Se você faz parte da expressiva parcela da população que revira na cama todas as noites lutando contra a insônia, a resposta para o problema pode estar nos seus traços de personalidade.
É o que revela um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
A pesquisa, que avaliou 595 participantes entre 18 e 59 anos, cruzou dados clínicos de sono com os chamados “cinco grandes traços de personalidade”.
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Os pesquisadores concluíram que pessoas com altos índices de neuroticismo — característica marcada por instabilidade emocional, foco em aspectos negativos da vida e maior suscetibilidade ao estresse — têm uma propensão significativamente maior a desenvolver insônia crônica.
Os dados estatísticos do levantamento mostram que 61,7% dos insones diagnosticados apresentavam alto nível de neuroticismo, contra apenas 32% do grupo saudável (sem queixas de sono).
A ansiedade como motor da insônia
A psicóloga do sono e autora da dissertação, Bárbara Araújo Conway, descobriu que a ansiedade atua como o gatilho central dessa relação. Pessoas com traços fortes de neuroticismo tendem a se desorganizar mais facilmente diante de adversidades.
Segundo a pesquisa, são os sintomas dessa ansiedade diária que, de fato, fazem com que a instabilidade emocional sabote o descanso noturno. A depressão, por outro lado, não demonstrou ser um mecanismo de impacto central nessa relação específica.
Além do neuroticismo, a pesquisa mapeou que indivíduos com insônia costumam apresentar índices mais baixos em outros três traços:
- Baixa abertura a experiências (40,7% dos insones): preferem rotinas rígidas, evitam o desconforto e são mais convencionais;
- Baixa conscienciosidade (37,7%): são menos obstinados, menos exigentes consigo mesmos e têm dificuldade em sacrificar prazeres momentâneos por metas maiores;
- Baixa amabilidade (31,5%): tendem a ser mais céticos e desconfiados em suas relações;
- A extroversão foi o único dos cinco traços analisados que não apresentou diferença significativa entre quem dorme bem e quem tem insônia.
Mudança no tratamento
Publicado no periódico internacional Journal of Sleep Research, o estudo orienta que tratar a insônia exige olhar além da simples higiene do sono ou da prescrição de remédios genéricos.
“Esses pacientes merecem investigar e tratar sua ansiedade para que a insônia também melhore”, alerta Conway.
A descoberta reforça a necessidade de tratamentos transdiagnósticos e terapias personalizadas, provando que resolver o problema crônico de sono passa, obrigatoriamente, por cuidar da mente e compreender a história de cada paciente.