110 anos de Vila Belmiro

Gabriel Pierin, do Centro de Memória

Em 12 de outubro de 1916, uma quinta-feira, feriado de Nossa Senhora Aparecida, o Santos inaugurava sua Praça de Esportes. O terreno, na Vila Belmiro, então uma região conhecida como Vila Operária. Começava ali a história da casa que, com o passar dos anos, se tornaria lendária no futebol brasileiro.

Até então, o Santos treinava e disputava partidas em seu campo da rua Aguiar de Andrade, atual Manoel Tourinho, entre as ruas Lowndes e Emílio Ribas, no Macuco. O espaço, porém, não tinha as dimensões nem as acomodações necessárias para acompanhar o crescimento do clube. A construção de um campo próprio passou, então, a ser uma necessidade cada vez mais urgente.

A primeira manifestação formal nesse sentido partiu do presidente Agnello Cícero de Oliveira. Em reunião de diretoria realizada em 14 de julho de 1915, ele chamou a atenção para a “necessidade urgente da construção de um campo de football com todas as acomodações e instalações que se fazem precisar aos nossos jogadores e aos nossos apreciadores”. Para conduzir a tarefa, Agnello nomeou uma comissão de sócios e pediu a colaboração do grupo na busca por uma solução.

Uma das primeiras alternativas foi um terreno no Campo Grande, examinado por Urbano Caldeira e considerado adequado para a construção de um campo esportivo. A proposta, entretanto, seria superada por outra possibilidade.

Em 14 de abril de 1916, justamente no quarto aniversário da fundação do Santos, Luiz Suplicy Junior comunicou à diretoria que a Companhia Construtora de Santos oferecia a possibilidade de fornecer um campo completo, com pagamento em prestações mensais.

A aquisição de um patrimônio daquela importância exigia cuidado. A diretoria discutiu as alternativas, analisou propostas e examinou a planta dos terrenos. Ao final, a proposta da Companhia Santista de Habitações Econômicas foi considerada a mais viável.

As negociações foram concluídas pelo presidente em 10 de junho de 1916. A minuta do acordo foi posteriormente lida e registrada em ata na reunião de 23 de junho.

O Santos, enfim, tinha o seu campo.

A inauguração

A inauguração estava marcada para 12 de outubro. Na véspera, durante a reunião de diretoria, foi lido um ofício da Associação Paulista de Sports Athleticos (APSA), comunicando a formação de uma comissão que examinaria o novo ground do clube.

Também ficou acertada a transferência da partida entre Ypiranga e Santos, inicialmente prevista para o dia 12, para 22 de outubro.

O dia da inauguração foi reservado às comemorações. Houve partidas e brincadeiras entre os associados, numa espécie de celebração de uma conquista que vinha sendo construída havia meses.

A nova Praça de Esportes também representava o fim de uma fase. O Santos deixava para trás os campos utilizados nas avenidas Ana Costa e Conselheiro Nébias. O campo alugado pelo clube desde 1912, na Vila Macuco, ainda seria utilizado para as partidas da liga interna até 1917.

Em 12 de outubro de 1916, o Santos inaugurava oficialmente sua Praça de Esportes na Vila Belmiro.

Naquele momento, ainda era apenas o novo campo do clube. O que ninguém poderia saber é que aquele terreno se transformaria em um dos endereços mais conhecidos do futebol mundial.

De Campo do Santos a Estádio Urbano Caldeira

Nos primeiros anos, o estádio era chamado simplesmente de Campo do Santos ou Praça de Esportes do Santos. Com o tempo, o nome do bairro passou a identificar também o campo.

A denominação oficial viria apenas depois da morte de Urbano Caldeira, em 1933. Em 24 de março daquele ano, o estádio recebeu oficialmente o nome de Estádio Urbano Caldeira, por sugestão de Ricardo Pinto de Oliveira, em homenagem a um dos maiores abnegados da história do Santos.

O nome oficial, entretanto, nunca conseguiu superar o popular. Para o torcedor, o estádio continuou sendo a Vila Belmiro.

E a Vila ganhou outros nomes ao longo de sua história. Tornou-se o “Alçapão da Vila” e, mais tarde, a “Vila mais famosa do mundo”.

O Alçapão

O apelido que se tornaria inseparável da história do estádio surgiu antes mesmo da famosa marchinha “Leão do Mar”, composta por Maugeri Neto e Maugeri Sobinho para celebrar o título paulista de 1955. A expressão “Alçapão” foi criada em 1930 pelo jornalista Antonio Guenaga, de A Tribuna.

Naquele ano, o Santos disputou 25 partidas em seu estádio sem sofrer uma derrota. A sequência ajudou a construir a fama de um campo onde os adversários encontravam enorme dificuldade para sair vencedores. O nome pegou.

Décadas depois, entre títulos, grandes equipes, craques e noites históricas, a Vila Belmiro continuaria fazendo jus ao apelido que nasceu em 1930.

Hoje, 110 anos depois de sua inauguração, o antigo Campo do Santos permanece como a casa do clube que, em 12 de outubro de 1916, começava a construir uma história que ultrapassaria os limites da própria cidade.

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