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Erro genuíno ou erro calculado? A diferença que ninguém te conta

Nem todo erro é o que parece ser.Foto: Imagem criada por IA

Caro(a) leitor(a),

Dias desses estava pensando que tudo que escrevo, uma vez publicado, deixa de pertencer somente a mim, só a quem escreveu. Passa a pertencer também a quem lê. Cada frase ganha uma vida que o autor não controla mais. Cada leitor interpreta o texto com sua própria bagagem, suas próprias urgências. E por isso, um mesmo parágrafo pode significar coisas completamente diferentes para cada pessoa que passa os olhos por ele. O que acaba sendo, de certa forma, algo fantástico.

As duas últimas colunas me deram a ideia de fechar uma pequena trilogia. Escrevi sobre ficar. Sobre escolher o amor mesmo quando ele já não é fácil. Depois escrevi sobre errar. Sobre como o erro, quando genuíno, aproxima mais do que qualquer acerto ensaiado. E hoje, para fechar, quero ser mais precisa sobre esse segundo tema.

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Porque considerando que todo texto é passível de interpretação precisamos refletir sobre os erros, involuntários, como no caso da coluna da semana retrasada, e os erros voluntários. Sim, acredite. Existem pessoas que erram por vontade própria.

Existe o erro que humaniza. Aquele que a gente não escolhe. Esquecer o nome de alguém importante. Gaguejar numa reunião decisiva. Chorar na hora errada, na frente de gente errada. Esse erro constrange antes de aproximar, mas aproxima de verdade, porque revela alguém sem armadura, pego de surpresa pela própria vida.

E existe outro tipo de erro. Um que se veste de vulnerabilidade, mas nasce calculado. O erro que se comete para ser visto errando. Que busca não a verdade, mas a reação. Não a conexão, mas a curtida. Esse erro não humaniza ninguém.

A diferença entre os dois está na intenção que vem antes do erro.

Vivemos num mundo digital que aprendeu a monetizar a vulnerabilidade. Tem gente que erra, expõe uma crise, encena uma queda, não porque precisou, mas porque descobriu que isso rende. Rende visualização, rende comentário, rende a sensação de proximidade que o algoritmo recompensa. Só que proximidade fabricada tem prazo de validade curto. Cedo ou tarde, quem assiste percebe a diferença entre quem erra porque é humano e quem erra porque aprendeu que isso dá engajamento.

Me peguei pensando em como você, leitor (a), pode ter enxergado meu erro da semana passada. Uma simples troca de nomes. Algo genuinamente humano, como verdadeiramente foi, de alguém que tropeça tentando dizer a verdade.

Ou será que pensou que pudesse ter sido uma falha calculada, feita para gerar contatos e cliques? E, mais importante, quando foi a última vez que você errou de verdade, sem plateia, sem estratégia, só porque a vida aconteceu antes que você pudesse controlar o roteiro?

James Joyce, o escritor irlandês, escreveu em Ulysses que os erros de um homem são volitivos e são portais para a descoberta. Não existe descoberta em erro que já nasce calculado para ser visto.

Fecho esta pequena trilogia com uma certeza que não tinha quando comecei a escrever sobre pontes, sobre escolhas, sobre erros. A certeza de que autenticidade não se performa. Ela simplesmente acontece, quando a gente menos controla.

Fica então a pergunta que resume as últimas semanas: você já errou de verdade, sem intenção, ou errou para “se beneficiar” do erro?

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