Em novo artigo, João Paulo Souza trata dos desafios da saúde com relação à conexão de sistemas e dados, diante da emergência de novas tecnologias
A saúde está cada vez mais tecnológica, e, paradoxalmente, cada vez mais fragmentada. Observamos grandes (e necessários!) investimentos em equipamentos de ponta, digitalização e inteligência artificial. Ainda assim, enfrentam ineficiências crônicas, desperdício de recursos e riscos evitáveis à segurança do paciente. O problema já não é falta de tecnologia. É a impossibilidade de fazê-la funcionar em conjunto.
Durante décadas, o setor se organizou em silos. Centro cirúrgico, UTI, diagnóstico e emergência evoluíram como estruturas independentes, com sistemas que não conversam plenamente entre si. Esse modelo não escala para a complexidade da medicina contemporânea. O custo dessa desconexão não é apenas operacional. É clínico.
Falhas de comunicação continuam entre as principais causas de eventos adversos em saúde. Dados recentes da Joint Commission Journal on Quality and Patient Safety (2024) indicam que cerca de 67% dos erros de comunicação em saúde estão associados à transição de cuidado entre profissionais, momentos críticos em que informações essenciais se perdem ou chegam incompletas. Em outras palavras, o risco está menos na tecnologia utilizada e mais no que acontece entre um sistema e outro.
A discussão sobre interoperabilidade, portanto, precisa evoluir. Não se trata apenas de integrar sistemas, mas de garantir que dados fluam com contexto, consistência e valor clínico. Conectar plataformas é um passo. Tornar a informação acionável é o verdadeiro diferencial.
O setor de saúde vive uma mudança estrutural. A indústria deixa de ser fornecedora de equipamentos e passa a atuar como parceira estratégica na construção de ecossistemas integrados. Isso exige uma nova mentalidade: enxergar o hospital como um sistema único, dinâmico e interdependente. Nesse ambiente, o dado precisa deixar de ser um registro e passar a ser um ativo decisório.
Quando informações de diagnóstico, cirurgia e monitoramento intensivo são conectadas, criamos uma camada de inteligência capaz de antecipar riscos, apoiar decisões clínicas em tempo real e reduzir a variabilidade do cuidado. A meu ver, isso cria um resultado que não é apenas eficiência, pois engloba qualidade assistencial mensurável.
Do ponto de vista de gestão, o impacto é igualmente relevante. A integração entre dados clínicos e operacionais permite prever demanda, otimizar recursos e reduzir desperdícios de forma consistente. Não se trata de fazer mais com menos, mas de fazer melhor com o que já existe.
O modelo tradicional, reativo e fragmentado, está saturado. Sua lógica é incompatível com a pressão por sustentabilidade financeira e excelência clínica que define o setor hoje. O hospital do futuro não será definido pelo volume de tecnologia que possui, mas pela capacidade de integrá-la de forma inteligente.
A interoperabilidade deixou de ser agenda técnica. Tornou-se agenda estratégica. E, neste novo cenário, está claro para o sistema de Saúde no Brasil o potencial escondido em dados desconectados convergirem para decisões que salvam vidas. O nosso papel daqui em diante é acelerar essa transformação de forma prioritária.
*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.