Mas vem outra pergunta comum que permeia o livro. Por que “G.H.”? O que quer dizer? A professora esclarece: “G.H.: duas letras que aparecem gravadas numa pequena mala de G.H. Eis as iniciais de seu nome. Já houve múltiplas interpretações. Uma delas foi: Gênero Humano. Mas nem essa, nem nenhuma outra proposta resolve essa questão. O que importa é: quem é G.H. para cada um de nós? Ela será o que nossa leitura do livro conseguir construir”.
E a velha barata que a protagonista encontra no armário do quarto de empregada? G.H. a esmaga. Mata. E come a massa branca como se fosse uma hóstia… Nádia Gotlib elucida: “A barata é o símbolo do ‘ser vivo’, ‘matéria viva pulsando’, sentido de vida, que é absorvido por G.H. ao incorporar o ‘de-dentro’ da barata ao seu próprio ‘de-dentro’ de mulher. São espécies diferentes. No entanto, são aí convocadas para traduzir ficcionalmente, e com intenso apelo erótico, a paixão entre os seres vivos. Pois não se esqueçam – é uma história de paixão entre os seres, inclusive, humanos. Essa união, por vezes cópula, de G.H. e suas histórias com homens, sinaliza o momento de libertação da personagem, depois de passar por provas, obstáculos, como medos e frustrações, que fazem parte da vida”.
A professora, com o seu conhecimento sensível e profundo da literatura de Clarice Lispector, observa: “Mas faz parte da vida também a pertinácia em seguir em frente, para que se atinja esse momento de ‘alegria’, ‘ainda que alegria difícil’, tal como propõe Clarice Lispector na dedicatória aos seus leitores”. E conclui: “Nesse sentido, o livro explora, de forma surpreendentemente inovadora, as experiências humanas em sua inevitável travessia em direção a uma libertação, inclusive de padrões cerceadores. A ficção tem esse poder. Ela mostra o caminho. E abre perspectivas para que a pessoa faça descobertas de si mesma e do mundo em que vive”.