Nos últimos anos, o aumento de casos de câncer e as despesas com novos tratamentos têm provocado impactos econômicos relevantes em todo o mundo. Projeções estimam que o custo global da doença deve atingir US$ 25,2 trilhões entre 2020 e 2050; apenas no Brasil, o ônus direto com o tratamento oncológico no Sistema Único de Saúde (SUS) alcançou R$ 3,9 bilhões em 2022. Diante desse cenário, a melhora nos mecanismos de prevenção ganha cada vez mais relevância nos debates e foi tema presente também no Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia (ASCO) 2026.
Ao longo dos cinco dias do principal congresso mundial de oncologia clínica, realizado em junho em Chicago, nos Estados Unidos, foram apresentados trabalhos sobre estratégias de prevenção primária e secundária. Ganharam espaço intervenções em fatores de risco modificáveis e não farmacológicas, como prescrição de exercício físico guiado, e reavaliação de estratégias de rastreio de cânceres como o de colo de útero. A doença ainda é responsável pela morte de milhares de mulheres em países de média e baixa renda.
Em um painel que discutiu o papel da prevenção no espaço de debates montado pelo Einstein Hospital Israelita na ASCO, o oncologista do Einstein Andrey Soares, reforçou que cerca de 40% dos cânceres dependem de fatores de risco. “O impacto da prevenção, portanto, é muito importante para evitar o desenvolvimento da doença e temos que discutir esse tema”, completa.
Na ASCO 2026, o tema da prevenção foi abordado por meio de estudos que investigaram, por exemplo, o impacto da prescrição de atividades físicas guiadas para reduzir sequelas como neuropatia periférica induzida pela administração de quimioterapia. Também foi apresentada uma análise sobre intervenções de exercícios e uso de vestíveis por pacientes com câncer de próstata em terapia de privação androgênica. Além disso, também tiveram espaço estudos voltados para aprimorar a educação sobre a importância de medidas preventivas, tanto para pacientes quanto para a nova geração de médicos.
Câncer de colo de útero e o foco no rastreio
Quando se fala da importância da prevenção, um exemplo que costuma ser bastante citado é o de câncer de colo de útero. Segundo dados da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), mais de 78 mil mulheres são diagnosticadas anualmente com este tipo de tumor na América Latina e no Caribe, e cerca de 40 mil perdem a vida por causa da doença. O número chama atenção por ser um câncer altamente evitável e manejável em estágios iniciais: além dos exames de rastreio serem de baixo custo, há ainda a vacina contra o HPV, vírus associado a até 99% dos casos.
Contudo, ainda há barreiras de acesso e engajamento. No Brasil, o câncer de colo de útero aparece como segunda neoplasia mais incidente no Norte e no Nordeste. Para se ter ideia, na região Norte, a mortalidade pela doença representa 15% dos óbitos por câncer em mulheres.
“Sabemos que há uma parcela da população que é menos assistida, que tem menos acesso a prevenção, exames e até mesmo tratamentos. E essa é a população mais atingida pela doença”, afirma Ida Sztamfater, psicóloga e presidente da amigo_h (Amigos Einstein da Oncologia e Hematologia), que integra o pilar de Responsabilidade Social do Einstein.
A boa notícia é que, segundo estimativa de 2026 do Instituto Nacional de Câncer (Inca), há um movimento de queda nos números desde 2018. E, de forma geral, a América Latina como um todo tem progredido na prevenção e controle desse câncer, segundo analisou Kathleen Schmeler, professora do Departamento de Oncologia Ginecológica e Medicina Reprodutiva do MD Anderson Cancer Center, também durante o painel em Chicago.
Para a pesquisadora, que é co-autora de um artigo sobre o tema, o maior avanço identificado foi na distribuição da vacina contra o HPV, que contou com o apoio da OPAS para reduzir o preço das doses. “Os dados encontrados são encorajadores. Muitos países conseguiram implementar a vacina. Onde há mais dificuldade agora é na garantia de acesso ao tratamento, quando o exame do HPV apresenta resultados anormais.”
No Brasil, a amigo_h atua na articulação com outros atores sociais para ampliar a conscientização e o acesso à prevenção. Entre as ações já desenvolvidas estão campanhas de vacinação em locais de difícil acesso e capacitação de policiais femininas para orientar a autocoleta do teste de HPV em comunidades ribeirinhas em Goiás, por exemplo.
“Fizemos a capacitação dessas agentes que tinham um vínculo com essa comunidade ribeirinha. Lá, o acesso a exames ginecológicos é difícil por inúmeras razões, da dificuldade de chegar ao serviço de saúde ao preconceito em relação à realização do exame”, explica Sztamfater. A iniciativa conseguiu direcionar mulheres com amostras positivas para tratamento em hospitais.
Da esq. para a direita: Kathleen Schmeler, Donato Callegaro Filho e Andrey Soares durante painel de debate no estande do Einstein na ASCO. Foto: divulgação Einstein.
Código Latino-Americano e Caribenho contra o Câncer
Focar em prevenção também faz parte do avanço científico e da ampliação de conhecimento sobre como o câncer funciona. Com a tendência de uma medicina mais focada na saúde do que na doença, mais pesquisas têm procurado investigar a relação entre hábitos saudáveis e a redução do risco de desenvolvimento de câncer.
Tabagismo, consumo de álcool, infecções virais como HPV, exposições ambientais, e a tríade ausência de atividade física, dieta nutricionalmente empobrecida e obesidade são listados como os principais fatores de risco modificáveis para diversas enfermidades, incluindo tumores. Mas as evidências das últimas décadas ressaltam também que mudar um hábito exige mais do que força de vontade individual: fatores culturais e socioeconômicos também têm uma influência significativa na adesão de um novo estilo de vida e precisam ser levados em consideração na hora de ajudar o paciente.
Pensando nisso, com base nas particularidades de recortes populacionais, foi desenvolvido o Código Latino-Americano e Caribenho contra o Câncer (LAC Code), documento que reúne 17 ações e 17 recomendações separadas para a população geral e para os tomadores de decisão em saúde. Lançado em 2023, o código foi formulado por mais de 60 agentes incluindo a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde (OMS), e pela OPAS, com apoio da amigo_h.
Segundo Sztamfater, a comunicação tem papel importante para que a prevenção aconteça no mundo real. “Não adianta ter ideias que não vão ser incorporadas no dia a dia das pessoas. Por isso, o LAC Code tem uma linguagem bastante simples e bastante acessível”, afirma.
Para Andrey Soares, a importância do código é justamente “fazer as recomendações a partir de situações específicas de acesso a serviços de saúde, como hospitais, e cultura”. “Temos que olhar diferentemente como os países de renda média e baixa trabalham comparado com os países de renda alta”, afirmou.
Um cuidado desenhado a partir da prevenção
O entendimento sobre a prevenção como um eixo estratégico no combate ao câncer traz consigo o incentivo ao desenvolvimento de políticas públicas com o objetivo de reduzir o número de casos da doença. Essa vertente busca, obviamente, uma redução no número de casos – mas também um custo menor com o tratamento de pacientes com neoplasias já em estágios mais avançados.
Nesse contexto, especialistas entendem que é necessário atuar em diversas frentes, desde uma postura mais ativa no incentivo à adesão aos exames de rastreio e vacinação, ao treinamento dos profissionais de saúde para atuar como aliado do paciente na modificação dos fatores de risco. Neste contexto, também existe a demanda pelo desenvolvimento de estratégias de comunicação mais efetivas com a população, que ainda leva tempo para buscar os serviços de saúde – seja por falta de informação, seja por dificuldades de acesso, ou até por preconceitos pessoais e culturais.
Durante o painel, Donato Callegaro Filho, oncologista do Einstein, citou como exemplo a estratégia de tornar a vacinação contra o HPV mais acessível. “Já temos a vacinação estabelecida no Brasil. Agora precisamos melhorar a forma como essa vacina chega até as crianças e os adolescentes”, defendeu. “A prevenção é o mais importante e talvez o foco para os futuros oncologistas e provedores de saúde.”