Quando entramos em um quarto de hotel, dificilmente queremos entender quantos sistemas estão funcionando por trás daquela experiência. Queremos apenas que a temperatura esteja agradável, a iluminação faça sentido, as cortinas respondam quando precisamos, o entretenimento seja fácil de acessar e um pedido chegue sem exigir uma sequência de telefonemas.
Para a operação, porém, cada uma dessas pequenas ações envolve sistemas, equipes, informações, tempos de resposta, manutenção, consumo de energia e processos.
Foi justamente nessa interseção entre experiência percebida e complexidade operacional que o espaço da Evolutix me chamou atenção na Equipotel 2026. A empresa colocou suas soluções dentro de uma situação de hospedagem. O estande, assinado pelo EMDAStudio, sob a direção de Eduardo Manzano, recriou um ambiente inspirado em resorts, com lounge e quarto funcional.

Primeiro vem a experiência. Depois percebemos a tecnologia
Bambu, fibras naturais, palhinha, tecidos leves, mobiliário de desenho acolhedor, vegetação, iluminação quente e uma cama envolvida por um dossel construíam uma atmosfera distante da estética normalmente associada à automação.
Aqui está uma das principais contribuições do design para a transformação digital da hotelaria: tecnologia não precisa parecer tecnologia. Quanto melhor integrada ao espaço e à jornada, menos precisa disputar a atenção do hóspede.
O projeto do EMDAStudio partiu de referências ligadas a hotéis resort e ao litoral brasileiro, trabalhando materiais, mobiliário, iluminação e elementos têxteis como parte de uma situação real de uso. A proposta era retirar a automação da lógica de showroom e incorporá-la à arquitetura e aos interiores.
Esse raciocínio é especialmente importante porque um hotel é um lugar onde pessoas chegam cansadas, acordam durante a noite, procuram conforto, tentam localizar rapidamente um comando, solicitam serviços e esperam que tudo funcione quase intuitivamente. O verdadeiro teste da inovação acontece justamente aí.


O design da autonomia
A Evolutix desenvolve sua atuação a partir da IRP — Intelligent Room Platform, concebida para conectar quartos e unidades ao restante da operação. Sua plataforma ProXper integra automação, comunicação, entretenimento, dados e gestão em um mesmo ecossistema.
No ProXper Hospitality, isso pode envolver desde pedidos e housekeeping até pesquisa de satisfação, backoffice, TV interativa, mensagens e automação. Iluminação, temperatura, cortinas, entretenimento e outras conveniências podem fazer parte dessa interface.
Mas, olhando pela perspectiva do design de experiência, a questão mais interessante está na autonomia que essas soluções podem devolver ao hóspede.
Na demonstração apresentada durante a Equipotel, a jornada podia começar com uma televisão preparada para receber o hóspede e oferecer uma interface personalizada. Serviços podiam ser acessados pela própria TV ou pelo celular, inclusive por QR Code, evitando a obrigatoriedade de baixar outro aplicativo. Solicitações podiam ter seu andamento acompanhado, enquanto a automação de temperatura, iluminação e cortinas integrava conforto e conveniência.
Essa é uma mudança sutil, mas importante. O hóspede não precisa saber qual ramal chamar, qual departamento resolve determinada necessidade ou quem deve receber a solicitação. O design da interface passa a esconder a estrutura organizacional e apresentar apenas o caminho necessário para resolver a demanda.
Isso é design de serviço.


Para o hóspede, simplicidade. Para a operação, informação
Existe, entretanto, outra camada dessa experiência que o hóspede provavelmente nunca verá. Enquanto uma interface pode parecer simples para quem está no quarto, a operação recebe inúmeras informações que alimentam o backoffice com indicadores importantes para a gestão.
A plataforma prevê monitoramento em tempo real, gestão remota, relatórios e integração de diferentes sistemas. Segundo a Evolutix, sua arquitetura é agnóstica, podendo conversar com dispositivos e sistemas de diferentes fabricantes, dependendo das condições técnicas de cada projeto.
Aqui aparece uma inversão interessante: para o hóspede, a tecnologia deve diminuir a quantidade de decisões; para a operação, deve aumentar a qualidade das informações disponíveis para decidir.
Essa é uma das relações mais importantes entre experiência e eficiência. O hóspede quer simplicidade. A equipe precisa de visibilidade. O gestor precisa de indicadores. A engenharia precisa entender o comportamento dos equipamentos. O housekeeping precisa saber onde agir.
E o hotel precisa fazer com que tudo isso aconteça sem transferir sua complexidade interna para quem está hospedado.
O tempo também faz parte da experiência
Outra solução particularmente interessante é a possibilidade de realizar pesquisas de satisfação durante a própria hospedagem. Tradicionalmente, muitos hotéis perguntam ao hóspede como foi sua experiência quando ele já saiu do hotel. Do ponto de vista do design de serviços, existe aí uma oportunidade: descobrir uma frustração enquanto ainda há tempo para transformá-la.
O ProXper Hospitality contempla pesquisas de satisfação e NPS em tempo real, permitindo inserir o feedback dentro da operação. Isso transforma pesquisa em ferramenta de experiência.
Se uma reclamação sobre temperatura, limpeza ou algum serviço chega enquanto o hóspede ainda está no hotel, o dado pode se transformar em ação. O valor está em conseguir interferir na experiência enquanto ela ainda está acontecendo.


Design físico e digital precisam contar a mesma história
Um dos aspectos mais interessantes dessa tecnologia é perceber que o quarto pode ser, ao mesmo tempo, tecnológico e acolhedor.
A tecnologia está presente nas interfaces, nos controles, na TV e nos sistemas de automação. Mas a percepção espacial continua sendo construída por materiais, luz, textura, proporção, conforto e mobiliário.
Durante muito tempo, inovação tecnológica e projeto de interiores foram tratados quase como camadas independentes: primeiro projetava-se o ambiente; depois, equipamentos e sistemas eram incorporados.
A evolução que considero mais coerente segue outro caminho.
A experiência física e a experiência digital passam a ser projetadas como partes de uma mesma jornada.
É nesse ponto que arquitetura, interiores, UX, tecnologia e operação ficam integrados. E isso explica por que colocar a solução dentro de um quarto funcional foi mais eficiente do que simplesmente apresentar seus componentes sobre uma bancada.
Durante a feira, foi possível entender não apenas como aquela tecnologia funciona, mas como ela seria vivida pelo hóspede.


O melhor resultado é aquele que o hóspede não percebe
Há uma frase que costumo repetir quando observo projetos de hospitalidade: o hóspede sente se o lugar funciona.
Ele não avalia isoladamente arquitetura, iluminação, climatização, tecnologia e operação. A experiência acontece justamente na forma como todos esses elementos se integram.
Uma cortina que responde, uma temperatura confortável, um pedido cujo andamento pode ser acompanhado, uma interface intuitiva, uma equipe que recebe a informação correta e um problema resolvido antes do check-out parecem acontecimentos pequenos quando observados isoladamente.
Juntos, constroem experiência.
E o contrário também é verdadeiro: podemos ter o quarto mais bonito e a tecnologia mais avançada do mercado, mas, se o hóspede precisar pensar demais para utilizá-la, alguma coisa se perdeu no caminho.
Para quem está hospedado, isso pode significar mais autonomia, conforto e fluidez. Para quem opera, mais integração, dados e capacidade de resposta.
E, quando essas duas perspectivas finalmente se encontram, acontece aquilo que considero uma das melhores manifestações do design na hospitalidade: a tecnologia deixa de disputar protagonismo e passa a permitir que a experiência seja protagonista.
(*) Crédito das fotos: Camila Contato/Hotelier News