Os alimentos ultraprocessados fazem parte da rotina de milhões de pessoas. Estão presentes no café da manhã, nos lanches das crianças, nas refeições rápidas e até nas merendas escolares. Refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, macarrão instantâneo, embutidos, cereais açucarados, bebidas lácteas saborizadas e refeições prontas são exemplos desse grupo de produtos.
Em uma linguagem simples, um alimento ultraprocessado é aquele que passou por muitas etapas industriais e recebeu ingredientes que normalmente não usamos na cozinha de casa, como corantes, aromatizantes, emulsificantes, acidulantes, espessantes, realçadores de sabor e conservantes. Em geral, esses produtos contêm pouca ou nenhuma quantidade do alimento original e são formulados para serem muito saborosos, práticos e durarem bastante tempo nas prateleiras. Essa definição faz parte da classificação NOVA, desenvolvida pelo pesquisador Carlos Augusto Monteiro e sua equipe da Universidade de São Paulo (USP). Nessa classificação os alimentos são divididos em quatro categorias: alimentos in natura ou minimamente processados (grãos, farinha, leite, ovos), processados (manteiga, azeite, sal e açúcar – usados no preparo), os processados (pães artesanais, alimentos em conservas) e ou ultraprocessados (refrigerantes, pães embalados, salgadinhos, bolachas), que na realidade não seriam nem propriamente alimentos.
Embora sejam extremamente convenientes, o consumo frequente desses produtos está associado a diversos problemas de saúde. Estudos mostram aumento do risco de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, doenças inflamatórias intestinais e alguns tipos de câncer, especialmente quando esses alimentos substituem uma alimentação baseada em frutas, verduras, legumes, feijão, cereais integrais e preparações caseiras. As pesquisas indicam que essa relação resulta de um conjunto de fatores, incluindo excesso de açúcar, sódio e gorduras, além do impacto do processamento industrial e dos aditivos alimentares.
Outro aspecto importante envolve a microbiota intestinal, conhecida popularmente como flora intestinal. O intestino abriga uma infinita quantidade de microrganismos que participam da digestão, da produção de vitaminas, do funcionamento do sistema imunológico e da proteção contra doenças. Dietas ricas em ultraprocessados tendem a reduzir a diversidade dessas bactérias benéficas, favorecendo um desequilíbrio chamado disbiose. Esse processo pode aumentar a inflamação crônica do organismo, alterar o metabolismo e contribuir para o desenvolvimento de doenças metabólicas e até favorecer mecanismos relacionados ao surgimento de alguns tipos de câncer. Ainda que a microbiota não seja a única responsável por essas doenças, as evidências apontam que sua alteração é um dos caminhos biológicos envolvidos.
O impacto é ainda mais preocupante entre crianças e adolescentes. Nessa fase da vida, o organismo está em crescimento e os hábitos alimentares estão sendo formados. O consumo frequente de ultraprocessados favorece o excesso de peso, aumenta o risco de doenças futuras e contribui para a preferência por alimentos muito doces, salgados e gordurosos, reduzindo o interesse pelos alimentos naturais. Além disso, uma alimentação pobre em fibras compromete o desenvolvimento de uma microbiota intestinal saudável.
Entretanto, o elevado consumo de ultraprocessados não pode ser explicado apenas por escolhas individuais. Existem fatores econômicos e sociais que influenciam diretamente esse cenário. Muitas famílias vivem em regiões onde há pouca oferta de alimentos frescos, enquanto produtos industrializados são encontrados facilmente, têm maior durabilidade e, muitas vezes, apresentam menor custo imediato. Infelizmente, quase sempre, comida de verdade custa mais caro. Soma-se a isso a hiperpalatabilidade e a intensa publicidade, principalmente direcionada às crianças, a praticidade para quem possui pouco tempo para cozinhar e as desigualdades sociais que dificultam o acesso à alimentação adequada.
Nesse contexto, a Vigilância Sanitária exerce papel fundamental na proteção da saúde da população. Entre suas atribuições estão a fiscalização da produção e comercialização de alimentos, a regulamentação do uso de aditivos, a rotulagem nutricional adequada, o controle de segurança dos produtos e a implementação de medidas que permitam ao consumidor fazer escolhas mais conscientes. Essas ações são importantes, mas especialistas defendem que elas devem ser acompanhadas por políticas públicas que estimulem o acesso a alimentos saudáveis e reduzam a exposição da população aos ultraprocessados.
Grande parte das evidências que fundamentam essas políticas foi produzida pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS), da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Coordenado pelo professor Carlos Augusto Monteiro, o grupo desenvolveu a classificação NOVA, hoje utilizada internacionalmente para ordenar os alimentos conforme o grau de processamento. Além disso, o NUPENS contribuiu para a elaboração do Guia Alimentar para a População Brasileira, considerado uma referência mundial em promoção da alimentação saudável. As pesquisas do núcleo demonstram que o aumento da participação dos ultraprocessados na dieta está relacionado à pior qualidade da alimentação e ao crescimento das doenças crônicas não transmissíveis.
Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados não significa eliminar completamente a praticidade do dia a dia, mas priorizar alimentos in natura ou minimamente processados sempre que possível. Pequenas mudanças, como aumentar o consumo de frutas, verduras, legumes, feijão e preparações caseiras, enfim, COMIDA DE VERDADE, como costuma definir Rita Lobo, uma das principais vozes no país em defesa da alimentação saudável, representam uma estratégia eficaz para proteger a microbiota intestinal, reduzir processos inflamatórios e promover saúde ao longo de toda a vida.
Uma alimentação saudável depende não apenas das escolhas individuais, mas também de políticas públicas, INFORMAÇÃO, educação alimentar, acesso a alimentos de qualidade e compromisso social com a promoção da saúde.
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