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A OMS mudou a conversa sobre câncer. O Brasil está ouvindo?

Há relatórios que atualizam números ou apresentam novas evidências. E há aqueles que mudam a forma como entendemos um problema.

O novo Global Status Report on Cancer 2026, da Organização Mundial da Saúde (OMS), pertence a essa segunda categoria. Mais do que projetar o crescimento do câncer nas próximas décadas, ele propõe uma mudança de perspectiva: o maior desafio da oncologia contemporânea já não é descobrir o que funciona. É garantir que aquilo que já sabemos chegue, de forma oportuna, equitativa e sustentável, às pessoas que precisam.

Essa mudança de foco traz um recado importante para todos os países. E, talvez, especialmente para o Brasil.

Durante décadas, a discussão global sobre câncer foi impulsionada por uma pergunta central: como desenvolver tratamentos melhores? A resposta a essa pergunta transformou a história da oncologia. Hoje, pacientes vivem mais, com melhor qualidade de vida e acesso a terapias antes inimagináveis.

Mas o relatório da OMS mostra que essa pergunta, sozinha, já não basta.

Sabemos muito mais sobre prevenção, diagnóstico precoce, tratamento, reabilitação, cuidados paliativos e qualidade de vida do que sabíamos há vinte anos. A ciência avançou. A tecnologia avançou. As possibilidades terapêuticas se multiplicaram.

O problema central já não é apenas a falta de evidência científica. É a distância entre conhecimento e prática; entre política pública e realidade; entre inovação e acesso; entre aquilo que os sistemas prometem e aquilo que conseguem efetivamente entregar. Esse talvez seja o principal alerta do relatório.

Os números impressionam. Em 2024, mais de 20 milhões de pessoas receberam um diagnóstico de câncer no mundo. Até 2050, esse número poderá chegar a 35 milhões de novos casos por ano. Uma em cada cinco pessoas desenvolverá câncer ao longo da vida. E, quando consideramos familiares e cuidadores, estima-se que cerca de 92% da população mundial será impactada direta ou indiretamente pela doença.

Mas o dado mais importante não é o crescimento do número de casos. É a constatação de que o mundo já conhece boa parte das respostas. O que ainda falta é fazer com que elas cheguem às pessoas.

O câncer revela a qualidade do sistema de saúde

Poucas doenças exigem tanto dos sistemas de saúde quanto o câncer.

Uma boa resposta depende de prevenção, vacinação, atenção primária, diagnóstico precoce, exames de qualidade, cirurgia, radioterapia, medicamentos, cuidado multiprofissional, reabilitação, suporte emocional, cuidados paliativos e acompanhamento após o tratamento.

Não basta que somente uma dessas etapas funcione.

Uma pessoa pode conseguir uma consulta, mas não realizar o exame. Pode receber o diagnóstico, mas esperar meses pelo tratamento. Pode ter direito a uma tecnologia incorporada ao sistema, mas nunca encontrá-la disponível no serviço onde é atendida.
Por isso, o relatório propõe uma reflexão poderosa: o controle do câncer é um dos melhores indicadores da capacidade de um sistema de saúde de cuidar das pessoas.

Quando a jornada do paciente funciona, dificilmente é por acaso. E quando ela falha, quase nunca é por causa de um único problema.
Não basta tratar o tumor. É preciso proteger as pessoas.

Talvez a mudança mais importante do relatório seja ampliar o próprio conceito de cuidado.

Durante muito tempo, o sucesso da oncologia foi medido principalmente pela sobrevida. E ela continua sendo um objetivo fundamental.
Mas sobreviver não resume a experiência de quem convive com o câncer.

A OMS chama atenção para algo que pacientes conhecem há muito tempo: o câncer também produz sofrimento emocional, impacto financeiro, isolamento social, mudanças na vida profissional e sobrecarga para familiares e cuidadores.

Mesmo em países com cobertura universal de saúde, os custos indiretos podem ser devastadores: transporte, hospedagem, perda de renda, afastamento do trabalho, necessidade de um cuidador e reorganização completa da vida familiar.

A mensagem é clara. Não basta tratar o câncer. É preciso proteger quem convive com ele. Essa proteção deve ser clínica, mas também emocional, financeira e social.

A nova agenda proposta pela OMS

O relatório organiza essa mudança de visão em três grandes prioridades.

A primeira é fortalecer a capacidade dos sistemas de saúde (Better Capabilities). Não basta produzir conhecimento. É preciso garantir que ele seja implementado, com profissionais qualificados, serviços organizados, financiamento adequado e coordenação do cuidado. O relatório enfatiza que “planos sem pessoas não são planos” e que listas de medicamentos essenciais não funcionam sem profissionais (patologistas, cirurgiões, oncologistas, etc.) para administrá-los. É necessário um investimento sério em recursos humanos para que as estratégias nacionais saiam do papel e cheguem às clínicas

A segunda é ampliar a proteção às pessoas (Better Protections). Isso significa reduzir a toxicidade financeira, apoiar cuidadores, fortalecer a saúde mental, combater desigualdades e colocar a experiência dos pacientes no centro das decisões.

A terceira é gerar mais valor (Better Value). A pergunta deixa de ser apenas “quanto investimos?” e passa a ser “esse investimento realmente melhora a vida das pessoas?”. Valor passa a incluir sobrevida, qualidade de vida, funcionalidade e equidade.

É uma mudança importante.

E sim a inovação continua sendo essencial. Mas inovação sem implementação produz pouco impacto.

E o Brasil?

Curiosamente, o Brasil quase não aparece como protagonista no relatório. Mas poderia estar presente em praticamente todos os seus capítulos. Somos um país que conhece bem a diferença entre criar uma política pública e implementá-la.

Temos a nova Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer. Temos leis que estabelecem prazos para o início do tratamento. Temos processos estruturados para avaliação e incorporação de tecnologias. Temos uma legislação específica sobre navegação de pacientes. Temos um sistema público universal.

Tudo isso representa avanços importantes. Mas a existência da política, por si só, não garante que ela alcance o paciente.
Ainda convivemos com diagnóstico tardio, profundas desigualdades regionais, demora para exames e tratamentos, fragmentação da jornada do cuidado, dificuldades de acesso e implementação desigual das políticas públicas.

No câncer, a distância entre o direito previsto e o cuidado efetivamente recebido pode significar progressão da doença, pior qualidade de vida e oportunidades perdidas de salvar vidas.

Talvez seja justamente aí que esteja o principal recado da OMS para o Brasil. Não basta perguntar se uma tecnologia foi incorporada. É preciso perguntar se ela chegou ao paciente. Não basta perguntar se existe uma lei. É preciso perguntar se ela mudou a experiência de quem enfrenta o sistema de saúde.

A próxima revolução

Há um aspecto do relatório que considero especialmente simbólico. Pela primeira vez, a experiência das pessoas afetadas pelo câncer deixa de aparecer apenas como um complemento e passa a ser reconhecida como parte da construção das políticas públicas.

Pacientes e cuidadores não são apenas destinatários do cuidado. São parceiros na transformação do sistema. Essa talvez seja a maior mudança de todas.

A próxima revolução na oncologia não será apenas científica. Será uma revolução de implementação.

Ela não será medida apenas pelos medicamentos que descobrirmos, mas pela nossa capacidade de transformar conhecimento em cuidado, inovação em acesso e políticas públicas em vidas efetivamente protegidas.

O novo relatório da OMS nos lembra que já conhecemos muitas das respostas. O verdadeiro desafio agora é fazer com que elas cheguem a todos.

E essa é uma conversa que o Brasil não pode mais adiar.

*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.

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