O entendimento sobre o câncer avançou de forma significativa nas últimas décadas. O que antes era tratado como uma única doença passou a ser compreendido como tumores com características biológicas distintas, impulsionando novas estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento. Esse movimento também tem exigido mudanças na forma como oncologistas são formados e como a pesquisa clínica é conduzida e integrada na formação dos profissionais.
As transformações na especialidade foram tema de painéis de debates promovidos pelo Einstein Hospital Israelita durante o Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizada em Chicago, nos Estados Unidos. No espaço de debates montado pelo Einstein pelo terceiro ano, especialistas da organização e de outros hospitais de referência no mundo discutiram os desafios da educação médica diante do crescimento rápido do conhecimento científico e a chegada de tecnologias como a inteligência artificial, além de abordarem o papel da pesquisa clínica como parte da assistência ao paciente, como forma de ampliar a equidade de acesso e na própria formação dos novos profissionais da área.
Para Roberto Pestana, oncologista do Einstein, a incorporação de temas como medicina de precisão, inteligência artificial, terapias avançadas, qualidade de vida e cuidado multidisciplinar aumentou a complexidade da oncologia. Com novos elementos, a variedade de informações que os profissionais precisam prestar atenção também cresceu. “Isso traz desafios não só na formação, mas em garantir que esse conhecimento chegue de forma adequada para os pacientes”, disse, em um dos painéis.
Neste contexto, entra no escopo de funções do oncologista a capacidade de curadoria de evidências de qualidade e a habilidade de transformá-las em decisões clínicas. Por isso, na visão de Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), a função das sociedades médicas também passa por uma mudança: “O papel do professor ou de uma sociedade vai além de oferecer conteúdo e passa a ser de fazer curadoria para ajudar que esse volume de informação não fique perdido e nem muito superficial”.
Segundo ela, esse desafio ganha uma nova dimensão com a incorporação da IA ao cotidiano dos médicos, que levou a SBOC a preparar iniciativas voltadas ao letramento em IA, além de propor ferramentas que incorporem diretrizes clínicas e favoreçam uma atuação mais integrada entre diferentes especialidades.
Embora os ganhos produzidos pela IA sejam cada vez mais reconhecidos, a tecnologia também traz preocupações. Na avaliação de Oren Smaletz, oncologista do Einstein, por mais que ela torne o acesso à informação mais rápido, ainda demanda olhar crítico do médico. “Os residentes estão mais rápidos na informação, mas vejo isso com certo cuidado. Não podemos ficar só no superficial da IA e deixar de ler o artigo científico e entender os métodos do estudo, os desfechos mais importantes”, afirmou. Para ele, um dos desafios da formação será justamente preservar a capacidade de interpretar criticamente as evidências científicas.
Da esq. para a dir.: Clarissa Baldotto, Roberto Pestana e Oren Smaletz. Foto: divulgação.
Pesquisa clínica e assistência
As mudanças na formação médica em oncologia caminham em paralelo com a transformação da pesquisa clínica. Isso porque os ensaios são vistos, cada vez mais, como uma importante forma de acesso ao cuidado. Uma das consequências desse novo arranjo é a necessidade de reforçar a aproximação entre pesquisa e ensino, que pode propiciar expertise para encontrar, analisar e ponderar os riscos e ganhos de estudos clínicos e novas terapias para os pacientes.
Evando de Azambuja, presidente da Sociedade Belga de Oncologia Clínica e coordenador da clínica de mama do Instituto Jules Bordet, na Bélgica, afirmou que, na organização em que atua, os residentes passam obrigatoriamente pela unidade de pesquisa clínica, participam da discussão dos protocolos e são estimulados a seguir carreira acadêmica. “Eles fazem parte de tudo isso, são muito engajados para pesquisa e a gente estimula que façam doutorado. Muitos ficam na instituição fazendo parte clínica e parte de pesquisa”, disse.
A integração impacta na atratividade da própria instituição. Ele contou que o instituto mantém cerca de 100 estudos clínicos em andamento, incluindo aproximadamente 25 estudos de fase 1, e que esse portfólio se tornou um dos principais fatores de atração de pacientes: “Muitos pacientes chegam para nós porque sabem que temos estudos clínicos. Eles querem um melhor tratamento, procuram uma segunda opinião e querem saber se existe algum estudo em andamento”.
Para ele, esse modelo também permite que as equipes adquiram experiência com novas terapias antes mesmo de sua incorporação à prática clínica. “Quando a droga vem para o mercado, já sabemos como manejá-la e como lidar com os efeitos secundários”, adicionou. Atualmente, cerca de 13% dos tratamentos realizados no instituto ocorrem dentro de estudos clínicos, percentual superior ao observado na maior parte dos centros oncológicos.
No Brasil a perspectiva é semelhante. Na visão de Vanessa Teich, diretora de Transformação em Oncologia e Hematologia do Einstein, ampliar a pesquisa clínica no país significa ampliar o acesso de pacientes à inovação. Ela destaca que, em alguns casos, pacientes do sistema público conseguem acesso, por meio de estudos clínicos, a terapias que ainda não estão disponíveis na rotina assistencial.
Teich revelou ainda que o Einstein reserva parte da carga horária dos médicos para pesquisa e ensino. “Nos contratos com os médicos, buscamos reservar parte do tempo deles para esse fim”, explicou. “A ideia é fortalecer essa cultura de pesquisa no centro de tudo.”
Para Max Mano, oncologista do Einstein, a integração entre assistência e pesquisa tende a se tornar cada vez mais importante também no Brasil. “No passado, já foi possível abrir um hospital sem ter atividade de pesquisa, mas isso está mudando muito rapidamente. Hoje, excelência e atuação em pesquisa são características indissociáveis”, afirmou.
Multidisciplinaridade, prevenção e educação do paciente ganham espaço
Os especialistas também defenderam ao longo dos debates que o papel do oncologista vai muito além da indicação de tratamentos. Segundo Smaletz, estudos apresentados nas últimas edições da ASCO reforçam que intervenções relacionadas à alimentação, atividade física e outros hábitos saudáveis podem contribuir para reduzir recidivas em alguns tumores, melhorar a sobrevida e aumentar a qualidade de vida dos pacientes.
“São pequenas coisas que não custam muito caro. Na verdade, precisa muito que o paciente assuma a responsabilidade também do seu tratamento. O mais importante é a modificação de hábitos antes do diagnóstico, como prevenção”, afirmou, reforçando que a prevenção deve começar antes mesmo do diagnóstico.
Os debates também apontaram que a formação do oncologista passa por uma atuação integrada com outras áreas da saúde. “A oncologia talvez seja uma das áreas da medicina de maior interdisciplinaridade. A gente precisa olhar de uma forma mais transversal para todas as especialidades, porque senão estamos tratando um pedaço e deixando pontas soltas”, afirmou Baldotto.
Sobre o futuro, entram no radar ações voltadas para cuidar de quem cuida. Uma vez que a oncologia é uma área que lida de maneira muito próxima com a frustração e a perda de pacientes, entidades como a SBOC começam a chamar a atenção para a atenção à saúde mental dos oncologistas, que deve começar ainda na fase de formação. “Se na medicina, de maneira geral, isso já é uma preocupação, a carga na oncologia é ainda mais desafiadora justamente pela velocidade em que o conhecimento está se renovando”, argumentou Smaletz. “Temos que incentivar o equilíbrio entre formação e bem-estar mental.”

Da esq. para a dir.: Vanessa Teich, Evando de Azambuja e Max Mano. Foto: divulgação.