A inversão da pirâmide etária brasileira, o avanço da tecnologia em ritmo acelerado e novos tratamentos de alto custo pressionam a sustentabilidade dos sistemas de saúde. O cenário deve fazer com que o setor se transforme nos próximos anos para se adaptar ao futuro. Neste contexto, ganha relevância um olhar mais sistêmico para a saúde, com integração e desenvolvimento de parcerias para enfrentar os múltiplos desafios. Esses caminhos foram apontados por executivos do setor em evento sobre a saúde dos próximos 25 anos, realizado na segunda-feira, em São Paulo, SP, em iniciativa conjunta entre Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) e Futuro da Saúde.
Durante o encontro, houve consenso de que o caminho a se percorrer pode alavancar temas como interoperabilidade de dados, adoção de tecnologias e foco na prevenção e promoção da saúde “Mais que projetar cenários, esse encontro é uma oportunidade para construir visões. Reunimos lideranças, especialistas e organizações que ajudam a pensar o presente e o futuro da saúde brasileira, compartilhando conhecimento e experiência que podem orientar as decisões dos próximos anos”, afirma Eduardo Amaro, diretor-executivo da Anahp.
Segundo Paulo Chapchap, diretor médico de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), olhar para o sistema de forma conjunta é um passo ainda novo. “Temos esse vício de falta de integração entre gestões dos vários elos da cadeia de valor. É natural nos preocuparmos com a sustentabilidade do setor. Talvez o maior estímulo seja aumentar o número de pessoas seguradas. Agora, é antinatural nos reunirmos e avaliarmos o que fazer em conjunto com um sistema que não tem crescido”, avalia.
O papel do paciente também deve guiar essa transformação. Isso porque, com os wearables e inteligência artificial na palma da mão, as pessoas estão mais empoderadas sobre sua saúde e podem discutir suas condições de forma mais ativa, e não tão passiva como no passado.
Cenário e caminhos
Paulo Chapchap, diretor médico do IEPS, durante o evento (Foto: Claudio Belli)
A avaliação principal dos especialistas é de que o sistema de saúde brasileiro é fragmentado e necessita de mais integração. Para o diretor do IEPS, o setor privado atua muito bem individualmente, mas é preciso que cada área busque soluções que colaborem com a saúde de forma geral.
“As transformações dependem de decisões de pessoas. Elas tinham diagnósticos comuns 25 anos atrás. Talvez um dos pontos que fez com que não conseguíssemos agir sobre as transformações necessárias ou nos antevemos a problemas estruturais cada vez mais graves é porque temos excelente gestores de setores e empresas, mas não temos excelentes gestores de sistemas”, afirma Chapchap.
Isso deve ocorrer através de decisões conjuntas. Ele sugere, por exemplo, que haja indicadores comuns que movimentem todo o setor. Para além de questões econômicas e de receita das empresas, eles dariam conta de estimular melhorias para a população e, consequentemente, retornariam a sustentabilidade ao sistema.
“Temos indicadores que são próprios dos desenvolvimentos dos nossos próprios negócios, mas que não medem em conjunto indicadores de sustentabilidade do sistema. Devíamos olhar para os indicadores médicos, que tocam nos pacientes como cliente final”, observa, apontando como possibilidades as taxas de internações evitáveis pela atenção primária e estágio de diagnóstico para neoplasias.
Segundo Chapchap, instituições verticalizadas possuem mais facilidades para investir em promoção e prevenção, por serem operadoras e hospitais e controlarem os próprios estímulos e investimentos. Contudo, há espaço para que empresas não verticalizadas busquem contratualizações que envolvem tais temas, englobando, inclusive, o compartilhamento de dados. A ideia é que transformemos a visão para a gestão de saúde, não apenas de negócios.
“As big techs podem colocar muito mais poder na mão dos pacientes, eles podem não querer comprar mais produtos seguros de saúde. Gostaria que houvesse uma disrupção no sistema através do SUS. Há players de altíssima qualidade que fazem gestão de um número muito grande de leitos da saúde pública e entregam, em termos de qualidade e segurança, resultados parecidos aos da saúde suplementar”, aponta o diretor médico do IEPS.
A disrupção para o setor pode vir através dos pacientes utilizando assistentes de saúde de bolso, da IA generativa. Os sistemas de saúde precisarão se adaptar para entender como trabalhar com essas mudanças e o novo perfil dos pacientes. A incorporação de novas tecnologias também precisa ser um tema de atenção, uma vez que, com o avanço cada vez mais rápido, é preciso mais integração entre empresas de tecnologia e saúde.
“Incorporar novas tecnologias é mais complexo do que parece e depende de redesenho de processos para poder absorver na qualidade e intensidade que gostaríamos. O setor é avesso ao risco, e o erro faz parte de todo o desenvolvimento. O mercado de saúde não é avesso à implantação de tecnologia, talvez implantamos até mais rápido do que deveria. Mas ele conhece o risco e tem que tomar cuidado”, afirma Chapchap.
Da tecnologia à jornada do paciente

Fabrício Campolina fala sobre três tendências que devem moldar o futuro da saúde (Foto: Claudio Belli)
Mesmo com diversas barreiras, o futuro da saúde já desponta no horizonte. Para Fabrício Campolina, fundador da CPLN Advisory, conselheiro da MV e especialista em tecnologia, existem três grandes tendências para os próximos anos. Um deles é o dos robôs humanoides, que serão responsáveis por tarefas desde a limpeza até a entrega de medicamentos aos pacientes. Hoje, robôs já são utilizados em intervenções cirúrgicas, operados e supervisionados por médicos humanos. A tendência, segundo Campolina, é de maior autonomia e ‘subvisão’ por humanos. Dados do Goldman Sachs Research projetam que o mercado a nível global de robôs humanoides pode atingir US$ 38 bilhões até 2035, espalhados em todas as partes, seja nas fábricas quanto nas casas e hospitais.
Outra convergência do hoje para o amanhã é a diferença entre a expectativa de vida saudável e os anos de vida. “Provavelmente vamos ver as pessoas entendendo que longevidade com saúde não é simplesmente para ser jovem. É, de fato, preservar a sua capacidade e autonomia à medida que você envelhece”, pontua. Essa mudança estará pautada pelo uso de tecnologia vestíveis, mas também de novas terapias, como tratamentos com medicamentos da classe de inibidores de GLP-1, e outras completamente revolucionárias, como reprogramação epigenética. Outro tema destacado pelo executivo é o do paciente hiper empoderado. “Ela vai começar a tornar-se dono da sua jornada inteira e vai estar se afiliando a hospitais, a comunidades, para poder ajudar ele a se cuidar.”
Na perspectiva de Martha Oliveira, CEO da Laços Saúde e ex-diretora-presidente da ANS, as novidades do setor de tecnologia em saúde são guiadas para um panorama de maior cuidado pelo próprio paciente. É o caso dos dispositivos vestíveis, que permitem o acesso e o monitoramento até efetivamente a resolução de problemas. Para aproveitar essa potencialidade, será preciso desestruturar a saúde como a conhecemos hoje. “As estruturas de saúde do Brasil são exatamente iguais às de 1970. Queremos falar de tecnologia, de inovação e colocar dentro dessas estruturas. Temos que ter uma reestruturação disso”, defende Oliveira. Para ela, nessa reconfiguração, o cuidado a domicílio será muito significativo.
Em termos tecnológicos, novas soluções estão sendo desenvolvias com foco na prevenção e bem-estar dos usuários, segundo detalha o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento em IA para Saúde e Bem-Estar no Centro de Pesquisa & Desenvolvimento da Samsung no Brasil, Otávio Penatti. Hoje, o Brasil conta com o único laboratório de dados de saúde da empresa no mundo, localizado em Campinas. Dentre as soluções está uma tecnologia de detecção de apneias do sono, aprovada em 2024 pela agência reguladora dos Estados Unidos, o FDA, e um ano depois pela Anvisa. “Vemos uma oportunidade muito grande de contribuir para as pessoas serem mais saudáveis”, comenta o diretor.
O diretor da Samsung acredita que, no futuro, será viável ter indicativos antes de problemas de saúde ocorrerem. Um caso já em estudo é o da demência. Uma pesquisa publicada no Alzheimer’s & Dementia Journal apresenta um sistema de predição de demência baseado em biomarcadores vocais que utilizou mais de 5 mil gravações de voz. Com base nesse material, a tecnologia fez processamento de sinais e detecção de atividade da fala e resultou em uma precisão de previsão da Escala de Avaliação Clínica da Demência (CDR) em 83,6%. “Nos próximos anos, avanços nos sensores irão habilitar novas métricas, possibilitando a correlação entre elas e desfechos de saúde”, pontua. Outra tendência são os modelos fundacionais multimodais, que consideram dados de sensores, métricas de saúde e personalização.
Para o cofundador da Alice, Guilherme Azevedo, existe um momento de transição para integrar essas tecnologias ao cuidado. A diferença que irá ditar o que é incorporado dentro da jornada de cuidado do paciente ou não é a validade científica que os dados de comportamento podem trazer. Informações sobre o tempo de sono e pressão arterial, por exemplo, são dados que integram uma avaliação médica e podem ser úteis para os profissionais de saúde, defende ele.
Entre futuro e desafios do setor

Martha Oliveira, CEO da Laços Saúde e ex-diretora-presidente da ANS, defende a ideia de olhar o setor como integrado (Foto: Claudio Belli)
Ao mesmo tempo que a tecnologia será um elemento presente no futuro da saúde, desafios atuais do setor ainda precisam ser endereçados. No ponto de vista da saúde suplementar, a confiança é um desses elementos que falta na discussão, aponta o cofundador da Alice. Segundo Azevedo, ocorrem muitos atritos entre os entes da cadeia para a promoção do cuidado, e é preciso construir uma relação com parceiros, provedores e pacientes de modo a consolidar portas de acesso. “A pessoa quer se agarrar a algum lugar que pode confiar e ir sempre”, pontua. Na sua avaliação, ferramentas tecnológicas têm assumido esse espaço, porém de forma rasa.
Para Martha Oliveira, ainda é difícil visualizar como será a forma de entrada dos indivíduos dentro do sistema de saúde. Ela propõe ampliar o olhar para além dos silos do setor. “Não consigo mais enxergar o sistema de saúde com essas ‘casinhas’, do hospital, do ambulatório, do laboratório. Plano de saúde, pagador, prestador”, comenta. Assim, na sua visão, o futuro será mais integrado, e a tecnologia será a forma de baratear e aumentar acesso nas camadas mais desfavorecidas da população. Isso não deve representar uma grande dificuldade entre os idosos: uma pesquisa feita pelo Laços Saúde mostra que os mais velhos não têm receio da tecnologia, precisam apenas ser iniciados digitalmente.
Já Campolina percebe o futuro a partir do conceito de commoditização, em uma realidade em que o pagamento de cuidado e acesso, ocorra ele dentro da rede pública quanto na privada, seja exatamente o mesmo para todos. “Não diria redução total da iniquidade, mas commoditização. É uma esperança que eu tenho”, defende.
O que precisa mudar
Para os especialistas, é preciso mudar a lógica da saúde. Incentivos, compartilhamento de dados, prevenção e promoção da saúde são algumas das principais ações que precisam entrar na agenda a caminho de 2050. Apesar de diferentes instituições terem casos isolados e experiências próprias, é preciso avançar de forma estrutural.
“Se não conseguirmos investir em fundamentos básicos no Brasil, pensando como sistema, vamos estar mais distantes de ser um. A saúde suplementar não está estruturada devidamente como sistema. Isso explica porque as iniciativas que fazemos, como interoperabilidade, valor em saúde, promoção e prevenção, têm grande dificuldade de escalar ou serem replicadas”, afirma Daniel Greca, diretor de saúde populacional e inovação do Sírio-Libanês.
Para o cofundador da Alice, a mudança de incentivos e de pagamentos é essencial para que essa nova realidade surja na saúde. “É óbvio que seremos bombardeados, no bom sentido, por tecnologias. Mas, para mim, temos que enxergar a saúde enquanto sistema”. Os próximos anos devem ser de consolidação desse novo caminho da saúde.
Nesse sentido, ainda faltam estímulos. Para a CEO da Laços Saúde, por vezes, é necessário criar ambientes livre de regulação para promover avanços no setor de saúde. A realidade de hoje ainda carrega, na sua visão, ambientes herméticos em que não é possível implementar e colocar testes em ação.
Já Henrique Neves, diretor geral do Einstein Hospital Israelita, observa que é preciso se atentar às dimensões geográficas e diferenças regionais brasileiras. Como grande parte do mercado privado está concentrado em São Paulo, o executivo aponta ser necessário avançar em temas relevantes para o sistema, a fim de melhorar a qualidade da saúde no país.
“O que se abre é o potencial de fazermos um sistema de saúde diferente do que é hoje, aproveitando as coisas boas que existem. Vamos ter muita coisa para preservar. Temos um SUS que de alguma forma presta um serviço relevante, com uma atividade civilizatória, e precisamos nos preocupar com ele. Também temos um sistema privado que tem mérito e competência, que precisamos explorar. Só que precisamos ser mais ambiciosos”, aponta Neves.

Henrique Neves, diretor geral do Einstein, reflete sobre os desafios do sistema de saúde do futuro (Foto: Claudio Belli)
Entre o SUS e a saúde suplementar, Massanori Shibata Jr., CEO do dr.consulta, defende que outros modelos de serviços são relevantes e podem contribuir com a população. Apesar de clínicas populares não serem uma novidade, ganharam força nos últimos anos e concentram parte relevante dos pacientes brasileiros.
Para além das parcerias entre instituições, Massanori defende que é preciso emponderar o paciente, permitindo e criando ferramentas que colaborem com a portabilidade de dados de saúde, por iniciativa individual. Segundo ele, da mesma forma que a população passou a utilizar deliverys para comprar medicamentos sem sair de casa, há transformações que a saúde não tem acompanhado de perto.
“Pacientes não querem necessariamente alguém que assuma o controle da sua jornada, ele quer o suporte. Esse suporte, como várias instituições fazem, evoluindo junto com tecnologia, tem capacidade de arrumar boa parte dos problemas que o sistema vem sofrendo hoje. Falamos de tecnologia avançada, mas ao paciente falta a básica”, defende Massanori.
De acordo com Mauricio Ceschin, ex-diretor presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e autor do livro “A Saúde dos Planos de Saúde”, o setor poderia crescer em abrangência, encontrando caminhos para atrair novos beneficiários. “Planejar o futuro não é tão difícil, é olhar em volta e ver os fatos. Hospitais referências não vão deixar de existir, mas modelos assistenciais vão ter que ser mudados. Todas essas mudanças são como um caminhão descendo a ladeira e, se não acelerarmos o passo, vamos ser atropelados”, aponta Ceschin.
Da mesma forma, Chapchap defende que é preciso avançar na integração público-privada. Trabalhando em parceria, o sistema de saúde pode se beneficiar da pujança do SUS e da qualidade técnica-assistencial do setor privado. “Estamos superando a visão de quem defendia o SUS e achava que qualquer agente de cuidado que não fosse público era uma privatização da saúde. O governo não vai produzir todos os remédios, vacinas e equipamentos. Temos que aprender a usar isso da melhor forma possível e a sociedade precisa ser agente dessa mudança”, afirma.