Fim da jornada 6 x 1, um tema que ainda levanta muitas dúvidas – Jornal da USP

Os três dias de descanso seriam remunerados? O salário seria mantido integralmente? Como adaptar setores que funcionam de forma contínua?

Foto: vectorjuice/ Magnific
Desenho de um relógio sobre o qual está sentada a figura do que parece ser uma pessoa do sexo feminino; ao lado inferior do mesmo relógio, senta-se outra figura feminina. Também podem ser vistos objetos como livros e vasos de planta
A PEC 8/2025 nasceu da mobilização do movimento Vida Além do Trabalho, que reuniu quase 800 mil assinaturas em uma petição pública pelo fim da escala 6×1 – Foto: Freepik
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O debate sobre o fim da jornada 6×1 ganhou destaque no Brasil recentemente. Em fevereiro de 2025, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) apresentou a Proposta de Emenda Constitucional nº 8/2025, que altera o artigo 7º da Constituição Federal. A proposta prevê que a duração normal do trabalho não ultrapasse oito horas por dia e 36 horas por semana — o que resultaria em quatro dias de trabalho e três de descanso, sem redução de salário.

Hoje, a Constituição permite até 44 horas semanais, na tradicional escala de seis dias de trabalho para um de descanso — modelo que tem raízes históricas e até religiosas. A mudança proposta pela PEC representa dois movimentos principais: a redução da carga semanal de 44 para 36 horas e a ampliação do descanso de um para três dias. 

A PEC 8/2025 nasceu da mobilização do movimento Vida Além do Trabalho, que reuniu quase 800 mil assinaturas em uma petição pública pelo fim da escala 6×1. Para os defensores da proposta, reduzir a jornada sem cortar salários pode trazer benefícios sociais e econômicos — como o aumento do consumo e a criação de novos postos de trabalho.

Essa tendência de redução da jornada não começou no Brasil. Ela ganhou força em 2018, com experiências em países como Bélgica, Islândia, Espanha, Reino Unido, Japão e Nova Zelândia, e se intensificou após a pandemia. Em geral, os resultados apontam ganhos em produtividade, saúde mental e qualidade de vida. Aqui, algumas empresas também têm testado o modelo. A Zee.Dog e a Vockan foram pioneiras. E, em 2023, um programa piloto com 22 empresas brasileiras mostrou resultados positivos: menos faltas, mais engajamento e produtividade elevada.

Dúvidas

Mas o tema ainda levanta muitas dúvidas. Os três dias de descanso seriam remunerados? O salário seria mantido integralmente? Como adaptar setores que funcionam de forma contínua, como hospitais, indústrias e supermercados? Como manter o limite diário de oito horas, quando quatro dias semanais resultam em apenas 32 horas semanais, não 36?

Nas experiências internacionais, as respostas são diversas. Na Bélgica, por exemplo, a carga é de 38 horas semanais, mas concentrada em quatro dias — o que significa jornadas mais longas. Na Islândia, a redução foi feita sem cortes salariais, mas exigiu novas contratações, elevando os custos das empresas.

Além disso, o Brasil vive um cenário de avanço da automação e substituição da mão de obra humana por tecnologia. É necessário um planejamento amplo e cuidadoso para que esse processo não acelere a informalidade e o desemprego formal, forçando muitos trabalhadores a buscar uma segunda ocupação — e, paradoxalmente, a trabalhar ainda mais.

Por isso, especialistas defendem que a redução da jornada seja debatida com cautela, para que uma proposta criada para melhorar a vida dos trabalhadores não acabe ampliando as desigualdades.

Este episódio foi realizado com a colaboração de Bruno Milhorato Barbosa, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Meio Ambiente do Trabalho da USP. O podcast Meio Ambiente e Segurança no Trabalho é uma realização em parceria entre a Faculdade de Direito da USP – São Paulo, a Rádio USP e o Jornal da USP. Você pode conferir este e outros episódios em jornal.usp.br/atualidades ou no seu agregador de podcast favorito.

 

 

 

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