A indústria brasileira e associações do setor produtivo intensificaram a ofensiva diplomática nos Estados Unidos para tentar mitigar o impacto de novas barreiras comerciais que podem sobretaxar 4.187 produtos exportados pelo Brasil. O tarifaço, impulsionado por investigações do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos), pode elevar a tributação acumulada sobre bens brasileiros para 37,5%. Nesta 2ª feira (6.jul.2026), representantes de diferentes segmentos afirmaram ao Poder360 que mantêm negociações com autoridades norte-americanas e defendem a ampliação da lista de produtos isentos, além de descreveram um clima “receptivo”.
O montante em jogo é de US$ 14,9 bilhões em exportações, de acordo com a CNI (Confederação Nacional da Indústria). As sobretaxas propostas dividem-se em 25% referentes à Seção 301 da legislação comercial norte-americana –que investiga práticas brasileiras em áreas como desmatamento e economia digital– e 12,5% associados a investigações sobre trabalho forçado. O prazo para um acordo entre os países termina em 15 de julho.
Eis o que disseram representantes de alguns dos setores afetados:
máquinas e equipamentos: a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) defende a exclusão total do setor da tarifa de 25%. O mercado norte-americano absorve cerca de 25% das exportações da categoria, e a entidade afirma que uma ruptura em uma cadeia produtiva integrada traria prejuízos financeiros para empresas brasileiras e norte-americanas;
café: o setor cafeeiro concentra esforços para assegurar a inclusão do café solúvel na lista de exceções. Enquanto o café verde e o torrado já foram indicados para isenção, o Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) e a Abics (Associação Brasileira da Indústria do Café Solúvel) defendem que o produto também seja poupado das tarifas, sob o argumento de que os EUA não possuem produção suficiente e dependem do insumo brasileiro para fabricar produtos de maior valor agregado.
arroz: a Abiarroz (Associação Brasileira da Indústria do Arroz) citou a sólida relação comercial entre Brasil e EUA no setor e dificuldade para o país substituir o arroz brasileiro.
Na avaliação dos empresários, a taxação também prejudicaria a indústria norte-americana, já que 62% dos itens atingidos são bens intermediários utilizados como insumos em processos produtivos nos EUA. Segundo a CNI, 62% dos itens atingidos são bens intermediários utilizados como insumos em processos produtivos no país.
Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé, descreve o ambiente como uma “discussão muito rica”, no qual o foco central é demonstrar os impactos negativos que as tarifas teriam na própria indústria e no consumidor norte-americano.
Embora exista alinhamento estratégico entre associações brasileiras e norte-americanas em setores complementares, há tensão nas cadeias produtivas que competem diretamente com produtos locais. Segundo Matos, isso resulta em um escrutínio detalhado sobre a integração das cadeias e a estabilidade de preços.
DIPLOMACIA DO SETOR PRIVADO
O diretor-geral da Cecafé afirma ainda que há uma “diplomacia do setor privado”, que tem sido um dos principais instrumentos de negociação nas audiências realizadas em Washington. Segundo ele, a estratégia consiste em demonstrar às autoridades norte-americanas os impactos das tarifas sobre a inflação e sobre o consumidor norte-americano, especialmente em produtos para os quais não há oferta doméstica suficiente. Matos diz que o elevado nível técnico dos representantes dos departamentos do Tesouro, Comércio e Agricultura exige argumentos detalhados sobre agregação de valor, formação de preços e estabilidade da oferta.
A CNI classifica as medidas como um “exagero” e afirma que elas não se justificam sob os pontos de vista jurídico e estratégico. A estratégia de defesa da indústria brasileira, coordenada pelo embaixador Roberto Azevêdo, baseia-se na complementaridade entre as economias dos dois países. Segundo a entidade, o Brasil é o principal fornecedor dos EUA em 11 das 13 categorias de produtos mais afetadas pelas investigações, incluindo ferro-gusa, açúcar bruto e hidróxido de alumínio, o que reforça o potencial impacto das tarifas sobre a própria indústria norte-americana.