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Alfa Mulher fortalece lideranças femininas e amplia o futuro do agro catarinense

Cresce a presença feminina na gestão e no planejamento do agronegócio em Santa Catarina. Foto: Divulgação/Magnific/ND

A participação das mulheres no agronegócio catarinense está cada vez mais ligada à gestão das propriedades, ao planejamento das atividades e à continuidade dos negócios familiares.

Em municípios do Oeste de Santa Catarina, por exemplo, produtoras rurais, filhas e esposas de agricultores estão ampliando seus conhecimentos para assumir com mais segurança funções que, embora já fizessem parte de sua rotina, nem sempre recebiam o devido reconhecimento dentro das famílias e dos negócios rurais.

Esse movimento ganha força com o Alfa Mulher, projeto desenvolvido pela Cooperalfa desde 2015. Em dez anos, mais de 650 mulheres passaram pela formação, que reúne conteúdos de gestão rural, liderança cooperativista, comunicação, desenvolvimento humano e organização das propriedades. O percurso é composto por nove módulos e 136 aulas, distribuídos ao longo de seis meses.

Em Planalto Alegre, município com menos de 3 mil habitantes, uma das turmas reúne 33 participantes. Já em São Domingos, outras 37 mulheres, entre associadas, esposas, filhas e noras de cooperados, participam da mesma jornada.

As diferentes trajetórias mostram que a presença feminina no campo não pode ser resumida a uma única atividade. Há mulheres envolvidas na bovinocultura leiteira, na produção de grãos, na suinocultura, na gestão financeira e na condução de equipes.

O curso ajuda a ampliar o conhecimento dessas mulheres e fazer com que elas participem de forma mais ativa da gestão das propriedades.

As aulas trabalham a capacidade de analisar o negócio, organizar decisões e compreender melhor o papel de cada integrante da família. Em vez de concentrar a atuação feminina apenas nas tarefas operacionais, o projeto estimula a participação no planejamento, na administração e na definição dos próximos passos de cada atividade.

O processo também envolve uma dimensão pessoal. Antes de conduzir equipes, negócios ou relações familiares, as participantes são incentivadas a compreender o próprio comportamento e a maneira como se posicionam diante das decisões. O autoconhecimento aparece como parte da formação de lideranças mais preparadas para ouvir, dialogar e organizar o trabalho coletivo.

Mudança na rotina das famílias

Na comunidade de Taquarinha, em Planalto Alegre, Rosângela Gomes divide a rotina de uma propriedade leiteira com o marido, Valcir, e os filhos Anderson e Maiza. A família trabalha em uma área de 25 hectares e mantém 25 vacas em lactação, com produção mensal superior a 22 mil litros de leite.

O trabalho começa por volta das 5 horas da manhã e envolve ordenha, alimentação dos animais e organização das demais tarefas. À tarde, a rotina recomeça. Há dois anos, a família modernizou o sistema de ordenha, o que tornou o processo mais eficiente, embora a atividade continue exigindo dedicação diária.

A continuidade do negócio familiar já começa a ser construída pelos filhos. Anderson, de 24 anos, cursou o técnico em agropecuária e assumiu grande parte da gestão financeira da propriedade.

Enquanto Maiza, de 15 anos, também demonstra interesse pelo setor e pretende estudar zootecnia. A presença dos dois nas atividades reforça uma sucessão que não está sendo deixada para o futuro, mas desenvolvida dentro da rotina da família.

Rosângela chegou ao Alfa Mulher com um desafio diferente dos ligados diretamente à produção. A timidez dificultava sua participação em atividades coletivas e a exposição diante de outras pessoas – o incentivo para aceitar o convite veio do marido e dos filhos, que também se comprometeram a cuidar da propriedade durante os dias de aula.

Ela revelou que sentiu um pouco de medo quando foi convidada a participar. “Aí meu marido e meus filhos disseram:

‘Não, mãe, vai, vai dar tudo certo, pode ir, não precisa se preocupar em casa’. Aí vim aqui e cada aula está sendo um desafio para mim, porque eu tinha muita vergonha de falar na frente das pessoas. Na aula passada eu já perdi um pouquinho.”

A mudança começou a aparecer dentro de casa e o diálogo, que já fazia parte da relação familiar, tornou-se mais frequente e organizado. Além disso, as decisões passaram a considerar de maneira mais clara as opiniões do marido e dos dois filhos. Rosângela também começou a prestar mais atenção à necessidade de escutar antes de definir os caminhos da propriedade.

Esse tipo de transformação ajuda a mostrar por que a capacitação não se restringe a técnicas produtivas. A organização de uma propriedade rural depende da forma como a família distribui responsabilidades, compartilha informações e planeja investimentos.

Quando uma mulher encontra mais espaço para se posicionar e participar dessas escolhas, o conhecimento adquirido ultrapassa a experiência individual e passa a interferir no funcionamento do negócio.

Liderança feminina que também sustenta a sucessão rural

A relação entre formação, diálogo e gestão também aparece em Guatambu. Na Linha Vila Nova, Onilde Bavaresco e o marido, Danilo, construíram ao longo de mais de duas décadas uma propriedade que se destaca pela produção leiteira, pelo uso de tecnologia e pela qualidade do produto.

A família comprou a área em 1999 e, com o tempo, a atividade leiteira tornou-se a principal fonte de renda. Hoje, são quase 200 animais, 95 vacas em lactação e uma produção que chega a 75 mil litros de leite por mês.

O sistema inclui galpão com controle de temperatura, ventilação e cama, e coloca a propriedade entre as principais da cooperativa em volume e qualidade.

Onilde participou do Alfa Mulher em 2024 e o aprendizado passou a fazer parte das conversas com familiares e funcionários e reforçou uma forma de gestão baseada em planejamento, diálogo e troca de conhecimento.

A sucessão ganhou força com a entrada de Lucas, filho do casal, na administração da propriedade. Médico veterinário, mestre em zootecnia e especialista em reprodução, nutrição e gestão de propriedades leiteiras, ele decidiu permanecer no campo e dar continuidade ao trabalho da família.

Desde 2019, sua participação tornou o sistema mais tecnificado, eficiente e lucrativo. Hoje a estrutura conta com monitoramento eletrônico, automação, aparelho de ultrassom e investimentos em genética da raça Jersey. Mais de 40% das vacas produzem acima de 30 litros de leite por dia, enquanto a família ainda planeja melhorias na ambiência e na ordenha.

A continuidade familiar também orienta a trajetória de Talita Valentini, médica veterinária de 30 anos. Ela coordena uma estrutura com 16 matrizes produtivas e mais de 3 mil leitões entregues a cada 21 dias. A principal referência vem de casa: a mãe esteve ao lado do pai desde o início do negócio e ajudou a enfrentar os períodos mais difíceis.

Esse exemplo influenciou a decisão de Talita de permanecer na propriedade e participar da gestão. Ao falar sobre essa escolha, ela evita qualquer visão idealizada da vida no campo e destaca os desafios climáticos, financeiros e tributários enfrentados pelas famílias.

“E não é para qualquer uma, porque não adianta romantizar, dizer que é tudo lindo, que é tudo mil maravilhas, porque a gente sofre bastante. Tem inúmeras questões climáticas, financeira, questão tributária. E não é qualquer uma que consegue ficar, que quer ficar no negócio ou que está junto com com o marido, com a família, enfrentando tudo isso.” – conta.

No Alfa Mulher, Talita encontrou um espaço para ampliar conhecimentos, rever comportamentos e refletir sobre sua atuação na empresa e na família. A formação reforçou a ideia de que mudanças na gestão e nas relações também começam pela maneira como cada pessoa observa e ajusta a própria postura.

Participação feminina fortalece o agro catarinense

Os resultados do projeto do Cooperalfa aparecem em propriedades com atividades e estruturas diferentes, mas conectadas por desafios semelhantes. Em todas elas, a produção depende de famílias capazes de organizar o trabalho, dividir responsabilidades e preparar a continuidade do negócio.

O Alfa Mulher reconhece que muitas mulheres já exercem funções decisivas, ainda que nem sempre sejam identificadas formalmente como gestoras. Elas acompanham as finanças, cuidam dos animais, operam máquinas, orientam funcionários, participam de reuniões e contribuem para a definição de investimentos – a formação cria condições para que essas atribuições sejam desenvolvidas com mais conhecimento e segurança.

Essa mudança também interfere no modo como as próximas gerações enxergam o campo. Filhos e filhas crescem acompanhando uma gestão mais compartilhada e entendendo que a propriedade pode reunir diferentes conhecimentos profissionais.

Técnicos agrícolas, médicos veterinários, zootecnistas e profissionais de outras áreas encontram espaço para aplicar sua formação sem abandonar a atividade familiar.

A liderança feminina, portanto, não se limita à presença das mulheres em cursos ou reuniões. Ela se expressa na capacidade de participar das decisões, compreender os números do negócio, coordenar equipes e manter o diálogo dentro da família.

Também aparece na disposição de aprender a operar uma colheitadeira, assumir a gestão financeira de uma produção leiteira ou administrar uma estrutura voltada à suinocultura.

Ao longo de dez anos, o Alfa Mulher passou a integrar esse processo ao oferecer um espaço de formação voltado especificamente às mulheres ligadas ao cooperativismo. As mais de 650 participantes que concluíram o percurso levaram os conteúdos para diferentes municípios, atividades e estruturas familiares.

E, ao aproximar liderança, conhecimento técnico e desenvolvimento humano, o projeto contribui para que as mulheres sejam reconhecidas como parte efetiva da gestão rural. Esse avanço fortalece as famílias, melhora a organização dos negócios e amplia as condições para que a sucessão deixe de ser uma preocupação distante e se transforme em um processo construído no presente.

Para saber mais sobre e conhecer histórias de outras mulheres que estão fortalecendo o agro catarinense, assista ao episódio do programa Agro, Saúde e Cooperação. O projeto é desenvolvido pelo Grupo ND em parceria com Ocesc, Aurora, Sicoob e Fiedler.

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