Durante a sessão plenária do Congresso da European Association for the Study of the Liver (EASL), em Barcelona, na quinta-feira, 28, a apresentação de resultados de estudos clínicos de fase 3 de um novo tratamento para pacientes com hepatite B crônica entusiasmou a plateia de pesquisadores. Abrangendo mais de 1.800 participantes, chegaram a uma cura funcional em 19% dos pacientes, o que significa que esses indivíduos conseguiram um controle natural do vírus seis meses após a descontinuação de uso de medicamentos. Adicionalmente, poucos efeitos adversos foram relatados, a maioria de reações locais brandas. Os resultados foram publicados simultaneamente no periódico científico The New Journal of Medicine.
Esses achados foram definidos por membros da comunidade acadêmica que estavam presentes no congresso como um marco “histórico”. Os participantes dos estudos clínicos estavam em tratamento para hepatite B com análogos de nucleotídeos, uma classe de antivirais usada no tratamento de hepatites. Eles também tinham entre 100 e 3000 mililitros de HBsAg, uma proteína da superfície do vírus utilizada como um dos marcadores para diagnosticar a doença. Níveis altos dela são um fator de risco para o desenvolvimento de câncer hepático e cirrose. No estudo, resultados ainda mais acentuados de cura funcional foram conseguidos em pacientes com menor quantidade dessa proteína. Pacientes em estágios mais avançados de doença hepática não foram incluídos no perfil do estudo.
“É uma excelente novidade. Estávamos há alguns anos sem muitas perspectivas, estacionados em dois medicamentos que são muito bons, mas que têm baixíssima eliminação do HBsAg”, afirma Raymundo Paraná, hepatologista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que não participou do estudo.
Especialistas presentes afirmaram que terapias como essa podem trazer uma mudança de paradigma no tratamento da hepatite B. Pode-se migrar para a cura funcional em muitos casos e a tratamentos com controle viral mais profundos, complementariedade de mecanismos e durabilidade das respostas. O principal foco também deve se direcionar para a eliminação ou diminuição do HBsAg, permitindo reduzir o risco do paciente desenvolver câncer de fígado e cirrose.
A hepatite B crônica atinge 254 milhões de pessoas ao redor do mundo e pode levar ao desenvolvimento de quadros de cirrose e câncer hepático, com 1,1 milhão de mortes por ano. Por isso, a possibilidade de se chegar a taxas mais altas de cura funcional da doença, que dispense o uso de medicamentos contínuos, tem sido um dos desafios da academia e da indústria farmacêutica.
No Brasil, estima-se que 1 milhão de pessoas conviva com hepatite crônica. Destes, aproximadamente 230 mil são diagnosticados e 115 mil têm indicação de tratamento. Apenas 44 mil são efetivamente tratados, segundo painel de hepatites do Ministério da Saúde.
Rumo à cura funcional da hepatite B?
Em editorial da The New England Journal of Medicine, a hepatologista Anna Lok, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, se referiu aos achados como um “grande passo rumo à cura da hepatite B”. Contudo, ainda falta entender se os pacientes conseguem sustentar a negativação do vírus no longo prazo. Por isso, novos estudos estão sendo projetados nesse sentido.
Esses resultados eram aguardados pela comunidade científica desde janeiro, quando a farmacêutica GSK anunciou que os testes do Bepirovirsen haviam sido positivos. Em outra sessão do EASL 2026, o médico Harry Janssen, da Erasmus University Medical Center, de Rotterdam, nos Países Baixos, uma das referências sobre o tema, chegou a dizer que ter 20% de taxa de cura funcional seria um grande passo, uma vez que a hepatite B é uma doença bastante complexa. Até agora, essa taxa estava entre 0% a 5% com tratamentos com antivirais de primeira linha como Entecavir e Tenofovir.
“Na hepatite B, não podemos falar em cura porque o vírus não vai embora, pelo menos com o arsenal terapêutico que temos hoje”, explica Mário Guimarães Pessoa, vice-presidente da Sociedade Latino-Americana de Hematologia (ALEH). Por isso, a cura funcional é o objetivo central da maioria das inovações em desenvolvimento.
O ineditismo desses resultados pode ser explicado pelo próprio mecanismo de funcionamento do Bepirovirsen. Além de atacar a replicação viral do vírus da hepatite B, como outros medicamentos em uso já fazem, a molécula liga-se ao mRNA viral para impedir que ele se transforme em proteína. Também parece agir sobre a estimulação da imunidade do portador do vírus.
“Os antivirais análogos de nucleotídeos usados ao redor do mundo para tratamento da hepatite B são desenhados para parar a replicação viral e não para estimular o sistema imune. Consequentemente, suas taxas de cura funcional são baixas”, afirma Melanie Paff, vice-presidente e líder do Desenvolvimento de Medicamentos de Hepatite B da GSK, que define os resultados alcançados como significativos.
Segundo ela, mais de 50 moléculas foram testadas por diferentes farmacêuticas nos últimos dez anos em direção a uma cura funcional e essa foi a primeira que conseguiu avançar para a fase 3 de testes clínicos. Além dela, a AusperBio também vem desenvolvendo estudos com a AHB-137. No EASL foram apresentados resultados da fase 2. Em dezembro, a companhia anunciou que terminou o recrutamento de voluntários para a fase 3. Por enquanto, esses estudos avaliaram a população chinesa.
Diferentemente, o Bepirovirsen avaliou pacientes de 29 países, inclusive, o Brasil. “Como a hepatite B é uma doença bastante heterogênea, em termos de genética do vírus e das pessoas, é importante ter essa diversidade. Por mais que seja mais prevalente em pacientes asiáticos, agregar perfis de pacientes de outras etnias, como o Brasil, é fundamental”, explica Mônica Gomes, infectologista do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná, que foi responsável por um dos centros de recrutamento de pacientes no Brasil.
A GSK entrou com processo para aprovação regulatória do Bepirovirsen no Japão, Estados Unidos, China e Europa. A expectativa é que entre na lista prioritária de avaliação nas agências reguladoras e que seja aprovada em agosto, no Japão, em outubro, nos Estados Unidos, e em meados de 2027 na China e Europa. Segundo a GSK, no Brasil, a expectativa de aprovação é junho de 2027.
Além disso, estudos estão em fase 2 de desenvolvimento para testar a eficácia do medicamento em pacientes que não estão recebendo nenhum tratamento tradicional para hepatite B. Outros estudos também estão sendo conduzidos para verificar se a sustentação de negativação dos pacientes se mantém nos próximos cinco anos. Também deve-se analisar a efetividade do Bepirovirsen combinado a outras medicações.
No Brasil, o próximo desafio inclui a inserção do teste de quantificação do HBsAg na prática clínica brasileira. Até hoje, a testagem da hepatite B no país tem um indicador qualitativo. Isso seria necessário para medir o grau de gravidade da doença e, assim, definir pacientes elegíveis para tratamentos e, também, para recrutamento de futuros estudos clínicos. Também é preciso avançar em formas de fazer as pessoas chegarem até o diagnóstico da hepatite B, já que os testes são fornecidos pelo sistema público e ainda há baixa testagem.
*A repórter viajou para a EASL 2026, em Barcelona, à convite da GSK.