Quando o GOP é celebrado, mas o ativo perde valor

Por que um hotel com bons resultados pode estar destruindo valor

*Artigo por José Roa – O hotel acabava de fechar um grande ano. A ocupação superou o orçamento, as receitas cresceram e o GOP melhorou pelo terceiro ano consecutivo. Na reunião de sócios, só havia boas notícias, até que um deles, recém-chegado do mercado financeiro, fez uma única pergunta:

“O hotel nos deixou este ano US$ 2,1 milhões de fluxo de caixa disponível. Segundo a última avaliação, o ativo vale cerca de US$ 45 milhões. Isso dá 4,7%. Um título do Tesouro nos paga algo parecido, com muito menos risco. Por que continuamos com este hotel?”

Publicidade

Ninguém respondeu. Durante anos, os resultados tinham sido comparados com o orçamento, com o ano anterior e com a concorrência. Nunca com a alternativa que o proprietário tinha para o seu dinheiro.

Essa cena, assim como os demais casos deste artigo, é ilustrativa. Mas resume uma das ideias mais difíceis de aceitar na gestão hoteleira: um hotel pode estar cheio, apresentar um GOP saudável e reportar um EBITDA positivo e, ainda assim, estar destruindo valor.

Publicidade


Tramontina

O que o GOP mede, e o que não mede

O GOP é um excelente indicador da eficiência operacional, mas não foi criado para medir o valor do ativo. Não considera o custo do capital do proprietário e pode ser melhorado temporariamente com decisões que deterioram o negócio. Entre o GOP e o dinheiro que realmente sobra para o proprietário estão as taxas de administração, os custos fixos e o investimento de que o hotel precisa para continuar competitivo.

Usado de forma isolada, o GOP pode criar uma ilusão de eficiência. E essa ilusão costuma surgir por três caminhos.

Publicidade


Mobibox

Primeiro caminho: resultados construídos à custa do futuro

Um proprietário prepara o refinanciamento do seu hotel e pede para fortalecer o EBITDA nos doze meses seguintes. O plano chega rápido: adiar a reforma dos apartamentos, reduzir o treinamento da equipe e cortar as despesas comerciais “não essenciais”. Os números respondem de imediato: o EBITDA projetado supera o orçamento em 12%.

Em paralelo, a nota de reputação online cai de 8,9 para 8,4 em seis meses. Os apartamentos sem reforma acumulam reclamações e a diária começa a ceder frente à concorrência. Nada disso é alarmante no relatório mensal. Mas a tendência já revela o problema.

A reputação sacrificada para economizar custos costuma ser paga depois na diária. E a manutenção adiada pode transformar uma economia de hoje em um investimento mais caro amanhã.

Publicidade


Desbravador

Segundo caminho: encher o hotel com o preço errado

Um hotel com ocupação de 84%, frente a 75% da concorrência, parece um sucesso. Mas se a sua diária média é de US$ 150 enquanto a do mercado gira em torno de US$ 165, e a sua reputação online é até melhor que a dos concorrentes, surge uma pergunta incômoda: o hotel está captando demanda graças à sua proposta de valor ou está comprando ocupação por meio de descontos? A diferença não demonstra, por si só, uma oportunidade perdida, mas obriga a revisar a estratégia comercial.

Priorizar a ocupação em vez da diária não apenas reduz a margem: pode enfraquecer o posicionamento do hotel por anos.

Publicidade


Feira HFN

Terceiro caminho: esquecer que o capital tem um custo

O proprietário não mede o seu retorno sobre o que investiu há dez anos, mas sobre o que o seu ativo vale hoje. Se o hotel foi comprado por US$ 30 milhões e hoje vale US$ 45 milhões, um fluxo de US$ 2,1 milhões representa 7% sobre o valor investido, mas apenas 4,7% sobre o que ele poderia obter se o vendesse. Para um investidor, esse segundo número abre a pergunta decisiva: considerando as perspectivas do hotel e os seus riscos, compensa manter o capital ali diante das alternativas disponíveis?

Publicidade


Feira Ambiente

Medir o hotel na linguagem dos seus donos

A solução não é deixar de olhar para o GOP, mas lê-lo junto com outras perguntas. O resultado é sustentável ou depende de despesas adiadas? A reputação e a diária frente à concorrência estão melhorando ou piorando? Quanto rende o capital do proprietário sobre o valor atual do ativo, e com o que ele o está comparando?

Publicidade


Tramontina

Na minha experiência, muitas conversas estratégicas mudam completamente quando a análise passa a considerar o valor do ativo. Aí está a verdadeira transformação das finanças hoteleiras: deixar de apenas explicar o que aconteceu para ajudar a tomar decisões que criem valor.

Porque, no fim, a pergunta não é se o hotel ganhou dinheiro este ano. É se hoje ele vale mais do que ontem.

*José Roa é Diretor financeiro, com mais de 25 anos de experiência no setor hoteleiro, e doutor em Administração de Empresas (DBA). É autor de “The Hotel CFO: The Power to Decide, Create Value, and Transform Hotels”, também publicado em espanhol como “El CFO hotelero”

Publicidade


Instagram

Compartilhe este conteúdo

Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Pesquisa da USP busca voluntárias para saber como as mulheres vivenciam o parto no Brasil

Um estudo do Consórcio Internacional The Birth Experience Study (IC-BESt), sediado na Faculdade de Saúde…

Focus: mercado reduz projeções para dólar e PIB de 2026 e vê Selic a 11,75% em 2027

O mercado financeiro reduziu de R$ 5,13 para R$ 5,05 a projeção para o dólar…

Ídolo do Bahia, ex-lateral Romero morre aos 74 anos; relembre trajetória

O ex-lateral-esquerdo Jorge Romero Filho, conhecido como Romero, morreu aos 74 anos. Ídolo do Esporte…