A poliomielite causou comoção no país, com epidemias de grandes proporções durante o século XX. A doença contagiosa, que preocupava diante das consequências como a paralisia nos membros inferiores, começou a ser controlada por meio de vacinação. Foi nesse contexto que nasce a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), em 1950, com o propósito de cuidar das crianças acometidas pela doença. Os pacientes infantis se tornaram adultos com necessidades de ter um maior suporte e reabilitação. Hoje, a AACD atende pessoas de todas as idades com mobilidade reduzida permanente ou temporária. Em entrevista exclusiva ao Futuro da Saúde, o CEO da instituição há mais de uma década, Valdesir Galvan, conta como a atuação da AACD tem mudado ao longo dos anos e os desafios que ainda existem no atendimento dos pacientes de reabilitação.
Na AACD, tecnologias de exoesqueleto e impressão 3D são utilizadas para apoiar a equipe médica no melhor tratamento aos pacientes. Um deles é o modelo de exoesqueleto pediátrico, o ExoAtlet Bambini Kids, voltado para o público infantil, dando o apoio para tarefas como ficar em pé e treinar marcha. Na associação, também há tratamentos como a fisioterapia aquática, que utiliza a água e princípios físicos para reduzir o impacto e a dor de pacientes ortopédicos e neurológicos.
Segundo Valdesir, os últimos anos têm tido como foco a sustentabilidade financeira da associação, bem como investimento em inovação e pesquisa. Reconhecida por seu projeto social, a AACD ganhou grande visibilidade nacional com o Teleton, uma campanha televisiva exibida anualmente pela emissora SBT em prol de arrecadar doações para a associação, que teve início em 1998. Atualmente, além do programa, a instituição recebe doações por meio de bazar de roupas, parceiras com farmácias, emendas parlamentares.
A associação também oferece serviços para o setor privado, com atendimento tanto particular quanto por operadoras de planos de saúde. Nesse contexto, Galvan explica que o pagamento de cirurgias dá vazão para o atendimento aos pacientes que vêm do SUS. Segundo ele, 80% das cirurgias são privadas, e 20% públicas. Na reabilitação, o principal foco está em atender público do SUS. “Percebemos que o SUS, por si só, não é sustentável. Temos que buscar essa diferença com o mercado privado em doações, em parceiros e programas. As ações que fazemos são nesse sentido”, detalha Galvan.
Na conversa, Galvan também falou sobre como pacientes que necessitam de reabilitação recebem cuidados no Brasil. Segundo ele, apesar de existirem políticas estruturadas para a reabilitação de pessoas, ainda falta a consolidação do acesso. “Temos vazios assistenciais enormes, dado que não é um negócio rentável. Ninguém investe nisso, então depende muito dos filantrópicos”, pontua.
Confira a entrevista na íntegra:
Há mais de dez anos como CEO da AACD, quais as principais mudanças que têm sido feitas na associação na última década?
Valdesir Galvan – A AACD está fazendo 76 anos e existiram muitas transformações nessa história. Algo que não mudou é o propósito, que é o atendimento filantrópico e focado principalmente em pessoas com mobilidade reduzida. Ao longo dos anos, e com o advento do Teleton, em 1998, expandiu bastante. Só tinha uma unidade em São Paulo, e chegou a ter várias outras, em torno de 12, no Brasil. Em 2014, o AACD passou por algumas dificuldades e se percebeu que não era sustentável economicamente manter tantas unidades deficitárias. Foi quando eu cheguei, e passamos por uma reestruturação na governança como um todo. Com isso, reduzimos o número de unidades para oito. Em São Paulo, tínhamos quatro unidades. Nós concentramos todos os atendimentos em duas, para otimizar custos e recursos. Fora, fizemos parcerias com governos locais, onde eles assumiram a gestão e a AACD continuou dando todo o suporte. Entregamos a unidade toda equipada, com os profissionais treinados. Com isso, conseguimos readequar a estrutura em algo que fosse sustentável. Hoje, nós temos sete unidades de reabilitação e cinco oficinas ortopédicas na entrega de produtos. Também revisamos todos os nossos processos, organizações internas, investimentos na formação dos nossos profissionais.
“Investimos bastante no atendimento privado de operadoras de planos de saúde, principalmente no hospital especializado em ortopedia. Quanto mais atendimentos privados a AACD fazia, mais atendimento do SUS seria possível ser feito, além de sustentar toda a área de reabilitação. Focamos bastante em tecnologia e inovação na área de ortopedia”.
Nos diferenciando quanto à qualidade, buscamos acreditações e certificações internacionais. Assim, conseguimos atrair mais médicos para as cirurgias privadas. Temos exatamente essa política de trabalhar nas frentes necessárias para as pessoas com mobilidade reduzida, mas fazer com um padrão de qualidade elevado. Tudo que é possível incorporar em tecnologia, em conhecimento, a AACD tem feito, independente do tipo de público que ela atende. Aumentamos em 40% a capacidade produtiva do hospital, o volume de salas cirúrgicas, leitos de UTI, leitos de internação, para realmente fazermos frente a essa dificuldade dos atendimentos do SUS, que são deficitários. Investimos bastante na estrutura e na equipe de captação de recursos para elaborar projetos. Nesse longo período, não reduzimos os atendimentos. Pelo contrário, procuramos crescer os atendimentos filantrópicos.
Como tem sido o fluxo de atendimentos dos pacientes?
Valdesir Galvan – Hoje, em torno de 30% dos pacientes são crianças e 70% são adultos. Dos adultos, 25% são pessoas com 60 anos de idade ou mais. Percebemos o envelhecimento e, com a população vivendo mais, há uma necessidade maior de atendimento a essas patologias de mobilidade. Aqueles acometidos por AVC acabam precisando de reabilitação. Isso mudou um pouco o cenário, já que a AACD nasceu para atender crianças com sequelas de poliomielite. Pessoas que adquirem ou nascem com doenças congênitas acabam necessitando de suporte, seja de reabilitação em terapias, ou meios de locomoção, como cadeira de rodas, prótese. A AACD hoje realiza, na área de reabilitação, em torno de 900 mil terapias por ano, em todas as nossas unidades. São beneficiadas em torno de 55 mil pessoas diferentes que passam pela AACD. Sabemos que o impacto na sociedade é muito maior, porque beneficia a família, especialmente, quando se atende crianças pequenas em que a mãe precisa deixar o emprego para garantir cuidado adequado. Estamos atendendo muitos adultos na reabilitação. No hospital, temos a ortopedia pediátrica, que trata grandes deformidades, escolioses, cirurgias de coluna. São 8 mil cirurgias anualmente. Nosso grande volume é na reabilitação de mobilidade reduzida.
Como tem funcionado as cooperações com estados e parceiros?
Valdesir Galvan – A ideia era cobrir um pouco dos vazios assistenciais que esse país tem no ponto de vista de suporte às pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida. Construir novas unidades não seria sustentável, assim, o que poderíamos fazer é uma cooperação técnica com instituições que já estivessem instaladas nessas cidades. Hoje temos oito unidades de cooperações técnicas, com instituições que têm um propósito de atender pessoas com deficiência, e a AACD contribui com a formação técnica dos profissionais, e com todos os protocolos de reabilitação adquiridos e aprimorados durante 75 anos. Ao invés de dividir o recurso local com outra instituição, vamos apoiar aquela que já está situada para isso. Todas as instituições são filantrópicas, porque nosso propósito é contribuir para atender o público que mais necessita, que não tem acesso à rede privada. No Paraná, fizemos uma cooperação para reativar o hospital de reabilitação em Curitiba, apoiando a formação dos profissionais técnicos com compartilhamento de protocolos. Tem tido um resultado muito positivo: eles têm conseguido ampliar o número de atendimentos e aplicar os protocolos da AACD. Na Bahia, a AACD tem duas cooperações com a Fundação José Silveira, uma em Salvador e uma em Jequié. Nesse último, eles procuraram a AACD para construir, inclusive, o projeto de arquitetura, levando em conta as necessidades de mobilidade reduzida. Em Alagoas, temos cooperação em Maceió e em Arapiraca. Em Poços de Caldas, em Minas Gerais, e São José do Rio Preto, em São Paulo, também.
A AACD é uma associação filantrópica que depende de doações para ter sustentabilidade financeira. Como tem sido o equilíbrio disso?
Valdesir Galvan – Temos tido muita responsabilidade nesse trabalho de dar o passo de acordo com a necessidade. Tínhamos duas alternativas quando atendemos SUS: ou reduzir o atendimento, porque a conta não fecha ou procurar mais recursos. Escolhemos a segunda opção. A remuneração via tabela SUS não é suficiente. O custo médio de uma terapia, de todos os tipos de tratamento que realizamos, é em torno de R$120,00 a R$130,00. O SUS paga menos de R$12,00. Não chega nem a 10% do custo em si. Temos três fontes de financiamento para fazer frente a esse déficit, calculado em R$80 milhões por ano: o Teleton, as doações de pessoas físicas nos nossos bazares e parcerias com empresas. O Teleton representa em torno de 45% da nossa necessidade de doações. Também há as vendas dos bazares e parcerias com empresas, como o arredondamento de compra em farmácias, cujo valor reverte para a instituição. Somando tudo isso, dá um montante significativo. Além disso, temos ajuda de emendas parlamentares. E temos a parte privada, que é o atendimento ao plano de saúde, principalmente no hospital. São 20% das cirurgias pelo SUS e 80% particulares, para cobrir o déficit do SUS. O que sobra, na linha final do resultado, se investe em tecnologia, equipamentos, inovação e segurança da informação. Esse é nosso segredo: uma estrutura de captação de recursos profissionalizada e bem organizada.
Apesar do atendimento ao privado, o foco é SUS.
Valdesir Galvan – As nossas unidades, de modo geral, estão muito preocupadas em ampliar o número de atendimentos filantrópicos. Tem uma margem de crescimento e o nosso planeamento estratégico prevê isso até 2030. Vamos utilizar a máxima capacidade instalada para crescer em torno de 10 a 15% no número de atendimentos. Nas oficinas, há atendimento particular também, porque tem planos de saúde que não cobrem prótese. Neste caso, comercializo, porque se eu vender uma prótese privada, consigo manter as próteses do SUS. Neste eixo, existe uma capacidade de crescimento de 20-30%. No hospital ortopédico em São Paulo, temos capacidade de crescimento. É um mercado mais difícil, competitivo, e há uma pressão forte das operadoras, devido à verticalização, de tentar levar os pacientes para os seus próprios hospitais, mas temos investido muito nisso.
O trabalho da AACD também é reconhecido pelas inovações que traz ao atendimento dos pacientes, como reabilitação em meio aquático. Quais outras novas tecnologias vocês já estão utilizando para melhorar os tratamentos?
Valdesir Galvan – Hoje, a reabilitação aquática na AACD é referência mundial. Nossos profissionais foram convidados para apresentar trabalhos no Canadá e tem muita pesquisa de reabilitação aquática para esses pacientes, tanto no pós-operatório, mas principalmente pacientes com deformidades. Temos um curso de formação de profissionais de terapia aquática, que é um dos mais concorridos do país. Dentro da reabilitação, estamos avançando muito no uso da robótica. O exoesqueleto infantil, chamado Bambini, tem três no Brasil, dois no Rede de Reabilitação Lucy Montoro, que é ligado ao Governo do Estado de São Paulo, e um na AACD. Agora, vamos fazer um monte de pesquisas. Temos algumas áreas robóticas já instaladas há anos. Temos, por exemplo, o treino e reeducação da marcha, com um exoesqueleto Lokomat. São equipamentos de alguns milhões investidos, e isso tem feito a diferença. A AACD tem mais de dez anos usando esse equipamento. Tem um laboratório que faz toda a análise da estrutura, até para indicação cirúrgica, para ver qual é a melhor técnica cirúrgica que vai adotar de acordo com a marcha. Investimos tanto na robótica de membros inferiores, que são os exoesqueletos, como de membros superiores. Também usamos a gamificação, que é algo mais lúdico, mas que dá um resultado muito importante na reabilitação.
E na cirurgia e próteses?
Valdesir Galvan – Temos investido fortemente no que há de novo em ortopedia, como uso de equipamentos 3D com neuronavegação para cirurgias mais precisas. É o caso da colocação de parafusos em cirurgia de escoliose em criança de grandes deformidades. Estamos investindo na impressão 3D dos meios de locomoção, de acessórios, tanto de coletes para tratamento conservador em escoliose, uso de órtese suropodálica, uso de prótese, também os encaixes da prótese e capacete para plagiocefalia. Produzimos aqui e já encaminhamos para parceiros fora de São Paulo. Há uma demanda realmente muito grande. Também investimos em adaptações de cadeira de rodas. A impressão 3D é usada para simulação de cirurgias complexas. A partir da imagem da ressonância magnética ou tomografia, o médico simula o tipo de intervenção cirúrgica nesse protótipo em 3D e depois vai para o mundo real com o conhecimento da anatomia perfeita daquele paciente.
Na sua avaliação, hoje existem políticas públicas bem estruturadas de cuidado para os pacientes que necessitam de reabilitação?
Valdesir Galvan – Se investiu muito na reabilitação nos Centros Especializados em Reabilitação (CERs), que é do plano Viver sem Limite do governo federal. Tem em vários locais, de acordo com a quantidade de deficiências que atende. Isso ajudou muito e ampliou o acesso, mas ainda temos a grande dificuldade de existirem regiões sem acesso. Na nossa unidade de Recife, tem pessoas que viajam 400 quilômetros, duas vezes por semana, para fazer a reabilitação na AACD. Temos vazios assistenciais enormes, dado que não é um negócio rentável. As filas são enormes, e às vezes percebemos até a desinformação do paciente sobre os direitos dele de buscar acesso. Quando busca, acaba ficando às vezes muito tempo na fila. Hoje, são poucas as instituições que procuram investir em tecnologia, fazer um diferencial. São poucas instituições que tem essa dedicação, porque nós estamos falando de filantropia. Se formos avaliar o SUS, é um excelente sistema de saúde gratuito para todo mundo. O problema é o acesso disso. Faltam políticas mais claras, sérias, mas não adianta só ter a política, é preciso criar mecanismos para que as pessoas tenham acesso ao serviço.
Qual o futuro esperado da AACD?
Valdesir Galvan – Planejamos crescer em atendimentos filantrópicos para 2030. Nossa estratégia é crescer em filantrópicos com sustentabilidade financeira. Nesse sentido, procurar crescer e otimizar a nossa capacidade máxima instalada. Expandir novas unidades não está no planejamento atual, o foco é investir em inovação, pesquisa e ensino. São três focos grandes no sentido de desenvolvimento de pessoas, gestão de riscos, com governança.