A pesquisa da USP mostra que as demissões não ficaram restritas a um momento de instabilidade, mas acompanharam uma mudança mais profunda no setor

Uma dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) investigou as demissões em massa no setor de softwares em São Paulo entre 2012 e 2024 e a relação da flexibilização das relações trabalhistas nesse cenário.
Thais de Oliveira Rocha, pesquisadora responsável pelo estudo, explica que, no início da pandemia, houve muitas demissões voluntárias. A partir de 2022, porém, as empresas passaram a realizar demissões em massa por três anos consecutivos.
“Foram empresas que, no início de 2020, se beneficiaram muito de um capital de risco de fácil acesso e de juros baixos. Fizeram investimentos para aumentar o número de talentos nas empresas e iniciar novos projetos. As empresas passaram a arriscar mais e, a partir de 2022, esse cenário mudou. Começaram, então, as demissões em massa, justificadas pela volta do aumento dos juros e por uma certa mudança no perfil dos trabalhadores que as empresas estavam buscando.”
A pesquisadora conta que utilizou a base de dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) para observar os registros de demissões e a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) para filtrar as ocupações relacionadas à cadeia produtiva de software.
Antes da pandemia, a média era de 40 mil demissões compulsórias por ano. Posteriormente, com os desligamentos em massa realizados pelas empresas, o número chegou a 71 mil e se manteve nessa faixa por três anos consecutivos. As demissões voluntárias aumentaram a partir de 2021, chegando a 112 mil casos. A partir de 2023, porém, esse número despencou para 60 mil.
Perfil dos trabalhadores
O estudo também identificou uma mudança no perfil dos trabalhadores atingidos pelas demissões. Em 2022, os cortes afetaram principalmente profissionais mais experientes, majoritariamente homens brancos, com mais de 30 anos, ensino superior e salários mais altos.
Já em 2023 e 2024, aumentou a participação de mulheres e pessoas negras entre os demitidos. Embora as mulheres representassem cerca de 17% do setor, chegaram a corresponder a 21% das pessoas afetadas, enquanto a participação de trabalhadores negros alcançou 31%.
Para Thaís, essa mudança indica que as demissões deixaram de se concentrar apenas em cargos mais seniores e passaram a atingir também a base do desenvolvimento de software.
O fato de as demissões permanecerem elevadas por três anos e de o perfil dos demitidos ter mudado indica uma reestruturação do mercado de trabalho. Ou seja, as empresas passaram a estabelecer uma relação diferente com os trabalhadores, com redução do poder de barganha dos profissionais, queda dos salários oferecidos e ampliação dos cortes para trabalhadores que estavam na base da estrutura ocupacional.
A pesquisa mostra que as demissões não ficaram restritas a um momento de instabilidade. Elas acompanharam uma mudança mais profunda no setor de software, que passou a oferecer menos espaço de negociação aos trabalhadores e a atingir diferentes perfis profissionais.
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