Os desafios complexos da saúde têm chamado, cada vez mais, a indústria farmacêutica a atuar de forma integrada a outros agentes do setor. Cresce, por exemplo, a escuta e conexão com pacientes e associações de pacientes para entender suas demandas de saúde e, assim, investir em doenças com poucas opções ou ainda sem tratamento. Junto a isso, se intensificam também as conexões com governos, hospitais e outros entes em busca de soluções para aprimorar acesso a medicamentos. Esses movimentos foram mapeados em conversa com Athanasia Gkiouleka, head de Região Intercontinental da farmacêutica UCB.
Prestes a completar 15 anos no Brasil, a companhia está investindo em uma série de lançamentos de medicamentos para doenças dermatológicas e reumáticas inflamatórias crônicas, que incluem hidradenitis supurativa, psoríase e espondilite anquilosante. Para manter esse pipeline ativo, segundo Athanasia, existe uma cultura de escuta das demandas dos pacientes e de investimento em pesquisa e inovação. “Investimos cerca de 25% a 30% dos rendimentos anuais em pesquisa”.
Durante a entrevista, a head global também falou sobre novos modelos de acesso, como compartilhamento de risco, e o contexto atual de pesquisa clínica no Brasil. A implementação de Lei de Pesquisa Clínica é vista com otimismo. Para Athanasia, é uma forma de abordar as necessidades de proteção dos pacientes e, ao mesmo tempo, permitir a inclusão local em estudos globais, ao acelerar o tempo de aprovação. “Como empresa, estamos comprometidos a explorar nossas opções potenciais, a trabalhar com os grandes centros científicos do país, que são bem impressionantes”, afirma.
Confira a entrevista na íntegra:
Que espaço o Brasil ocupa dentro da estratégia global da UCB?
Athanasia Gkiouleka – O Brasil é um país de mais de 200 milhões de pessoas, o que significa que há muitos pacientes que estão aqui e que merecem a inovação que trazemos para o mundo. Por isso, estamos comprometidos a garantir acesso a novos tratamentos e terapias para brasileiros o mais cedo possível. Estamos em uma fase de lançamento de diversos medicamentos. E isso é apenas um começo, para o que gostaríamos de trazer para o futuro.
Qual a sua visão sobre o atual momento de inovação da indústria farmacêutica, especificamente com inteligência artificial (IA)? Como essa ferramenta está sendo aplicada e quais potenciais ainda permanecem inexplorados?
Athanasia Gkiouleka – Você usou a palavra certa na sua pergunta, que é IA. Pode parecer que a inovação de saúde deveria vir da ciência, que é biologia, química. Mas, de fato, essas ciências estão sendo feitas com uso de IA. É fenomenal. Para criar inovação em medicamentos, nós temos três pilares. Um deles é a compreensão dos pacientes. Isso pode ser feito com a leitura de grande quantidade de dados pela inteligência artificial, para extrair conhecimentos. Essa ferramenta também pode ajudar na precisão e na conexão de dados. Também se usa plataformas de IA para desenhar moléculas de novas terapias, o que abre uma gama extensa de opções. Na verdade, a molécula que lançamos recentemente para hidradenite supurativa foi desenhada de uma forma similar. E é por isso que podemos nos tornar mais efetivos aos pacientes. E é apenas o começo. Nos próximos anos, veremos muito mais vindo da inovação em medicamentos e saúde.
Quais são os desafios desse tipo de caminho com a IA na indústria?
Athanasia Gkiouleka – O desafio não vem muito da IA, mas é mais sobre os dados que alimentam os modelos. Dependendo do ecossistema, nem sempre temos acesso a eles. Essa é uma questão relevante – como chegar aos dados existentes e conectá-los para multiplicar o impacto da inovação de uso. Para isso, será preciso que indústria, academia, governos, pagadores e sociedade compartilhem esse desafio e os debates sobre como abordar esse tema. Sinto que isso está acontecendo.
Nos últimos anos, a indústria farmacêutica tem ampliado sua atuação estando mais próxima, inclusive, da jornada do paciente. Na sua visão, qual o papel dessa indústria hoje no ecossistema de saúde?
Athanasia Gkiouleka – Sim. E eu trabalho há mais de 30 anos, então vi essa evolução que você menciona. No passado, as empresas farmacêuticas eram um pouco mais isoladas. Hoje, vejo cada vez mais a conexão entre uma compreensão profunda das demandas do paciente, mesmo depois que o tratamento é lançado, para entender com evidências de mundo real como isso funciona na prática. E isso é informação muito valiosa para a próxima pesquisa. Vejo também como as empresas farmacêuticas querem se conectar com os outros profissionais de saúde, associações de pacientes, governos, agências reguladoras e pagadores. É mais um desafio comunitário que as empresas farmacêuticas jogam um papel importante. Não é mais “nós” e “eles”.
O ambiente para pesquisa clínica no Brasil tem se tornado mais favorável nos últimos anos. Como isso impacta os investimentos em P&D da UCB no país?
Athanasia Gkiouleka – Vimos isso em muitos outros países do mundo. Os governos geralmente têm uma boa intenção, querem proteger pacientes. Através dessa intenção, podem criar uma legislação que não ajude os investimentos de estudos de desenvolvimento clínico a acontecer no país. E normalmente, ou eles estão atrasando as aprovações, ou fazem a participação nacional em um estudo global impossível. O estudo está em andamento e, se a aprovação local vier com muito atraso, simplesmente aquele país não consegue participar.
“Há um ótimo progresso que está abordando as necessidades de ambos, garantindo a proteção dos pacientes e, ao mesmo tempo, a inclusão deles em estudos, para que possamos ter dados locais e ir mais rápido para aprovações”.
E também garantir que o período em que os pacientes continuam recebendo a terapia pós-estudo seja com uma duração factível. Acho que o Brasil está se tornando um ambiente muito mais favorável à pesquisa clínica. Como empresa, estamos comprometidos a explorar nossas opções potenciais, a trabalhar com os grandes centros do país, que são bem impressionantes.
A pesquisa e desenvolvimento de terapias para doenças raras costuma enfrentar uma série de desafios, como limitações de dados e pequenos ensaios clínicos. Como os modelos regulatórios podem evoluir para lidar melhor com essas particularidades?
Athanasia Gkiouleka – Em certo ponto, estão evoluindo. Eles estão dando motivos para as empresas para investir, porque o investimento é enorme, mas é tão valioso quanto todas as doenças raras. Esse tipo de doença abarca uma porcentagem de nossa sociedade, então precisamos dar um jeito de atendê-las. Acredito que evoluir para estudos conectados que ajudassem mais e mais ou usando mais evidências de mundo real é a forma como os reguladores estão evoluindo para avaliar medicamentos para doenças raras. Gostaríamos de ver muito mais disso no futuro. No passado não tínhamos tanta evidência de mundo real. Agora temos. Vamos usar isso também para propósitos regulatórios.
Em mercados emergentes como o Brasil, o acesso a terapias inovadoras ainda enfrenta barreiras importantes. Quais os principais gargalos?
Athanasia Gkiouleka – Não tenho certeza se eu deveria chamar o Brasil de mercado emergente. Porque, de alguma forma, há uma grande parte do mercado que é bem desenvolvido, todo esse mercado privado. Ainda há o grande desafio de oferecer acesso mais amplo no setor público. E ali, o pagador público ainda não consegue adotar toda inovação que está disponível. É um desafio de muitos países.
“Não é uma equação fácil de resolver. Mas a ideia é mostrar os benefícios que as terapias inovadoras trazem para o indivíduo e para a sociedade, em termos econômicos”.
Melhor saúde significa mais impacto econômico no país. Quanto mais potencialmente o pagador público é capaz de fazer a realocação certa e dedicar recursos para a inovação, como os pacientes brasileiros merecem, melhor será. Essa é a receita em todos os lugares. E espero que vejamos isso acontecendo mais e mais no Brasil também.
O compartilhamento de risco tem ganhado relevância no Brasil, tanto em iniciativas do governo quanto no setor privado, em hospitais. Na sua visão, é uma opção interessante?
Athanasia Gkiouleka – É uma ótima ideia e do nosso lado estamos realmente advogando também para acordos baseados em valor, para que ambos os lados compartilhem o risco. Se trazemos medicamentos inovadores, é porque acreditamos que isso oferecerá um certo valor. A dificuldade está em implementar esses acordos e manejar a forma de ter de volta a informação que vai te permitir fazer essas decisões. Mas não devemos desistir, porque os dados oferecem muitas opções e devemos continuar fazendo parcerias e testando modelos.
Existe algum exemplo de outros países que estão na fronteira desse tipo de acordo?
Athanasia Gkiouleka – Infelizmente, não temos tantos exemplos para compartilhar. Os países ainda estão em um jeito tradicional de aprovar um preço e depois dar acesso baseado nisso, tendo um tipo de abordagem defensiva, ainda olhando para os medicamentos como um custo. Estou feliz de ouvir que o Brasil está olhando para isso do ponto de vista da oportunidade. Isso é um investimento para a saúde do país.
O que vem no pipeline da UCB para os próximos anos?
Athanasia Gkiouleka – Estamos em uma onda de lançamento de várias indicações para várias doenças. Temos este lançamento para hidradenitis supurativa, que é uma doença que descobrimos muitos pacientes em diferentes lugares. Continuaremos com muitos mais lançamentos relacionados ao campo de Dermatologia. Outras indicações para condições inflamatórias dermatológicas nas plantas das mãos e pés, é um segmento de psoríase. Também temos outro programa para dermatite atópica. Temos vários programas muito promissores de desenvolvimento na reumatologia. Acabamos de lançar no Brasil um segundo medicamento para a artrite psoriásica e a espondilite anquilosante (EA), uma doença reumática inflamatória crônica que afeta principalmente a coluna vertebral. E outro tratamento para lupus está vindo nos próximos anos. Temos um grande programa de pesquisa para doenças neurológicas imunológicas que estão no escopo das doenças raras. E esperamos muitos mais no futuro. Queremos que o Brasil seja um dos primeiros mercados do mundo a receber.
Quais tendências você acredita que irão moldar o futuro da saúde nas próximas décadas? E como podemos nos preparar para isso?
Athanasia Gkiouleka – Começaria com como os sistemas de saúde podem ser preparados para receber as inovações que estão vindo. Para que os sistemas de saúde se preparem, precisam entender e eliminar o gasto. Isso é o que estamos fazendo, também como uma empresa, isso é o que fazemos nas nossas casas. Definir onde há gasto ou onde existem atividades mantidas apenas por tradição. A tecnologia pode oferecer muitas oportunidades para minimizar essas despesas e focar no necessário. Acredito que a inovação vai trazer algo mais próximo da cura de doenças, com terapêuticas, porque temos mais conhecimento das doenças. E nossas terapias se tornarão cada vez mais precisas e individualizadas. Realmente espero ver isso, para a minha família e para a sociedade.