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Alianças entre SUS e organizações privadas são caminho para ampliar acesso e fortalecer saúde pública

O Sistema Único de Saúde (SUS) tem como base o cuidado universal, equitativo e integral para toda a população, uma missão complexa em um país de dimensões continentais como o Brasil. Após 35 anos de sua criação, essa estrutura evoluiu, mas enfrenta desafios contínuos pela própria transformação da sociedade – o que inclui o avanço do envelhecimento, de doenças crônicas e o impacto das mudanças climáticas na saúde. Neste contexto, as colaborações entre o sistema público e organizações privadas surgiram como um caminho para lidar com as novas demandas de maneira eficiente e sustentável.

O Einstein Hospital Israelita foi um dos pioneiros entre as organizações privadas filantrópicas a atuar no SUS, há 25 anos. Hoje, administra uma estrutura maior na saúde pública do que na suplementar: são 34 unidades de saúde, incluindo nove hospitais em São Paulo, Goiás, Bahia e Mato Grosso, mais de 2.000 leitos e cerca de 14 milhões de atendimentos anuais.

Além da gestão de unidades públicas, a presença do Einstein no SUS se dá também por meio de projetos executados no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), do Ministério da Saúde. Hoje, o Einstein conduz 45 projetos voltados para o SUS em áreas como pesquisa, capacitação, gestão em saúde e assistência de alta complexidade. Foram investidos R$ 491,5 milhões de recursos próprios no programa só em 2025, e estima­-se que o valor atinja R$ 1,4 bilhão no triênio 2024-2026.

“Nossa presença no SUS está ligada à melhor forma de escalarmos toda a capacitação acumulada em todos esses anos – de gestão, de qualidade, de assistência, de pesquisa –, deixando-a disponível para um número cada vez maior de pessoas”, afirma o presidente do Einstein, Sidney Klajner. “Não faria sentido evoluir em todas essas áreas sem levá-las para o sistema público”, completa Klajner.

O compromisso de fortalecer o SUS de forma permanente tem como componente fundamental a construção coletiva de soluções para a saúde pública – considerando que o SUS é um sistema vivo e que está em constante evolução. “Nenhum avanço na saúde acontece de forma isolada. É fruto da união entre diferentes setores, áreas de conhecimento e, principalmente, de pessoas comprometidas com o propósito comum”, refletiu Henrique Neves, diretor geral do Einstein Hospital Israelita, durante o evento “Transformação da Saúde: a força da colaboração entre público e privado para um futuro com equidade”, promovido pela organização para marcar seus 25 anos de atuação no SUS.

Claudio Lottenberg, presidente do Conselho Deliberativo do Einstein, destacou que a colaboração de longo prazo entre a organização e o SUS foi fundamental para o amadurecimento dos setores envolvidos no que diz respeito à busca pelo equacionamento da saúde. “Foi muito importante ter tido a coragem, tanto nossa, quanto do poder público, de buscar uma forma diferenciada e mais ágil para atender os desafios da população”, lembra. “São dois mundos complementares conversando em prol daquilo que é um direito social, que é a saúde.”

De fato, a atuação conjunta tem potencial para beneficiar não apenas o sistema público como todo o ecossistema de saúde. Se, por um lado, o SUS tem acesso ao conhecimento e às inovações, se moderniza e se torna mais eficiente, por outro, o setor privado ganha experiência na operação em escala e na visão sistêmica do cuidado– além, claro, de levar o cuidado a mais pessoas, aumentar o acesso para quem precisa e promover a equidade dos serviços de saúde.

Fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS)

Uma das frentes exitosas do sistema público brasileiro, reconhecida internacionalmente, é a Estratégia de Saúde da Família (ESF) e o cuidado referenciado a partir da atenção primária. No cenário ideal, o paciente é cuidado de maneira integral e matriciada pela sua Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência – normalmente, a que fica mais próxima de sua residência. Entretanto, a prática ainda esbarra em entraves, como a dificuldade para avançar na capilarização dos serviços, em especial, em áreas de vulnerabilidade social, como periferias e comunidades ribeirinhas.

São Paulo é um exemplo do contraste sociodemográfico que pode ser encontrado em um mesmo município. De acordo com o Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, a expectativa de vida chega a variar em até 20 anos a depender do distrito analisado. “Ao pensar em saúde para a população que reside na Bela Vista, minha estratégia tem que ser uma. Já no extremo sul da cidade, temos comunidades indígenas, e o planejamento dos profissionais que vão atuar naquele local, quais linhas de cuidado devem estar disponíveis e como eu vou trazer essa população para dentro do serviço de saúde é completamente diferente”, analisou Luiz Carlos Zamarco, Secretário Municipal da Saúde de São Paulo, durante o evento do Einstein.

O fortalecimento desse nível de atenção passa também pela evolução na compreensão do seu papel. Mais do que uma sala de espera onde o paciente aguarda um diagnóstico, é encaminhado para o especialista e não retorna, a atenção primária seria uma espécie de “torre de controle”, como explicou Patrick Almeida, secretário executivo da Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba, que participou do evento também como representante do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). “Ela coordena o cuidado, tem no radar todos os pacientes que estão indo e voltando para aquele ponto de atenção dentro da rede de atenção à saúde”.

Além disso, Almeida entende que o estado tem um papel importante de analisar o contexto da rede de saúde em uma escala mais ampla. “Nenhum estado, nenhum município, salvo raras exceções, consegue abarcar atenção primária, atenção especializada e atenção hospitalar concomitantemente. O estado tem essa função de ser esse espaço macrointegrador”, afirmou.

A atenção primária é hoje uma das áreas que conta com apoio da iniciativa privada. O Einstein, por exemplo, atualmente é responsável pela gestão de 14 UBS no município de São Paulo, onde, só em 2025, foram realizadas 868,7 mil consultas médicas.

Rafael Ornelas, diretor de Atenção Primária e Rede Assistencial na organização, reforçou a importância de conectar a gestão com os profissionais da ponta para uma estratégia de saúde que tenha impacto real. “Se eu não conheço as pessoas, as necessidades ou as subpopulações, dificilmente vamos conseguir construir serviços ou saúde de uma forma equitativa e que faça sentido para as necessidades das pessoas”, concluiu.

Um SUS personalizado para cada Brasil

O desenvolvimento de projetos com foco em recortes populacionais específicos, como comunidades indígenas e quilombolas, é outro aspecto importante que entra no radar das colaborações. Há projetos que procuram integrar novas tecnologias para a entrega de uma saúde de qualidade e calcada na justiça social. Fazem parte desse escopo, por exemplo, desafios transversais como o impacto da crise climática sobre populações sistematicamente mais vulnerabilizadas. Nesse sentido, torna-se importante compreender as particularidades desses grupos.

“Territórios vulneráveis não são apenas endereços de problemas, mas também de conhecimento e resistência”, ponderou Fernanda Pahim, gerente de Projetos Estratégicos de Responsabilidade Social e Filantropia no Einstein. Em sua visão, a atuação conjunta entre o setor público e o privado é um caminho real para uma saúde pública cada vez mais equitativa no Brasil.

Durante o evento, a Secretária de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde (SESAI/MS), Lucinha Tremembé, ressaltou que ter uma gestão comandada por um cidadão indígena foi fundamental para a consolidação do primeiro projeto para populações indígenas a partir da própria secretaria, considerando as particularidades e vulnerabilidades específicas desse grupo demográfico.

“Vindo do chão da aldeia e pensando com parceiros, discutimos o que poderíamos implementar e melhorar, e a questão da conectividade foi um marco”, relembrou Tremembé. “Existiram fatores dificultadores, como a própria infraestrutura dentro desses territórios, mas através do PAC conseguimos avançar de forma mais organizada e estruturada para expandir esse acesso à saúde.”

O investimento em iniciativas de telessaúde, com teleconsultas e teleinterconsultas – como o TeleAMEs, conduzido pelo Einstein por meio do PROADI-SUS – é uma frente que tem demonstrado resultados importantes para ampliar o cuidado pelo país. O fortalecimento de projetos dessa natureza acontece de maneira paralela ao desenvolvimento do Complexo Econômico‑Industrial da Saúde (CEIS), com parcerias entre empresas de tecnologia e dispositivos médicos, prestadores e outros atores do ecossistema.

“A aposta é explorar todas as estratégias e possibilidades de parcerias entre o público e o privado nas expertises de cada um para melhorar e reduzir a inequidade. Entender e aplicar aquilo que já foi desenvolvido e aplicado no âmbito privado para qualificar e fortalecer o nosso sistema público”, defendeu Aline de Oliveira Costa, diretora do Departamento de Cooperação Técnica, Inovação e Desenvolvimento em Saúde, do Ministério da Saúde.

Segurança e qualidade como norte para a sustentabilidade

Além da ampliação do acesso, as parcerias se estendem também para projetos cujo principal objetivo é a redução de desperdícios por meio do aumento da eficiência e otimização da operação. “Qualidade é a prática baseada na melhor evidência e de forma padronizada, enquanto a segurança seria evitar um dano desnecessário decorrente do processo inicial. Parece simples, mas não é”, sintetizou Luciana Borges, diretora de Cuidado Público no Einstein. “Exige engajamento e comprometimento do estado, do município e da própria organização.”

Para começar a discutir e implementar estratégias de segurança e qualidade, é preciso primeiro adotar uma visão sistêmica do desafio do desperdício e do retrabalho, argumentou Oberdan Lira, Secretário Adjunto Executivo de Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT). Segundo ele, a raiz do problema é dividida em três eixos: cultura organizacional, informação fragmentada e processo de trabalhos desencontrados.

Lira afirmou que o próprio arcabouço legal do SUS ainda se coloca de maneira mais rígida, e é preciso encontrar estratégias que funcionem nesse contexto. “Unidades como hospitais são organismos vivos, mudam todo dia, toda hora, todo segundo. Se a gente trabalhar com esses três eixos muito bem definidos, acredito que conseguimos reduzir o desperdício.”

Diante dessa necessidade, enquanto os entes públicos têm a expertise de uma visão mais sistêmica e plural dos territórios, os atores do setor privado podem contribuir com o pragmatismo, a velocidade e a capacidade de entrega e resolução, além da gestão, defendeu Felipe Piza, diretor de Responsabilidade e Filantropia no Einstein. “Essa sinergia é muito complementar e muito rica. A nossa atuação só vale a pena se for para transformar, e ela só vai transformar se impactar quem está na ponta”, completou.

A prova de que a colaboração entre as esferas pública e privada pode dar certo está em números, afirma Marcela Pégolo da Silveira, coordenadora da Coordenadoria de Gestão de Contratos de Serviços de Saúde do Estado de São Paulo. “Em 1998, eram apenas cinco hospitais gerenciados por organizações sociais de saúde. Hoje, temos 142 unidades gerenciadas por entidades privadas sem fins lucrativos, que são as OS. Isso é um ponto que demonstra a força desse modelo de gestão e parceria”, afirmou.

Esse olhar mais integral também pode ser aplicado à forma de enxergar o sistema de saúde. Na perspectiva de Eliézer Silva, diretor de Sistemas de Saúde no Einstein, que encerrou o evento promovido pela organização com uma fala sobre sua atuação nos últimos anos, esse seria um caminho para avançar e multiplicar esse tipo de aliança. “Não temos um sistema público e um sistema privado, mas um único sistema de saúde. Em última análise, o objetivo é o mesmo, garantir equidade de acesso para toda a população.”

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