• Home
  • Saúde
  • Incorporação de GLP-1 no SUS enfrenta desafios estruturais e orçamentários

Incorporação de GLP-1 no SUS enfrenta desafios estruturais e orçamentários

Os desafios e os impactos econômicos relacionados ao tratamento da obesidade pressionam a incorporação dos análogos de GLP-1 no Sistema Único de Saúde (SUS). Conforme o Ministério da Saúde, os atendimentos relacionados à obesidade no sistema público cresceram 57% entre 2022 e 2025. A doença também atinge cerca de 41 milhões de adultos no país. Apesar dos avanços científicos, a obesidade permanece como uma das poucas condições crônicas sem opções de medicamentos subsidiados pelo sistema público. Desse modo, a discussão pela incorporação tem ganhado força e é incentivada por associações e sociedades médicas. 

Nesse contexto, o Ministério da Saúde lançou, na última semana, o estudo REAL-BARI em parceria com o Grupo Hospitalar Conceição (GHC). O projeto acompanhará 250 pacientes com obesidade grave por dois anos para avaliar o impacto clínico e econômico da semaglutida em condições reais. Além disso, no âmbito internacional, no final de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou sua primeira diretriz global sobre o tema. O documento reconhece os agonistas como a primeira opção farmacológica eficaz para adultos com obesidade, mas ressalta que sua adoção pelos sistemas públicos de saúde deve ocorrer de forma planejada e sustentável. A entidade afirma que a incorporação dessas terapias também não deve se limitar à aquisição do medicamento. 

Segundo a orientação, os medicamentos devem ser ofertados dentro de um modelo de cuidado crônico, o que exige sistemas de saúde preparados para oferecer acompanhamento contínuo, equipes capacitadas, mecanismos de monitoramento e avaliação, fluxos de encaminhamento entre os níveis de atenção, além de estrutura para aquisição, distribuição e financiamento do tratamento. Desse modo, a análise da viabilidade de oferta desses medicamentos no sistema público exige o endereçamento de desafios estruturais. Para especialistas, o principal entrave para incorporação no país é o grande impacto orçamentário devido aos altos preços das tecnologias e a quantidade de pacientes que poderiam ser elegíveis. 

“O medicamento pode ser muito bom, pode até ser custo-efetivo quando comparado às alternativas existentes. Mas quando falamos de obesidade, estamos tratando de uma população muito grande. Mesmo com reduções importantes de preço, o volume de pessoas que poderiam se beneficiar faz com que o impacto sobre o orçamento seja extremamente elevado”, analisa Maicon Falavigna, especialista em Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) e pesquisador do Instituto Brasileiro de ATS. 

Diante desse cenário, uma eventual incorporação dificilmente ocorreria de forma ampla. Para a coordenadora do Departamento de Advocacy da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Maria Edna de Melo, a tendência seria priorizar inicialmente grupos com maior risco cardiovascular ou maior probabilidade de benefício clínico.

“Não vai ser possível comprar para todos os pacientes pelo custo da medicação, mas existem pacientes que são mais graves e para um grupo específico esses medicamentos podem ser disponibilizados. É possível fazer uma seleção inicial, enquanto ao longo dos anos vão surgindo novos concorrentes no mercado que viabilizem um acesso mais amplo”, explica Melo. 

No entanto, para incorporação ainda é preciso considerar a falta de uma linha de cuidado definitiva para obesidade no SUS, a capacidade de produção nacional ainda limitada e desafios relacionados à necessidade de acompanhamento multiprofissional e incertezas sobre o tempo de uso. Atualmente, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Sobrepeso e Obesidade em adultos não inclui tratamentos farmacológicos recomendados para o tratamento da obesidade. 

Desse modo, não existem parâmetros para definir os grupos prioritários que poderiam receber a medicação. Para Luís Fernando Villaça Meyer, diretor de operações do Instituto Cordial e do Painel Brasileiro de Obesidade, é preciso estruturar a linha de cuidado antes de discutir a ampliação do acesso aos medicamentos. “A linha de cuidado não pode se resumir ao medicamento. As pessoas precisam ter acesso a um cuidado multiprofissional, contínuo e abrangente, no qual o GLP-1 ocupa um espaço em contextos específicos. Se ele for utilizado isoladamente, sem acompanhamento nutricional, mudança de comportamento e seguimento da equipe de saúde, a própria efetividade do tratamento diminui”, ressalta Meyer. 

Impacto econômico da obesidade 

A obesidade não é apenas uma crise de saúde, mas também um desafio fiscal. Um estudo elaborado pelo Instituto Cordial estima que a doença gera um impacto de até R$44,6 bilhões anuais aos cofres públicos, o que equivale a aproximadamente 2% do PIB brasileiro. A pesquisa prevê que, se a tendência atual não for revertida, esse custo pode saltar para R$60,5 bilhões em 2033.  

Cerca de R$29,5 bilhões são gastos diretamente pelo sistema de saúde com a doença e com o tratamento de comorbidades correlatas. O impacto também é multifacetado. O estudo avalia que há uma perda de R$9 bilhões em arrecadação tributária devido a mortalidades e R$6 bilhões gastos com invalidez e aposentadorias precoces.

Segundo o diretor do instituto, os números ainda podem estar subestimados devido à dificuldade de mensurar a obesidade nos sistemas de informação em saúde. Para Meyer, esses números ajudam a qualificar o debate sobre a incorporação dos agonistas de GLP-1 ao SUS. “A discussão da custo-efetividade e do custo-benefício precisa considerar que os custos da obesidade são mais abrangentes do que normalmente se considera”, avalia. 

A pesquisa aponta que uma redução de 1% na prevalência da condição pode representar uma economia anual de R$444,6 milhões, além de ganhos em produtividade e arrecadação. Embora os custos indiretos e a perspectiva de economia reforcem a relevância financeira da doença, Falavigna explica que eles não resolvem, por si só, o desafio da incorporação. Segundo ele, as economias decorrentes da redução de complicações, como infartos e internações, já são consideradas nas análises de custo-efetividade. No entanto, a avaliação de impacto orçamentário da Conitec busca responder quanto será necessário desembolsar para financiar a nova tecnologia dentro do orçamento disponível para aquisição de medicamentos. 

“Você pode economizar hospitalizações, por exemplo, mas esse dinheiro está em outra rubrica do orçamento. No fim, melhora-se a atenção à saúde da população, mas esse recurso não retorna automaticamente para financiar a compra do medicamento. Isso acaba desfavorecendo tecnologias voltadas para doenças crônicas, porque boa parte das economias geradas ocorre em outras áreas do sistema e não pode ser utilizada diretamente para ampliar o acesso ao tratamento”, explica o especialista. 

Cenário Internacional 

Embora diferentes países tenham adotado estratégias distintas para ampliar o acesso aos agonistas de GLP-1, a experiência internacional mostra alguns elementos comuns: a oferta é direcionada a pacientes com maior risco clínico, vinculada a programas estruturados de cuidado e condicionada a negociações para redução dos preços dos medicamentos. 

Um dos principais exemplos de incorporação da semaglutida em sistemas públicos de saúde é o do Reino Unido. Em 2023, o National Institute for Health and Care Excellence (NICE), órgão responsável pela avaliação de tecnologias em saúde, recomendou o uso do medicamento para o manejo do peso em adultos, desde que associado a dieta hipocalórica e aumento da atividade física. O Serviço Nacional de Saúde (NHS) estima que cerca de 1,2 milhões de britânicos podem se beneficiar do tratamento. 

A incorporação foi condicionada a alguns critérios. O tratamento deve ser ofertado por no máximo dois anos, exclusivamente em serviços especializados em obesidade com acompanhamento multiprofissional. Também deve ser destinado exclusivamente a pacientes com, pelo menos, uma comorbidade relacionada ao excesso de peso e índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 35 kg/m². O NICE ainda recomenda interromper o tratamento caso o paciente não apresente perda de, pelo menos, 5% do peso corporal inicial após seis meses de uso. 

Os Estados Unidos lançaram, nesta quarta-feira (1), um programa-piloto para ampliar o acesso aos medicamentos para obesidade no Medicare, sistema público destinado principalmente a idosos. Chamado Bridge, o projeto terá duração até o fim de 2027 e permitirá, pela primeira vez, a cobertura temporária de medicamentos para perda de peso. A iniciativa faz parte de um acordo firmado com as farmacêuticas Eli Lilly e Novo Nordisk para reduzir o custo desses medicamentos.

A cobertura será restrita a beneficiários do Medicare Parte D que atendam a critérios clínicos específicos, definidos principalmente pelo IMC e pela presença de comorbidades cardiovasculares ou metabólicas. Os participantes elegíveis pagarão US$ 50 por mês pelo tratamento, valor inferior aos preços praticados no mercado, que variam entre US$ 149 e US$ 449 mensais.

Na França o reembolso da semaglutida pelo sistema público é parcial, equivalente a 65% do valor do medicamento. O restante do custo deve ser pago pelo paciente ou por seguro complementar. Além disso, a medicação é destinada apenas a adultos com obesidade grau II e III e associada a, pelo menos, uma comorbidade. O paciente ainda deve comprovar o fracasso de, pelo menos, seis meses de tratamento não farmacológico, com acompanhamento nutricional estruturado e perda de peso inferior a 5%.

A prescrição inicial é restrita a centros especializados em obesidade e deve ser associada obrigatoriamente a dieta com restrição calórica e aumento da atividade física. Após seis meses de tratamento, a resposta clínica deve ser reavaliada, com possibilidade de suspensão da terapia caso não haja perda de peso suficiente.

O Canadá também passou por discussões em relação à incorporação da semaglutida no ano passado. Embora a agência canadense de avaliação de tecnologias em saúde tenha recomendado o reembolso público mediante critérios clínicos específicos, foi estimado que seria preciso uma redução de cerca de 67% no preço para torná-lo compatível com o limiar de custo-efetividade adotado no país. Desse modo, a Aliança Pan-Canadense Farmacêutica informou que o desconto foi negado pela farmacêutica e as negociações não avançaram. 

Conitec e a não incorporação no Brasil 

De acordo com a SBEM, nos últimos anos, quatro medicamentos para o tratamento da obesidade foram submetidos à análise da Conitec e tiveram a incorporação negada: ororlistate, sibutramina, liraglutida e semaglutida. O mais recente foi o caso da semaglutida. Em agosto de 2025, a comissão recomendou a não incorporação para o tratamento de pacientes com obesidade grau II e III, sem diabetes, com 45 anos ou mais e doença cardiovascular estabelecida. O pedido foi apresentado pela Novo Nordisk, que inicialmente propôs um preço de R$727,25 por unidade para viabilizar a incorporação ao sistema público.

Na avaliação clínica, a comissão reconheceu que a semaglutida demonstrou eficácia estatisticamente significativa na perda de peso e esteve associada a uma menor incidência de eventos adversos graves. O principal obstáculo, no entanto, foi econômico. A análise de impacto orçamentário estimou que entre 146 mil e 159 mil pacientes seriam elegíveis ao tratamento anualmente. Nesse cenário, a incorporação representaria um gasto adicional de aproximadamente R$380 milhões no primeiro ano e R$485 milhões no quinto ano, totalizando cerca de R$3,7 bilhões em cinco anos. Avaliações complementares realizadas pelos Núcleos de Avaliação de Tecnologias em Saúde (Nats), entretanto, projetaram um impacto ainda maior, de aproximadamente R$6,8 bilhões no mesmo período, sobretudo ao considerar um tempo de tratamento mais prolongado.

A recomendação preliminar foi submetida à consulta pública e recebeu 1.201 contribuições. Segundo a Conitec, 98,5% das manifestações foram favoráveis à incorporação. Após a consulta, a Novo Nordisk apresentou uma nova proposta comercial, oferecendo desconto de 30% sobre o preço de fábrica e restringindo a população elegível para reduzir o impacto financeiro. Mesmo após a revisão da proposta, os membros da Conitec decidiram, por maioria simples, manter a recomendação de não incorporação da tecnologia. 

Na decisão final, a comissão considerou que permaneciam elevadas as estimativas de impacto orçamentário, além das incertezas sobre o tempo de uso do medicamento na prática clínica. O colegiado também ressaltou que o tratamento farmacológico da obesidade deve ser integrado a outras estratégias de cuidado, como mudanças no estilo de vida e acompanhamento multiprofissional, o que amplia os desafios para sua implementação em larga escala no SUS. 

Novos pedidos de incorporação e concorrentes no mercado 

Após a negativa da Conitec em 2025, a Novo Nordisk apresentou um novo pedido de incorporação da semaglutida ao SUS, desta vez com uma proposta mais restrita e um desconto de 59% sobre o preço de referência. Protocolado em maio, o pedido prevê o uso do medicamento apenas para pacientes com mais de 45 anos, sem diabetes, com obesidade grave e histórico de infarto.

Segundo a farmacêutica, a proposta permitiria atender entre 27 mil e 30 mil pessoas por ano, com preços a partir de R$ 396,88 por dose. O recorte adotado pela empresa já havia sido avaliado pela própria Conitec durante a análise do pedido anterior, embora utilizando os preços então vigentes. Na ocasião, o impacto orçamentário foi estimado em R$ 869 milhões em cinco anos, considerando tratamento por dois anos, e R$ 1,5 bilhão, no cenário de tratamento contínuo. 

A nova proposta ainda será submetida às análises clínica e econômica da comissão, agora considerando a redução de preço apresentada pela fabricante. O pedido já está em fase de análise pública na Conitec, que tem prazo de até 180 dias para emitir uma recomendação. Caso a incorporação seja aprovada, a aquisição do medicamento pelo SUS deverá ocorrer por meio de processo licitatório.

Em paralelo às solicitações de incorporação, o mercado brasileiro tem acelerado a produção nacional. A farmacêutica nacional EMS é uma das detentoras do registro da semaglutida e neste mês começou a comercializar o Ozivy, que tem preço sugerido de R$ 452. Outra companhia brasileira, a Eurofarma, anunciou redução de preços para Poviztra e Extensior, frutos de parcerias com a Novo Nordisk, de até 48%. A Hypera também anunciou que aguarda o registro sanitário da sua caneta emagrecedora.

O pesquisador Falavigna avalia que a entrada de novos fabricantes e de versões genéricas tende a impulsionar as discussões de incorporação. “Não é uma questão de se esses medicamentos vão entrar no sistema público, mas de quando isso vai acontecer. Com mais concorrência, os preços tendem a cair cada vez mais. Isso abre espaço para rediscutir a incorporação em novas condições”, diz o especialista.  

Além da maior concorrência, especialistas consideram que a ampliação das evidências sobre o uso da semaglutida no SUS, por meio de estudos de vida real, como o com o GHC, poderão fornecer novos subsídios para futuras decisões da Conitec. A expectativa é que esses elementos contribuam para reduzir as incertezas sobre o tempo ideal de tratamento, a efetividade da tecnologia na rotina do sistema público e o perfil dos pacientes que mais se beneficiam da terapia.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Capotamento: veja dicas de segurança e o que NÃO fazer

Um capotamento está entre as situações mais perigosas no trânsito e que mais podem gerar…

Flávio convoca apoiadores para ato de 7 de Setembro em SP

O senador Flávio Bolsonaro convocou apoiadores na terça-feira, 25 de agosto de 2026, para uma…

Nepal flood victims fear more bodies are buried under mud | Floods

Residents of a community in Dhading, Nepal devastated by flooding say they believe more bodies…