Uma amiga me perguntou:
─ Você acredita mesmo que um amor possa ficar guardado durante 20 anos?
Mostrava-se incrédula. Considerava um exagero que, depois de tanto tempo de afastamento, os dois se olhassem e todas as experiências vividas no passado voltassem à tona. Mantinha-se irredutível em sua opinião e acrescentou que aquilo parecia roteiro de novela.
Sorri e respondi:
─ Mas a vida também é uma novela.
Em se tratando de amor, tudo é possível, e nada, absolutamente nada, pode ser descartado. Afinal, o amor não acompanha a lógica. Não segue cartilha. Não respeita convenções. Simplesmente surge, acontece, brota, vibra, pulsa.
Sabe qual é o problema do amor? É quando ele se depara com as reticências.
Vamos imaginar que você encontra alguém. Aos poucos, tornam-se um casal. Compartilham alegrias, desafios e tudo o que acompanha uma relação amorosa. Até que, com o passar dos anos, percebem que o sentimento mudou e decidem, de forma madura, seguir caminhos diferentes. De comum acordo, colocam um ponto-final na história. Fecha-se o ciclo.
Agora, pense em outra situação. Você conhece uma pessoa e vive um grande amor. Tudo segue seu curso até que a vida interfere e interrompe a trajetória dos dois. Não por falta de afeto ou por decisão mútua, mas por motivos que escapam completamente ao controle de ambos. A separação ocorre, porém o vínculo permanece. É nesse momento que o amor encontra as reticências.
Faltou completar o circuito, faltou continuidade, faltou seguir adiante. O que se faz com esse amor que não foi vivido por inteiro? Engaveta-se.
A vida empurra cada um para um lado. Podem ou não constituir família, mudar de país, refazer a própria rotina ou o que mais quiserem, mas basta que se encontrem novamente para que o sentimento adormecido venha espiar seus protagonistas.
Acontece. E não apenas nos folhetins.
As pernas tremem, o coração acelera, as mãos suam, as pupilas dilatam, as palavras não se encaixam como deveriam, o nervosismo toma conta e o amor se reconhece. Nem é preciso sentir tudo isso ao mesmo tempo; um único sinal já é suficiente para que você, mesmo sem querer admitir ou tentando disfarçar, saiba que é dentro de si que os sentimentos se manifestam de maneira verdadeira.
Amores sem ponto-final ficam guardados em algum canto. Uma música, um encontro inesperado ou até esperado, um lugar, um momento, uma lembrança; qualquer um desses elementos pode fazer com que eles reapareçam.
Pois bem, tudo bonito e romântico, mas vamos chamar ao palco desta crônica a razão.
Ao se reencontrarem, não serão mais as mesmas pessoas. O tempo nos transforma por dentro e por fora. Muitas vezes, as expectativas criadas são castelos fáceis de desmoronar. Ninguém permanece com os mesmos pensamentos, ideias e sonhos, ao longo dos anos.
O fato é que, diante dessa nova versão de si mesmos, cabe exclusivamente aos dois decidir se preenchem ou não as reticências.