“A humanidade e a tecnologia estão avançando muito rápido, muito mais rápido do que a possibilidade de ações terapêuticas humanizantes, que a medicina, que a psicologia, que assistência social, que a terapia ocupacional podem ofertar. Acabamos por oferecer algo mais paliativo, mais formativo”, destacou o professor. “Pela facilidade de acesso à informação, as pessoas conseguem ampliar seu conhecimento e às vezes querem determinados remédios, porque agem rapidamente. E não são placebos, são remédios que realmente afetam, que agem de maneira bioquímica. Quando usados sem orientação médica, podem trazer efeitos colaterais e grandes dificuldades.”
Leite comentou sobre uma popularização dos diagnósticos, o que leva a um excesso deles, especialmente quando as pessoas não se baseiam em avaliações feitas por profissionais. “Os diagnósticos têm sido buscados em redes sociais, no TikTok, no Instagram, em fontes duvidosas. Um princípio essencial do diagnóstico é que ele não deve ser autorrealizado, você precisa de um profissional para te observar, para ouvir seu relato, para poder minimamente pensar em um diagnóstico.”
O psiquiatra ainda destaca uma impressão da sociedade de que o diagnóstico psiquiátrico é rápido, fácil de ser obtido. “Não é verdade. Existem casos que demoram diversas consultas, meses, anos e até eventualmente casos em que não se chega a um diagnóstico definitivo. O diagnóstico acaba muitas vezes sendo um engessamento das possibilidades do indivíduo mudar suas atitudes em relação a si mesmo, em relação à vida, justificando comportamentos e atitudes. A justificativa, por si só, pode ser paralisante, limitante de mudança: com um diagnóstico bem feito, bem realizado, pode dar uma dimensão de como lidar consigo de uma forma mais suave, cuidadosa; em outros casos, pode ser um disfarce, uma forma das pessoas de se isentarem de algumas responsabilidades, sem relação com algum diagnóstico psiquiátrico.”
Por outro lado, Leite destaca que a tecnologia facilitou o acesso à informação, o que incentivou pessoas a buscarem tratamento. “Existe uma maior transparência em relação à saúde mental. Em um momento histórico, as pessoas tinham vergonha de relatar que tinham algum problema psiquiátrico ou que tomavam medicação. Hoje é um cenário oposto, com uma grande redução global do estigma associado a problemas de saúde mental.”
Ao mesmo tempo, o profissional alerta para o uso excessivo de telas. “O excesso pode ser particularmente ruim para algumas populações, como crianças, adolescentes e idosos. A exposição excessiva à tecnologia significa que essa criança, esse adolescente, está convivendo menos com colegas, tendo uma menor interação social, privando-se de convívio social. Tudo isso limita aquisição de repertório, de comportamentos, de um arsenal de estratégias de adaptação na vida. Em idosos, pode mascarar problemas como solidão, isolamento, que são marcadores de vulnerabilidade nessa população.”
Leite analisa uma existência do indivíduo muitas vezes mais virtual do que real, e considera um sintoma da sociedade e da civilização humana irreversível. “Estamos conectados com WhatsApp, Facebook, com as redes, transitando a todo tempo entre o real e o tecnológico, o virtual. Não podemos abrir mão da tecnologia, então é importante ter uma noção crítica de que, se a tecnologia contribuir para um isolamento, para um retraimento, para um aumento da solidão, é certamente um caminho em que a tecnologia não está sendo saudável”, pontuou.