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Hotelaria desacelera e juros altos devem limitar novos hotéis em 2027; entenda o cenário

Cristiano Vasques aponta juros, eleição e falta de crédito como entraves ao setor (Felipe Abílio/M&E)

A hotelaria brasileira começa a dar sinais mais claros de desaceleração, enquanto a combinação entre juros elevados, falta de financiamento e incerteza política dificulta a entrada de novos empreendimentos no mercado. O diagnóstico foi apresentado por Cristiano Vasques, sócio-diretor da HotelInvest, durante a 8ª edição do Fórum Nacional da Hotelaria, nesta segunda-feira (14). Para ele, o setor ainda cresce, mas em ritmo menor, e o comportamento da oferta será decisivo para os resultados de 2027.

Vasques apresentou durante o Fórum os principais dados do Panorama Nacional da Hotelaria, estudo desenvolvido em parceria entre HotelInvest e FOHB. O levantamento acompanha o desempenho de 12 das principais capitais brasileiras e mostra uma perda de velocidade no crescimento da ocupação.

“No ano passado a gente cresceu, mas cresceu mais. Esse ano cresceu, cresceu um pouquinho menos”, afirmou o executivo ao comentar o comportamento da ocupação no primeiro semestre.

Segundo os dados apresentados, a ocupação agregada das 12 capitais cresceu 0,8% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025. No ano anterior, o crescimento havia sido de 3%.

A desaceleração aparece de forma ainda mais evidente na diária média. Depois de crescer 6% no primeiro semestre de 2025 em relação a 2024, o indicador avançou 1,5% acima da inflação neste ano. O resultado também chegou ao RevPAR, que passou de um crescimento próximo de 10% acima da inflação no primeiro semestre do ano passado para 2,3% em 2026.

“Então a gente está vendo crescimento de receita, está certo? Mas esse crescimento de receita está claramente desacelerando”, disse Vasques.

Diária ainda sustenta os resultados

A análise apresentada mostra que a ocupação permanece relativamente estável quando observada em uma série histórica mais longa, enquanto a diária média vinha apresentando uma trajetória de crescimento mais clara desde 2023. “Apesar da ocupação estar relativamente estável nos últimos anos, a diária vinha crescendo”, explicou.

O movimento, porém, começa a mudar. Segundo o executivo, nos últimos seis meses a diária também passou a apresentar sinais de estabilização. “Mesmo ela crescendo, claramente, nos últimos seis meses, ela começa a estabilizar”, afirmou.

Para Vasques, o comportamento dos indicadores precisa ser analisado dentro do cenário econômico brasileiro. O setor vinha se beneficiando de fatores como crescimento do emprego e maior endividamento de famílias e empresas, mas esse ciclo encontra limites diante do custo elevado do crédito. “Lá tem muito pouco espaço pra crescer em queda do desemprego que já está no limite e o endividamento que já está caríssimo em juros altos ele fica ainda mais difícil de pagar”, afirmou.

Segundo ele, a retomada de um crescimento capaz de gerar nova demanda dependeria de ganhos de produtividade. “Pra gente voltar a ter crescimento e crescimento que impacta em demanda hoteleira, a gente precisa ver aumento de produtividade”, disse.

Juros e falta de funding travam novos hotéis

A desaceleração da demanda ocorre justamente em um momento em que a oferta também encontra dificuldades para crescer. Vasques apresentou uma pesquisa realizada com as principais redes hoteleiras que atuam no Brasil para entender como o setor está enxergando o desenvolvimento de novos negócios.

No começo do ano, havia 152 hotéis em construção ou desenvolvimento para os próximos cinco anos. Agora, são 178 empreendimentos, que representam cerca de 26 mil quartos.

Apesar do aumento, o volume ainda é considerado baixo pelo executivo. “É muito pouco hotel”, afirmou Vasques. A estimativa apresentada é de aproximadamente 5 mil novos quartos por ano, o que representa crescimento de cerca de 1% ao ano da oferta.

O principal problema está nas condições para financiar esses projetos. Entre os obstáculos apontados na pesquisa estão juros altos, falta de funding, custo elevado da construção e percepção de risco. “E aí esse desafio a gente precisa entender de onde vem o dinheiro pra fazer hotel”, disse.

Segundo Vasques, muitos projetos acabam sendo analisados, mas não avançam porque o retorno esperado não compensa o risco. “80% dos projetos que a gente termina e apresenta os números pros clientes, os clientes falam assim: obrigado, mas eu não vou seguir”, relatou.

A comparação feita pelo executivo ajuda a explicar a decisão dos investidores. “Essa rentabilidade ajustada ao risco não faz sentido. É melhor deixar o dinheiro aplicado em Nota do Tesouro Nacional”, afirmou.

Investidores esperam eleição e juros menores

A incerteza política também passou a fazer parte da conta dos novos projetos. Vasques lembrou que as empresas consultadas no fim do ano passado e no começo deste ano tinham uma expectativa mais positiva para a assinatura de contratos.

Naquele momento, havia uma expectativa de queda da Selic. A redução ocorreu, mas em um ambiente de juros ainda elevados. “Os empresários estão esperando duas coisas. Primeiro, a eleição passar para saber para onde a gente vai e, segunda coisa, os juros começarem a evoluir para um patamar mais civilizado”, afirmou.

A leitura é que a combinação entre incerteza política e custo elevado do dinheiro deve continuar segurando parte dos investimentos em novos hotéis. “Uma indústria que não tem dinheiro disponível para você ampliar parque e o pouco dinheiro que tem é vinculado a juros que estão muito altos, é uma indústria que provavelmente não vai ter oferta nova nos próximos anos”, disse.

Resorts seguem com ocupação elevada

O cenário apresentado para os resorts é diferente do observado na hotelaria urbana. Depois de um longo período de estabilidade, o segmento registrou forte crescimento após a pandemia e continua apresentando desempenho positivo. No primeiro semestre deste ano, a receita dos resorts cresceu quase 5% acima da inflação. “Parou de dar 15 grandes saltos, mas teve um crescimento também”, afirmou Vasques.

O executivo também destacou que os resorts estão trabalhando com níveis elevados de ocupação. “Eles estão com níveis de ocupação de 80%, 85% no ano. E eles estão trabalhando basicamente no mercado doméstico”, disse.

Para Vasques, esse cenário mostra que ainda existe uma oportunidade importante no turismo internacional. Como os empreendimentos conseguem manter ocupação elevada com brasileiros, muitos ainda não têm necessidade de buscar de forma mais agressiva hóspedes estrangeiros. “Parece que não está precisando de viajante internacional”, afirmou.

Na avaliação dele, existe, portanto, espaço para ampliar a demanda internacional no futuro. “Tem um mundo gigantesco de potencial de demanda no exterior pra trazer”, disse.

2027 deve ter crescimento mais moderado

Ao resumir a apresentação, Vasques voltou ao principal ponto para o mercado hoteleiro: a combinação entre desaceleração da demanda e restrição da oferta. “Essas condições financeiras e políticas muito incertas vão deixando um peso sobre a cabeça do investidor”, afirmou.

Para ele, mesmo que o cenário político fique mais claro, os efeitos dos juros e da dificuldade de financiamento continuarão limitando a entrada de novos hotéis. “Mesmo que a gente veja uma sinalização clara de pra onde o país vai daqui pra frente, a gente tem pouco projeto em desenvolvimento e as condições financeiras significam que isso vai continuar existindo no ano que vem, provavelmente em 2028 também”, disse.

A expectativa para 2027 é de crescimento mais baixo das receitas, mas não necessariamente de queda generalizada. O desempenho deverá variar conforme cada cidade, considerando demanda, oferta existente e dinâmica econômica local. “Há uma nova desaceleração do crescimento ou uma estabilidade e um crescimento baixo de receitas locais”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o executivo ressaltou que o cenário não é necessariamente negativo para todos os mercados. “Apesar da ocupação e diária terem desacelerado, elas estão crescendo acima da inflação”, disse.

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