Na Central de Experiências Flamboyant Urbanismo, em Goiânia, a UNYT Arquitetura & Urbanismo vê no retrofit uma alternativa estratégica para transformar um antigo hipermercado em um espaço híbrido de trabalho, gastronomia, eventos, arte e convivência.

O que a hospitalidade pode ensinar à arquitetura de uma cidade? A pergunta parece, à primeira vista, restrita aos hotéis. Mas minha conversa com Kardec Borges, sócio da UNYT , mostrou justamente o contrário. Hospitalidade também pode ser entendida como uma maneira de organizar espaços para receber pessoas.
Isso muda a leitura de um hotel, restaurante, um empreendimento imobiliário e até de um antigo hipermercado.
A UNYT atua em arquitetura, hospitalidade, entretenimento, urbanismo e desenvolvimento imobiliário por meio de uma abordagem que procura relacionar projeto, operação e desempenho do ativo ao longo do tempo. Seu portfólio institucional reúne projetos em diferentes escalas e tipologias, com mais de 6 milhões de metros quadrados concebidos.
Para Borges, essa visão exige abandonar a ideia de que arquitetura termina quando a obra fica pronta. Na entrevista com o Hub Hotel DesignX, uma frase sintetizou bem esse raciocínio: “Bom hotel é hotel que envelhece bem.”
Talvez possamos extrapolá-la. Bom edifício também precisa envelhecer bem. E boas cidades precisam aprender a reaproveitar aquilo que já construíram.
Retrofit como estratégia urbana


A discussão sobre retrofit ganha relevância diante do estoque de edifícios obsoletos existente nos centros urbanos brasileiros.
Demolir e reconstruir certamente continuará fazendo parte do desenvolvimento das cidades. Mas há situações em que estruturas aparentemente ultrapassadas contêm atributos difíceis — e caros — de reproduzir: grandes vãos, pé-direito generoso, localização, infraestrutura consolidada ou simplesmente uma escala espacial rara.
Borges defende o retrofit justamente como uma das ferramentas capazes de atualizar esses ativos. Há, porém, uma condição. Para ele, processos urbanos sustentáveis dependem da entrada de pessoas, usos e vida cotidiana.
Centros urbanos precisam novamente se tornar lugares onde se mora, trabalha, encontra, come, circula e permanece.
A Central de Experiências Flamboyant Urbanismo nasceu exatamente desse tipo de decisão.
De hipermercado a lugar de encontro


Durante quase um ano, a equipe desenvolveu uma edificação nova em um terreno livre. Questões de prazo e viabilidade levaram o grupo a reconsiderar o caminho e observar uma grande estrutura existente nas proximidades: um antigo hipermercado desativado.
Ali havia algo que o projeto novo teria dificuldade de reproduzir: pé-direito, continuidade espacial e escala.
A equipe decidiu mudar completamente a estratégia. Em vez de construir mais um edifício, passou a trabalhar com aquilo que já existia.
A área construída original de 6.010 metros quadrados (m²) foi integralmente preservada, sem aumento de metragem. A Central, concluída em 2024, reúne atualmente sede corporativa, atendimento, showroom, sala imersiva, restaurante, café, espaços de eventos, biblioteca, brinquedoteca, praças e jardins.
Em 2026, o trabalho recebeu o iF Design Award, na disciplina Arquitetura, categoria Mixed Use Architecture, como retrofit.
Mas talvez o aspecto mais interessante esteja menos no prêmio e mais na mudança de função urbana.
Um edifício que recebe antes de vender


A Central foi concebida para permitir que restaurante, áreas externas e diferentes espaços de convivência sejam utilizados mesmo por quem não tenha qualquer relação comercial com a empresa.
A biblioteca em formato de arquibancada recebe conversas e palestras. O salão de eventos comporta mais de 3 mil pessoas.
Nos primeiros nove meses de operação, o espaço recebeu mais de 12 mil pessoas em 24 eventos.
Esse dado ajuda a entender o que Borges chamou, durante nossa conversa, de uma arquitetura voltada à hospitalidade. As pessoas podem chegar para almoçar, participar de um evento, encontrar alguém, tomar café ou simplesmente permanecer no espaço.
O relacionamento comercial passa a coexistir com uma experiência urbana muito mais ampla.
É uma inversão interessante da lógica tradicional de determinadas centrais imobiliárias: em vez de criar um ambiente cujo objetivo principal é conduzir o visitante à negociação, o projeto procura primeiro criar razões para que as pessoas estejam ali.
Preservar sem manter tudo igual

O galpão original havia sido concebido para outra lógica. Era uma caixa comercial fechada, predominantemente voltada ao automóvel e artificialmente climatizada.
Transformá-lo em espaço de trabalho, convivência e eventos exigiu uma intervenção significativa.
Uma nova pele de vidro laminado com controle solar foi instalada sobre uma subestrutura metálica independente, afastada do volume existente. Entre as duas camadas surgiu um jardim contínuo.
Esse intervalo de vegetação filtra a luz, ajuda a reduzir a carga térmica sobre a construção preservada e cria uma relação visual entre interior e exterior inexistente no antigo hipermercado.
É uma solução em que arquitetura, paisagismo e desempenho ambiental passam a funcionar como um único sistema.
Arte como parte da arquitetura


Atrás dessa nova superfície envidraçada aparece outro elemento importante do projeto: o mural da artista Ananda Nahu. A obra foi pensada junto com a arquitetura desde os estudos iniciais.
Durante o dia, o mural é parcialmente filtrado pelos reflexos do vidro e pela luz exterior. À noite, a iluminação interna altera essa percepção e transforma a pintura em uma presença visível a partir da avenida.
A arte passa a participar da constituição da fachada e da relação do edifício com a cidade.
Aqui está uma das forças da intervenção: várias camadas que normalmente seriam tratadas separadamente — estrutura existente, vidro, vegetação, arte e iluminação — constroem juntas uma nova identidade.
Hospitalidade além dos hotéis


A Central ajuda a ampliar uma discussão importante para o setor hoteleiro.
Hospitalidade pode ser um método de projeto. Significa pensar em chegada, permanência, conforto, orientação, encontros, alimentação e motivos para retornar.
Em um hotel, essas questões procuram melhorar a experiência do hóspede. Na Central de Experiências, elas ajudam um antigo ativo comercial a estabelecer uma relação diferente com a população.
Borges resume o projeto como a transformação de um hipermercado desativado, por meio de retrofit, arte e paisagem, em um edifício capaz de receber a cidade.
O edifício deixa de ser apenas representação de uma empresa para tornar-se parte de sua experiência.
Retrofit e o futuro das cidades


Durante nossa conversa, Borges levou essa reflexão para uma escala ainda maior.
As cidades brasileiras carregam uma enorme quantidade de estruturas que perderam suas funções originais. Supermercados, edifícios comerciais, hotéis, fábricas, estacionamentos e antigas instalações corporativas fazem parte desse estoque.
Cada um deles contém energia, materiais, infraestrutura e memória já incorporados.
Antes de demolir, o que essa estrutura ainda pode oferecer?
Na Central de Experiências, a resposta estava justamente naquilo que inicialmente parecia um problema: a escala do antigo hipermercado.
O que antes era uma grande caixa fechada tornou-se matéria-prima para criar espaços flexíveis, áreas de encontro e uma nova relação com a paisagem. Para Kardec, entretanto, qualquer discussão de regeneração urbana só se completa quando volta às pessoas.
Não basta recuperar edifícios. É necessário devolver uso.
Não basta redesenhar ruas. É necessário devolver permanência.
E não basta preservar estruturas apenas porque já existem. É preciso descobrir por que elas ainda podem ser relevantes.
Aqui está um dos aprendizados que a arquitetura da hospitalidade pode oferecer às cidades: antes de pensar no que desejamos mostrar, pensar em como desejamos receber.
(*) Crédito das fotos: Divulgação