O mercado de análogos de GLP1 para o tratamento de diabetes e obesidade no Brasil ganhou novos capítulos nas últimas semanas. A chegada de novos concorrentes de canetas emagrecedoras, como são conhecidas popularmente, trouxe redução de preços para o consumidor e uma nova proposta para incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A farmacêutica Novo Nordisk anunciou em 15 de junho que submeteu novamente o Wegovy (semaglutida biológica original injetável) à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), com um desconto de 59% no preço vendido ao governo.
Paralelamente à avaliação, o Ministério da Saúde deve iniciar um estudo para testar a viabilidade de dispensação e protocolo médico. No entanto, com novos entrantes neste mercado, uma disputa entre farmacêuticas deve ocorrer, em busca de marketshare e melhores condições ao SUS.
No mesmo dia do anúncio da Novo, as primeiras canetas da EMS chegaram às farmácias. A farmacêutica estima um ganho de R$ 500 milhões no primeiro ano de comercialização do Ozivy, que tem preço sugerido de R$ 452. Outra companhia brasileira, a Eurofarma, anunciou redução de preços para Poviztra e Extensior, frutos de parcerias com a Novo, de até 48%. A Hypera anunciou, nesta quarta-feira (24), que aguarda o registro sanitário da sua caneta emagrecedora, que já possui nome: Semavy.
De acordo com Anderson Ribeiro, sócio da área de Life Sciences & Healthcare do Souto Correa Advogados, com a queda de patente da semaglutida e com novos entrantes neste mercado, a tendência é que novos cortes de preços possam ser feitos pelas empresas para buscar ainda mais marketshare. Esse movimento tende a facilitar a incorporação ao SUS. No entanto, observa que quem sair na frente na corrida deve se beneficiar. “Alguns deles talvez não tenham mercado e vamos ter que ver se vão ser apresentações e estratégias diferentes, de comportamento, de posicionamento em mercado privado ou público”, observa.
Em nota, a Novo Nordisk afirma que acredita que “a nova proposta representa um avanço importante ao combinar evidências clínicas robustas, uma população elegível mais específica e uma modelagem econômica desenvolvida para atender aos critérios de custo-efetividade e sustentabilidade do SUS”.
De acordo com o Grupo FarmaBrasil, cerca de 20 pedidos de registros estão na fila da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A expectativa é que, no segundo semestre de 2026, novas farmacêuticas entrem neste mercado. “Só de janeiro a maio a semaglutida no Brasil movimentou R$ 2 bi. Foram cerca de 2,150 bilhões de unidades comercializadas. Em maio, as vendas foram de R$ 450 milhões. Os números são impressionantes. O conjunto dos agonistas de GLP-1 no mercado de varejo brasileiro passou de 3% do mercado em 2021 para 9% em 2025. Todos os números estão indicando esse enorme potencial de mercado desses medicamentos”, afirma Reginaldo Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil.
Próximos passos e estratégias das farmacêuticas
A Eurofarma tem trabalhado sua estratégia reforçando ser a única empresa nacional com aprovação da Anvisa para a indicação de obesidade e sobrepeso associado a comorbidades. Isso porque a Ozivy, concorrente da EMS, foi aprovada para diabetes tipo 2. Também foca que seu produto utiliza semaglutida biológica original, já que é comercializado em parceria com a Novo Nordisk.
“A redução de preços dentro do nosso programa é resultado de uma estratégia comercial estruturada, desenhada para sustentar o negócio no longo prazo, mas, sobretudo, estando alinhada ao propósito de ampliar o alcance de tratamentos inovadores”, afirma Andrea Frazão, diretora da unidade de negócios da Eurofarma.
A farmacêutica tem oferecido um programa de suporte ao paciente, considerado um pilar importante para a ampliação do acesso, oferecendo suporte contínuo ao longo da jornada de cuidado, contribuindo para maior adesão ao tratamento e melhores desfechos clínicos. De acordo com a Eurofarma, o programa já conta com mais de 200 mil pessoas cadastradas.
Apesar de não comentar projeções de mercado, Frazão afirma que o segmento de análogos de GLP-1 vem apresentando crescimento expressivo e ainda possui amplo potencial de expansão. “Para fins comparativos, o varejo farmacêutico no Brasil cresceu 13% nos últimos 12 meses até maio de 2026, contra um crescimento de 97,6% somente do mercado de GLP-1”, aponta a diretora.
Já a EMS afirma que o preço comercial da sua caneta é resultado de, entre outros fatores, investimentos em tecnologia, eficiência operacional, ganho de escala e desenvolvimento de estrutura produtiva voltada para medicamentos baseados em peptídeos. “Os investimentos realizados ao longo dos últimos 10 anos permitiram à companhia construir capacidade industrial para atender a uma demanda crescente, gerando ganhos de competitividade e eficiência que contribuem para oferecer alternativas mais acessíveis à classe médica e pacientes”, afirma Marcos Sanchez, vice-presidente da EMS.
Questionado se novos lançamentos nesse segmento estão no escopo da farmacêutica, o executivo aponta que deverão lançar outras moléculas e disputar mais mercados conforme a expiração de patente ocorrer, como será o caso também da tirzepatida, prevista para 2036.
Análise do mercado e caminhos para indústria
Apesar de a corrida pelo mercado de semaglutida, a análise do mercado é que o Mounjaro, da Lilly, ainda ocupa a maior fatia das canetas emagrecedoras. Por isso, a briga é pela menor fatia, seja pelo posicionamento de marca da farmacêutica, pelos dados de eficácia ou por se colocar como um produto de nova geração. Ainda, existem novas fórmulas e apresentação sendo desenvolvidas por farmacêuticas mundo à fora.
Para a semaglutida, é possível que novos estudos ampliem as indicações. “É bem comum a indústria ir explorando novos usos e, com isso, eventualmente, ter formulações, apresentações e com processos tecnológicos distintos. Lidando com diferentes problemas tecnológicos que também podem ser passíveis de alguma proteção patentária”, explica Anderson Ribeiro, do Souto Corrêa Advogados.
A Novo Nordisk submeteu para aprovação da Anvisa a comercialização do Wegovy em comprimidos. De acordo com a farmacêutica, há um portfólio robusto de pesquisa e inovação, com estudos em andamento avaliando novas moléculas e abordagens terapêuticas para o tratamento da obesidade.
Mesmo que a patente tenha expirado no Brasil, o advogado explica que, para a empresa detentora da patente da semaglutida, no caso a Novo Nordisk, há caminhos para explorar outros mercados, com foco em países com Patent Term Adjustment (PTA), mecanismo de extensão de patente por atraso no registro.
“Eventualmente a proteção patentária expirou no Brasil, mas continua vigente em vários outros mercados, inclusive com possíveis extensões e outras exclusividades que eles possam ter. Existem ambientes mais amigáveis a essa inovação na Europa, nos Estados Unidos, Japão, mesmo na América Latina, vários países que acomodam esse tipo de proteção. Então, outros cenários podem incentivar essa pesquisa por novos usos”, explica o advogado.
Por outro lado, de acordo com Reginaldo Arcuri, do Grupo FarmaBrasil, a indústria nacional está preparada para oferecer canetas ao SUS e tem capacidade de atender à demanda da saúde pública. No entanto, é preciso acompanhar o desenrolar das análises e estudos do Ministério da Saúde para entender os próximos passos.
“O Ministério está avaliando para não tomar decisões que sejam frágeis economicamente ou que sejam inadequadas em termos terapêuticos e médicos. Mas, com certeza, assim como já vem fazendo em uma outra classe de moléculas extremamente complexas, que são os anticorpos monoclonais, as nossas empresas já estão produzindo e cada vez mais isso está sendo fornecido ao SUS”, afirma Arcuri.