Caro leitor, atualmente temos vários problemas em nossa cidade relacionado com ratos, mas isto não é de agora, isto já vem de muito tempo.
Paranaguá, com seu ar salgado e vielas antigas, sempre evocou tanto charme quanto perigo entre os habitantes do mar.
Em seu porto, marinheiros, carregadores e comerciantes pulsavam juntos no meio da noite – e para eles, como portadores ocultos de doenças das sombras, vieram os ratos, logo deixando seu rastro. Era 1926.
O país estava assustado com a varíola que assolava São Paulo e Rio de Janeiro, mas o inimigo silencioso estava à espreita na costa do Paraná — a peste bubônica.
Um dos primeiros a perceber isso foi o Dr. Arthur José de Bastos, um médico atento de temperamento científico.
Quando viu o perigo, ele soou o alarme.
Mas sua coragem encontrou resistência: chamaram-no de alarmista, ridicularizaram sua prudência e até suas intenções foram questionadas.
Ao que ele recebeu descrença — e, ao contrário, a solidão de alguém que vê o perigo antes dos outros.
Mas as notícias se espalharam mais rápido do que suas negações.
Nos cantos, nas janelas e nos cafés sussurrava-se sobre a “doença dos ratos”.
Mais uma vez, o nome de Paranaguá era murmurado com medo, como quando a cólera fez vítimas.
Mesmo com críticas, o Dr. Bastos perseverou: os estudos eram claros — os ratos traziam a peste. Ignorá-la seria ainda mais mortal. Logo, ouviram isso na imprensa.
Os jornais falavam sobre a propagação da doença e o luto que afligia os lares humildes.
Alarmado, o governo estadual enviou uma comissão de médicos e guardas de saúde — entre eles o Dr. Manoel Carrão, diretor-geral da Saúde Pública, e os médicos Bernardo Leinig, Raimundo da Silva e Antenor Pamphilo dos Santos.
No porto, o chefe do Serviço de Saúde, Dr. Belmiro Rocha, tomou uma abordagem mais ousada, declarando quarentena nos navios — ele declarou o porto “sujo”.
Foi uma decisão cruel, mas necessária; o comércio parou e a cidade ficou em silêncio.
O caso inicial foi registrado em setembro.
Dois meses depois, em novembro, o surto começou a acalmar.
Um pequeno grupo de médicos retornou a Curitiba, e após semanas de viagem, a vida voltou a seguir.
Os registros daquele ano na Santa Casa de Misericórdia relatam 676 atendimentos — 618 brasileiros e 58 estrangeiros.
Trinta e nove vidas perdidas.
O relatório não invoca tanto a peste quanto o silêncio; o silêncio dos números também conta histórias.
A epidemia de 1926 marcou a conclusão de outra era de grandes epidemias em Paranaguá — uma cidade que, até então, já havia enfrentado febre amarela, varíola, malária e inúmeras outras desgraças.
Mas a história, como o mar, sempre retorna à costa.
A cólera reapareceu em 1998 e, mais uma vez, aquela costa enfrentou o medo — e prevaleceu.
Hoje, quando lembramos daquele ano, não lembramos apenas de uma doença.
Recordamos a bravura daqueles que tiveram coragem de enfrentar seu entorno e o grande preço que a verdade exige das pessoas que a reivindicam antes dos outros.