimentos, ausências e permanências.

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Entre a primeira e a centésima crônica, muita coisa mudou. Pessoas partiram. Fachadas desapareceram. Lugares perderam suas formas originais. Talvez aí resida a missão silenciosa do cronista: tentar salvar aquilo que o tempo insiste em diminuir.

O porto parecia respirar entre as linhas. As pedras antigas guardavam segredos. Paranaguá deixava de ser apenas um espaço geográfico para tornar-se memória afetiva dos leitores. Porque a crônica nunca pertence somente ao autor; ela também pertence a quem lê.

Cada leitor reencontra nela uma parte de si: uma rua da infância, uma escola desaparecida, o cheiro da maresia, uma fotografia esquecida no fundo da gaveta. Talvez esse seja o verdadeiro sentido da memória: impedir que tudo desapareça por completo.

A crônica de número cem não representa um fim, mas uma continuidade. Porque escrever sobre memória nunca foi apenas falar do passado. Sempre foi uma forma de cuidar do presente e deixar, para o futuro, algum vestígio daquilo que fomos.

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