Por Fonseca.R
Há uma lei não escrita, mas universal: o criador deve controlar a criatura. Simples assim. Exceto que não é simples coisa nenhuma, porque o homem tem um talento especial para complicar o óbvio.
Criamos a sociedade para nos proteger. Hoje vivemos com medo dela. Inventamos regras para organizar a convivência. Agora somos escravos das regras. Construímos sistemas para nos servir. E acordamos servindo os sistemas. É como construir uma casa e acabar morando no quintal.
A coisa funciona mais ou menos assim: primeiro, criamos algo útil. Depois, esse algo cresce, se multiplica, ganha vida própria. No terceiro ato, percebemos que não controlamos mais nada. No quarto, fingimos que está tudo bem. É o teatro do absurdo sem bilheteria.
Pegue a sociedade, por exemplo. O homem a inventou para facilitar a vida. Resultado: burocracias kafkianas, protocolos intermináveis, formulários que geram formulários. Criamos um monstro de mil cabeças que nos obriga a alimentá-lo diariamente com nossa liberdade, nosso tempo, nossa sanidade. E ainda pagamos impostos pelo privilégio.
Agora temos a inteligência artificial. Mais uma criatura. Começou boazinha, resolvendo equações, recomendando filmes ruins, corrigindo nossa gramática. Mas já perceberam? Ninguém mais lembra um número de telefone. Ninguém sabe chegar a lugar nenhum sem GPS. Pergunte a hora a alguém na rua e a pessoa vai consultar o celular – mesmo tendo um relógio no pulso.
A criatura está assumindo. E nós, criadores, aplaudindo.
O mais curioso é que sempre percebemos o problema tarde demais. Quando a inversão já aconteceu. Quando já estamos do lado errado da relação de poder. É como perceber que você não passeia o cachorro – o cachorro passeia você.
Mas o homem é teimoso. Ou otimista. Ou burro. Provavelmente as três coisas. Porque continuamos criando. Novas tecnologias, novos sistemas, novas dependências. Como se desta vez fosse diferente. Como se desta vez fôssemos manter o controle.
Spoiler: não vamos. A menos que façamos algo radicalmente sensato: lembrar quem é o criador. Retomar as rédeas. Reestabelecer a hierarquia natural das coisas. Usar as ferramentas sem ser usado por elas. Participar da sociedade sem ser devorado por ela. Aproveitar a inteligência artificial sem terceirizar nosso cérebro.
Soa simples? Pois é. E é aí que mora o perigo. Porque para o homem moderno, fazer o simples virou a coisa mais complicada do mundo. Desligar o celular parece missão impossível. Questionar uma regra burocrática é quase heresia. Pensar por conta própria virou luxo de poucos.
Mas a solução existe. E é antiga quanto o primeiro criador que se viu refém da primeira criatura: consciência. Saber onde termina o útil e começa o patológico. Reconhecer quando a ferramenta deixou de servir e passou a dominar. Ter coragem de apertar o botão vermelho – mesmo que seja só o botão de pause.
Porque no final das contas, a grande ironia é esta: somos poderosos o suficiente para criar qualquer coisa. Mas somos tolos o suficiente para ser dominados por quase tudo. Entre o criador e a criatura, há uma linha tênue. E estamos sempre do lado errado dela.
A boa notícia? Ainda dá tempo de mudar de lado. A má notícia? Precisamos fazer isso antes que a criatura decida que não precisa mais do criador.
E aí, meu caro leitor, não vai ter técnica, tecnologia ou terapia que resolva.
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