Estudo desenvolvido no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e publicado na revista Remote Sensing in Ecology and Conservation (https://doi.org/10.1002/rse2.70112) revela mudanças expressivas na composição e na organização espacial dos habitats bentônicos de um recife de coral no Banco dos Abrolhos, no Oceano Atlântico Sudoeste. O artigo, intitulado “High-Resolution Satellite Imagery Reveals Landscape-Scale Benthic Habitat Changes in a Turbid Coral Reef”, analisou a evolução do recife de Sebastião Gomes, entre 2010 e 2024, utilizando imagens de satélite de alta resolução espacial e técnicas de sensoriamento remoto associadas à ecologia da paisagem.
A pesquisa utilizou imagens dos satélites WorldView-2 e WorldView-3, combinando dados de reflectância, índices espectrais, métricas de textura e batimetria. A classificação dos habitats bentônicos foi realizada com o algoritmo de aprendizado de máquina Random Forest, treinado com observações in situ. As classificações apresentaram acurácia global de 95% para os anos analisados. Os resultados revelaram uma redução de 77,1% nos habitats dominados por corais ao longo de 14 anos, acompanhada por aumentos expressivos na cobertura de macroalgas (25,4%) e zoantídeos (173,4%). Além da alteração na composição dos habitats, as análises mostraram uma importante reorganização espacial do recife. Os habitats dominados por corais apresentaram redução de área, diminuição dos maiores fragmentos e aumento da fragmentação e do isolamento espacial. Em contraste, os habitats dominados por algas apresentaram expansão e maior consolidação espacial, tornando a paisagem bentônica progressivamente mais homogênea.
Segundo os autores, esses resultados evidenciam não apenas a perda da dominância coralínea, mas também uma reconfiguração da estrutura espacial do recife, aspecto fundamental para compreender processos relacionados à resiliência e à recuperação dos ecossistemas recifais após distúrbios. O trabalho demonstra o potencial da integração entre sensoriamento remoto de alta resolução, aprendizado de máquina e ecologia da paisagem para o monitoramento de mudanças ambientais em ambientes recifais, particularmente em águas costeiras turvas, onde o acompanhamento sistemático por métodos convencionais pode ser desafiador. A abordagem pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de conservação e manejo espacialmente orientadas.
A primeira autora do artigo é a Dra. Thais Medeiros, bolsista de pós-doutorado da FAPESP no laboratório MOceanS, da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática (DIOTG), da Coordenação-Geral de Ciências da Terra (CGCT) do INPE, sob supervisão do pesquisador Milton Kampel. O estudo também contou com a participação dos ex-alunos do Programa de Pós-Graduação em Sensoriamento Remoto (PGSER) do INPE, Gabriel Moiano Cesar e Maria Laura Zoffoli, atualmente vinculada ao CNR-ISMAR, na Itália, além do Dr. Vittorio Brando.
A publicação reforça a contribuição do INPE para o desenvolvimento e aplicação de tecnologias de observação da Terra voltadas ao monitoramento dos oceanos e ecossistemas costeiros, bem como a importância da formação de recursos humanos e das colaborações científicas nacionais e internacionais para o avanço da pesquisa em sensoriamento remoto aplicado às ciências marinhas.